poesia

Piauí, e outros três poemas

Manoel Ricardo de Lima
IMAGEM: JULIAN CLORAN_2009

PIAUÍ

um

goethe encontra hackert
em roma e pergunta
algo acerca da pintura
de paisagens. é 15
de novembro, 1786. diz
que hackert tem bom
gosto, diz que suas pinturas
parecem reais

212 anos depois
tombei um fusca num 15
de novembro. os 4 pneus
virados para o céu, era
verde. movi antes (interrompi,
imagino) a comemoração
cívica na avenida

a perna quebrada à altura
da coxa, o sangue escorrendo
pela testa, a cabeça aberta, uma
dormência e a impressão
severa: a ruína de herculano
escava o presente

antes de ir para nápoles
goethe fala de ganimedes
estendendo um cálice de
vinho a júpiter e recebe
um beijo, isto é uma troca. isto
parece uma erupção do
vesúvio, talvez pense. e como
é estrangeiro pode ser
arrastado pela correnteza
de lava, mas talvez um vulcão
guarde algo de presente

dois

goethe vai para nápoles:
vedi napoli e poi muori, dizem
por lá. alguém lhe conta de
vico, ele ri. há algo em vico
entre o bom e o justo, um
pó e uma cor cinza são
quase um convite para
ficar, um prazer

estou bem, mas vendo menos
do que deveria
, ele diz. uma
imagem completa parece
pouco, muito pouco. sulcar
o rosto sem tempo e sem
vestígio: o fusca foi
para o ferro-velho rápido
demais. o vesúvio explode
outra vez

arrebentei o rosto e a boca
no tronco da árvore. espatifei
o pára-brisa, raspei a mão
direita pelo nariz, é
indiferente se estava inteiro
se alguém podia
aproximar e dizer alguma
coisa como: você está bem
ou você não parece ter índole
alemã

três

goethe visita o sopé do
vulcão, e anota: algumas coisas
acontecem por hábito e outras
porque confiamos nelas, como
nos guias – lieber freund, wie
magst du starrend auf das leere
tuch gelassen schauen?
–, por
fora as pequenezas e o mundo
dentro do menor espaço
possível, como um
fusca verde

a história é contra a
natureza, o fusca partido ao
meio e a árvore intacta: uma
paisagem é mínima e sem efeito
no vapor de luz, nos contornos
apagados e sem memória da
vida, como um acidente logo
na primeira hora da
manhã enquanto se ouve
uma canção que diz a
primavera que espero

SE ELE DISSE HOPPER, ELE DISSE

ele voltou a deitar no meio da
sacada. ninguém se aproxima
tão rápido, ele pode ouvir. menos
o murmúrio, você disse, repetindo
que ele sempre deita no meio
da sacada, muitas vezes. lembro
do deserto: lugar de repetir
o infinito. ele também perdeu um
amigo por atropelamento. quase
não respira, ofega. o que nos prende
a ele? o que nos faz confiar nele?

precisamos voltar a arrumar os
desertos, ele nos ensina. ou
encena um desvio de hopper: o cão
deitado e o sol.
quem sabe a quem
aqui, quem sabe o que. a palavra a
palavra e a falta, esta falta: lejos

UM CAMPO DE TRABALHO

este me parece um mundo sem miniatura, mesmo dentro de
casa, com todas estas passagens numa voluta, à tarde –
Asja Lacis, como visita, mede os olhos enquanto ninguém
reage à minha frente, todos com medo: quem é que morre num
campo de trabalho numa outra guerra pura num breve embaraço?

não sei como dizer o meu nome

as paredes desabam no meio da cabeça, uma fenda, estas outras
duas borrachas brancas, esta luz forte e um slogan que grita: ninguém
passa ninguém passa
. a menina olha a menina faz buuu

O QUADRADO BRANCO, UM

um lanceado sob a ponte. e a força da água não diz a sombra do meu braço, magro, encostado no parapeito. a solapa do limite é meu corpo. posso gritar um drama: death, oh, my death, because my eyes aren’t closed. esta é uma parte que punge urge e me roça na parede, uma parte que bebe e que é nunca. se a caliça não cumpre, não tem jeito, mas foi este o meu alvoroço de espera. e as portas até esperam, mas não como as pessoas. um próximo e feio rangido. a cicatriz dos ausentes num pedaço de lodo penso: alluvione, alluvione. os estilhaços de tempo. amor retorcido ao léu. às vezes tudo se reduz a entulho, a pó, a medo e a uma ou duas variantes de coragem. a marquise de água, por exemplo, a água da avenida, os três metros quadrados de marquise e aquelas calandras num sobrevôo pelos arredores, e um céu technicolor. são rodopios num sem fim. amor que inventa leveza abraço perjúrio e nojo: às vezes é impossível ficar acordado, ou dormir. o gesto é até possível, quase cancro ou soco na boca

Manoel Ricardo de Lima

Manoel Ricardo de Lima, escritor, professor e poeta piauiense, mora em Florianópolis. É autor do romance As Mãos, da editora 7Letras.

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