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Poder, ritos e coturnos

A falta que nos farão as novas fotografias de Orlando Brito

Flávio Pinheiro | Edição 187, Abril 2022

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Há uns tantos coturnos espalhados no vasto e extraordinário repertório de imagens de Orlando Brito, gigante do fotojornalismo brasileiro que morreu no dia 11 de março. Coturnos refulgem engraxados nos pés da farda militar, pousados sobre a grama nos arredores do Congresso Nacional, em Brasília. Foi ali que Brito os fixou no dia 13 de dezembro de 1968, quando o regime atirou às favas seus últimos escrúpulos democráticos e instaurou num dia de Sol a pino a prolongada escuridão da ditadura. Noutra imagem, os coturnos pairam num pequeno platô, acima do desalento de rostos de trabalhadores, deserdados do milagre econômico que por algum tempo foi parceiro e cúmplice da durindana.

Coturnos são velhos conhecidos. Há décadas arrombam a pontapés portas de moradias em favelas e periferias. Com brutalidade endêmica, chutam e pisoteiam os suspeitos de sempre – negros e negras pobres, sobretudo jovens.

Nas lentes de Brito, os detalhes são sintomas. Infatigável fiscal do poder, ele acumulava a cada dia evidências visuais da vida na capital. O poder, sua arrogância, suas manifestações patéticas, suas ridicularias divertidas ou apenas vulgares. Rostos, muitos rostos, do teatro da política, da cenografia de dias heroicos e sinistros, da coreografia incidental de uma miríade de circunstâncias.

Brito nasceu em 1950 em Janaúba, cidade do Norte de Minas Gerais, que hoje dá abrigo a pouco mais de 72 mil almas. Provavelmente já nasceu com o olhar crismado pela curiosidade onívora, dom e atributo dos melhores praticantes de seu ofício. Aos 6 anos, mudou-se com o pai agricultor para Brasília, ainda empoeirada por obras e atordoada pelo zigue-zague de tratores de terraplanagem. Com 14 anos, começou a trabalhar como laboratorista da sucursal do jornal carioca Última Hora. Com frequência, essa é uma pré-escola da educação do olhar. Aos 17, já era fotógrafo profissional.

Em tempos remotos, trabalhamos juntos na revista Veja e no Jornal do Brasil. Retomamos contato mais frequente durante a pandemia porque, como consultor, ocupei-me de um projeto de fotojornalismo que resultará num site a ser lançado em breve.[1] O nome – Testemunha Ocular – parece feito para Brito e é uma tentativa de denominar a faina dele e da destemida estirpe de seus pares.

 

Há muitas definições de fotografia. A do escritor e crítico de arte inglês John Berger é curta e direta: “A fotografia é o processo de tornar a observação consciente de si mesma.” Em qualquer instância, o observador tem papel central. Seu olhar cultivado na prática, ou burilado na teoria, ainda reage à desvairada banalização da fotografia que a tecnologia digital promoveu nos últimos tempos. Num cálculo todo feito de aproximações, Michel Frizot, historiador da fotografia, estimou que em 2005 foram feitas no mundo 54 bilhões de imagens, mais de 1 bilhão por semana. Já lá se vão quase dezessete anos. Imagine agora. Apesar do tsunami da imagem em movimento de uma infinidade de vídeos, o território da imagem parada resiste. Talvez como o livro, guardadas tantas proporções, que ainda sobrevive, e galhardamente, às profecias de extinção.

Brito foi um raro e refinado observador. Atingiu várias vezes o ponto culminante da observação quando o relato visual diz sozinho quase tudo. A rigor, prescinde de palavras ou de datas. Sustenta-se numa certa completude, consumada pela mistura de apuro formal e singular senso de oportunidade, que é sorte, mas não apenas sorte. O fio de luz que contorna a efígie negra do deputado federal Ulysses Guimarães (1916-92), um clássico de Orlando Brito, foi parar na capa da Veja. Dispensa legenda. Sem nuances nem sinais particulares, a mancha escura é inequivocamente Ulysses. Importa tanto assim saber quando e onde a foto foi feita? Basta que exale a dignidade do personagem. Brito fez centenas, milhares de retratos que transcenderam a mera expressão facial. Desvendaram índoles, temperamentos, vícios de caráter, comedimento, extravagâncias, bonomia e humor.

Foi assim que construiu uma carreira impressionante. Nos dezesseis anos em que trabalhou na Veja, fotos suas estamparam 113 capas da revista. No período, ganhou onze vezes o Prêmio Abril destinado apenas a profissionais da casa, que foi a maior editora de revistas do país. Não se sentia tão à vontade em cargos de chefia. Gostava mais da rua. Mesmo assim foi editor de fotografia da própria Veja e do Jornal do Brasil. Publicou cinco livros, participou de exposições, consagrou-se. Abria portas e gabinetes com lábia, fala mansa, admirável fluência. Atribui-se à combinação de bigodes e picardia o apelido, dado por alguns colegas, de Cantinflas (1911-93), ator e comediante mexicano, célebre por sua ironia e ladina tagarelice.

Há distintos teores de jornalismo no sangue de fotógrafos combatentes de notícias. Em nossos contatos, Brito queixava-se da inapetência para a apuração que se alastrava perigosamente. Uma enchente de opiniões inundou publicações, a internet e redes sociais. A informação e o nexo crítico entre fatos foram relegados a um segundo plano. Seria cômodo dizer que o mundo do jornalismo andou para a frente e que Brito ficou para trás. Engano. Fotógrafos são forças auxiliares na batalha, por vezes inglória, pela primazia da verdade factual. Continua de pé a pergunta que remete a discussões intermináveis. É possível haver vida democrática sem apreço pela verdade factual? Brito sozinho era uma unidade de imagens e notícias. Sem vínculo com publicações, impôs-se a rotina de sair todo dia à cata de imagens e notícias que abasteciam a OBritoNews, sua microempresa.

Ele cruzou o país de fora a fora. Conheceu meio mundo. Quando pedi sugestões de nomes de fotojornalistas fez, generosamente, uma lista com gente de todo canto. Contou uma história curiosa. Anos atrás, ele e três de seus mais diletos amigos – Evandro Teixeira, Rogério Reis e Igo Estrela – pegaram um pequeno avião para fotografar mais uma vez a cerimônia do quarup, no Parque Nacional do Xingu. Pela combinação, pousariam numa clareira onde os esperaria um jipe para levá-los a uma das aldeias. Mas o combinado furou, nada do jipe. Apareceu então, de carro, Yanahin Waurá. Ofereceu uma carona. Adorava fotografia. Brito lhe deu conselhos. Ficaram amigos. “É um fotógrafo sensacional, inacreditável”, me disse, mesmo reconhecendo que não podia ser caracterizado como fotojornalista.

Saturado pela agenda de Brasília, explorou novas paragens. Saltou da memória razoavelmente estruturada do poder para a desmemória que apaga a história de indígenas, de quilombolas e dos pobres.

Se, como disse Roland Barthes, a fotografia é um “certificado de presença”, o fotojornalismo é um certificado de presença da vida brasileira, com todas as suas contradições. Dia 6 de fevereiro, Brito fez uma operação de emergência. No dia seguinte, completou 72 anos. A partir da cirurgia, seguiu-se um calvário hospitalar que culminou com a falência múltipla de órgãos que o matou pouco mais de um mês depois. Três dias antes, morrera sozinho em seu apartamento de um único cômodo em Copacabana, Rio de Janeiro, o fotógrafo Erno Schneider, autor de uma das mais icônicas imagens do fotojornalismo brasileiro, a do ex-presidente Jânio Quadros num passo estabanado com as pernas enroscadas que coreografam suas incertezas. Fez muito pela memória, morreu esquecido. Orlando Brito, com toda a justiça, foi homenageado.

“A amizade é uma das belas-artes”, escreveu o poeta Manuel Bandeira. Para muitos amigos, eu inclusive, o desaparecimento de Orlando Brito nos priva de novas possibilidades de beleza.


[1] Uma parte das fotografias do projeto pertence ao acervo do Instituto Moreira Salles (IMS), cujo Conselho de Administração é presidido pelo fundador da piauí.