poesia

Poemas

Julia de Souza
ILUSTRAÇÃO: REBECCA MCMILLIAN

MONGE 

alguém me disse

queria viver quatrocentos anos

aos quatrocentos anos poderia

ser monge viver livre das rédeas

do desejo, fumar à janela

um único e suficiente cigarro

ver o mundo com clareza

sem o prisma da vontade

ir à padaria atrás de

pão e não da gaja de carnes

rijas ver só o que há de triste

na superabundância dizer

palavras desinvestidas da queda

querer apenas o que está

ao alcance de um braço abafar

enfim a urgência do monstro

inesgotável

 

(aos quatrocentos anos

as esporas já estariam

alinhadas com o vento.

aos quatrocentos anos tenho

a certeza disso não haverá

mais perdas nem resto de borra

no fundo das taças)

 

aos quatrocentos anos seria

um velho de pernas moucas

sentado de costas para as plantas

que crescem no descontrole

do jardim

 

VERÃO 

talvez vocês consigam

atravessar esse verão

talvez possam matar sua sede

com jarras de cleriquot

enxergar vultos nas montanhas

saber o suficiente para falar sobre

o que falar à beira de uma piscina

onde uma abelha se afoga

no que resta de azul

esta é a cor dos meus sonhos

talvez vocês consigam

atravessar esse verão

mas poderão me perdoar

pelo meu fracasso?

 

DESGRAÇA 

não amava mais os fatos

sabia entre outras coisas

que a segunda-feira é um dia impuro

e que há aviões que borrifam gotículas de água

na base das nuvens para fazer chover

mas não amava mais os fatos

nem os evidentes nem os pressentidos

esperava o dia em que algo causasse

novo espanto pois pouco efeito

tinha sobre ele o fato de que os corredores

frios das universidades podiam gerar

palavras tão belas como cadeiraço.

 

conhecia de cor certos fatos

os mais curiosos para as mesas

de bar e os jantares artísticos –

a controversa domesticação

dos chimpanzés e as aplicações sociais

e afetivas do efeito bumerangue

– o grande amor

aquele brinquedo

aquela arma.

 

mas não os amava

pas du tout e sem esse amor

a vida parecia um eterno preâmbulo

sem esse amor só lhe restava

a idiotia de ser um pouco

como um peixe

 

talvez houvesse

uma película

envolvendo os fatos

talvez houvesse uma película

invisível que o apartasse

da urgência retroativa dos fatos

 

era sempre pontual demais

e assim sujeito a desencontros

os fatos lhe chegavam sempre amornados

como se ao acontecerem sussurrassem

ya tu sabes

 

enquanto assim fosse

– e isso era certo –

nada de bom se passaria

sim, foi uma espécie de desgraça

essa de já não amar os fatos

 

faltava-lhe o que o ajudasse

a perceber a hierarquia dos fatos

uma trena uma bússola

um termômetro uma antena

uma forma qualquer

de mediação

 

e tão sem mãos e pernas

na abundância do mundo percebeu

com o sorriso frouxo dos retardatários

que o caos está mesmo muito próximo

da depuração total

 

SEGUNDA-FEIRA 

segunda-feira acordamos

com a notícia: havia

uma bomba-relógio

amarrada a um poste

na avenida paulista

 

como de costume

eu não tinha escutado

as trovoadas à noite

como de costume

eu não tinha previsto

o ponto de ebulição

que as coisas atingem

na abertura da noite

 

eu não tinha percebido

como de costume

a bomba-relógio estava armada

a bomba-relógio era a ameaça

da noite engolir tudo o que veio

depois

 

os técnicos do esquadrão antibombas

desarmaram a bomba-relógio

a tempo de salvar a segunda-feira

 

mas você

você não queria ser salvo

Julia de Souza

Julia de Souza, poeta paulistana, é autora de Covil, lançado pela 7Letras

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