ficção

Patagônia

Um relato de viagem

Alejandro Chacoff
No guichê, anunciamos que pretendíamos chegar à Patagônia. O atendente franziu o cenho e arrancou as passagens da impressora com um rasgo. “Vocês já estão na Patagônia”, respondeu
No guichê, anunciamos que pretendíamos chegar à Patagônia. O atendente franziu o cenho e arrancou as passagens da impressora com um rasgo. “Vocês já estão na Patagônia”, respondeu FOTO: WWW.ANDYLEE.COM

Por muito tempo, achei que eu escreveria diários e relatos de viagens. Foi isso que eu disse ao meu chefe quando, aos 28 anos, pedi demissão do emprego. Eu vivia em Londres e ganhava um dinheiro bom (mas não tão bom quanto a minha família achava); de resto, era como qualquer outro emprego. Eu nunca havia escrito uma linha sequer. Precisava encontrar alguma abstração pretensiosa para me tranquilizar. “Vou escrever um romance” era uma frase cômica e, na Inglaterra, um clichê (qualquer idiota com meio diploma de Oxford queria secretamente fazer isso). Certa vez, num evento do escritório, eu disse, com tranquilidade fingida e concisão cínica (mas com um orgulho pomposo e verdadeiro): “Irei escrever.” Até os mais bêbados no Queen’s Head me olharam com pena; depois, a aniversariante – pálida e com manchas rosadas no pescoço, efeito da bebida – sugeriu, em tom jocoso, que já há algum tempo ela planejava escrever as suas memórias de prostituta na infância.

O meu chefe tinha uma papadinha no lugar do queixo, e as suas abotoaduras, que brilhavam histericamente nas camisas discretas de tom rosa pálido, sempre me davam um sentimento difuso de tristeza. Alguém me havia dito que desde a Carta Magna a sua família era dona de metade da Escócia. Dado o fetiche inglês por subestimar as coisas, suponho que ele tinha ainda mais terras. Quando eu me demiti e disse que escreveria “diários e relatos de viagens”, experimentando essa nova expressão abstrata da qual eu começava a gostar cada vez mais, ele não enrubesceu como de praxe. Apenas mexeu as sobrancelhas e perguntou, num tom ansioso: “Você já conseguiu um agente?” Talvez ele também quisesse escrever.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES

Alejandro Chacoff

É escritor, ensaísta e crítico literário da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)

Leia também

Últimas Mais Lidas

Polícia na porta, celular na privada

A prisão do juiz investigado sob suspeita de vender sentença por 6,9  milhões de reais – e que jogou dois telefones no vaso sanitário quando a PF chegou para buscá-lo

Na terra dos sem SUS

Nos Estados Unidos, mães de jovens negros mortos pela polícia enfrentam a epidemia, o desemprego e o racismo

Um idiota perigoso incomoda muita gente

Memórias e reflexões sobre o tempo em que voltamos a empilhar cadáveres por causa de um vírus

Mourão defende manter Pujol no comando do Exército

Vice afirma que general deve permanecer à frente da tropa até o fim do mandato de Bolsonaro, mas admite que não apita nas nomeações do presidente

Na piauí_166

A capa e os destaques da revista de julho

Foro de Teresina #107: As guerras surdas de Bolsonaro

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

O desmanche de Witzel

Um depoimento exclusivo denuncia os elos ocultos entre o governo de Witzel e as milícias

Para cuidar de quem cuida

Referência em Covid-19, hospital da USP cria programa de apoio a profissionais de saúde e descobre que 77% dos atendidos sofrem de ansiedade

Mais textos
1

A morte e a morte

Jair Bolsonaro entre o gozo e o tédio

2

Na piauí_166

A capa e os destaques da revista de julho

3

PCC veste branco

Traficante da facção usou 38 clínicas médicas e odontológicas para lavar dinheiro, comprar insumos para o tráfico e socorrer “irmãos” baleados

4

O desmanche de Witzel

Um depoimento exclusivo denuncia os elos ocultos entre o governo de Witzel e as milícias

5

A solidão de rambo

Suspeitas de corrupção e conluio com as milícias desmontam Wilson Witzel

6

Chumbo grosso no Ministério Público 

Bloqueio de bens na Suíça, delação premiada contra Moro e interferência na PF acirram guerra entre a Lava Jato e a Procuradoria-Geral da República

7

Tudo acaba em barro

Um coveiro em Manaus conta seu cotidiano durante a pandemia

8

Contra a besta-fera

A luta dos cientistas brasileiros para combater o vírus é dura – vai de propaganda enganosa a ameaça de morte

9

A droga da desinformação

Publicações falsas ou enganosas sobre remédios sem efeito comprovado contra Covid-19 são um terço das verificações do Comprova no último mês

10

Foro de Teresina #107: As guerras surdas de Bolsonaro

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana