poesia

Poemas

Cesare Pavese

TRABALHAR CANSA

Travessar uma rua fugindo de casa
só um menino o faria, mas este homem que passa
todo o dia nas ruas não é mais menino
e não foge de casa.

Em pleno verão,
até as praças se tornam vazias de tarde, deitadas
sob o sol que começa a cair, e este homem que chega
por um parque de plantas inúteis detém-se.
Vale a pena ser só para estar cada vez mais sozinho?
Simplesmente vagar, pois as praças e ruas
estão ermas. Forçoso é abordar uma mulher
e falar-lhe e fazê-la viver com você.
Do contrário, se fala sozinho. É por isso que às vezes
algum bêbado à noite dispara discursos
e repassa os projetos de toda sua vida.

Certamente não é esperando na praça deserta
que se encontram pessoas, mas quem anda nas ruas
se detém vez ou outra. Estivessem a dois,
mesmo andando na rua, sua casa estaria
onde está a mulher. Valeria a pena.
Mas de noite essa praça retorna ao vazio
e este homem que passa não vê as fachadas
entre luzes inúteis nem ergue seus olhos:
sente só o ladrilho que outros homens fizeram
com mãos secas e duras, assim como as suas.
Não é justo deixar-se na praça deserta.
Com certeza há de andar pela rua a mulher
que, chamada, viria ajudar com a casa.



ATAVISMO

O garoto respira mais fresco, escondido
por postigos, olhando pra rua. Da clara fissura
se percebe a calçada, no sol. Não caminha ninguém
pela rua. O rapaz gostaria de sair
assim nu – é de todos a rua – e afogar-se no sol.

Na cidade, não pode. No campo, talvez,
se não fosse o profundo do céu na cabeça,
que amedronta e humilha. Há a relva gelada
que faz cócega nos pés, mas as plantas que miram
e os arbustos e troncos são olhos severos
para um corpo tão débil e sem viço, que treme.
Até a relva é estranha e repugna ao contato.

Mas a rua é deserta. Se alguém a cruzasse,
lá do escuro o rapaz ousaria fitá-lo
e pensar que as pessoas escondem um corpo.
Mas quem passa é um cavalo de músculos fortes,
e a calçada ressoa. O cavalo demora
a partir, nu e sem pejo, debaixo do sol:
vai marchando no meio da rua. O rapaz,
que queria ser forte e moreno como ele
e quem sabe puxar a carroça, ousaria mostrar-se.

Se há um corpo, é preciso exibi-lo. O rapaz não percebe
que cada um tem um corpo. O velhote enrugado
que passava de dia não pode ter corpo
assim pálido e triste; não pode haver nada
de tamanho pavor. Nem sequer os adultos
ou as mães que oferecem o peito aos meninos
estão nus. Têm um corpo somente os rapazes.
O garoto não ousa mirar-se no escuro,
mas bem sabe que deve afogar-se no sol
e habituar-se aos olhares do céu, para ser depois homem.

ENCONTRO 

Estas duras colinas, que estão em meu corpo
e o abalam com tantas lembranças, me abriram o prodígio
da mulher que não sabe que a vivo e não posso entendê-la.

Encontrei-a uma noite: uma mancha mais clara
sob estrelas ambíguas, na névoa do estio.
Recendia ao redor o perfume dos montes,
mais profundo que a sombra, e de golpe soou,
como vinda de dentro do monte, uma voz mais precisa
e mais áspera – a voz de algum tempo perdido.

Certas vezes a vejo, e ela vive adiante,
definida e imutável como uma lembrança.
Eu jamais consegui alcançá-la, e a sua presença
toda vez me escapole e me leva pra longe.
Se é bela, não sei. Mas eu sei que é bem jovem:
tanto assim que me ocorre, ao pensá-la, a imagem
de uma infância distante vivida por entre
as colinas. É como a manhã, desenhando em meus olhos
todo céu mais distante daquelas antigas manhãs.
Tem nos olhos um firme propósito: a luz mais precisa
que a alvorada jamais espalhou nas colinas.

Eu a fiz desde o fundo de todas as coisas
que me são mais queridas, e não a compreendo.

ULISSES

Este é um velho frustrado por ter feito seu filho
muito tarde. Perscrutam-se às vezes, na cara
– noutros tempos bastava um tabefe. (O pai sai
e retorna com o fi lho que esfrega a bochecha
sem erguer mais os olhos.) O velho se senta
até a noite, diante da grande janela,
mas não passa ninguém pela rua deserta.

De manhã, o rapaz escapou e retorna
esta noite. Escarnece, decerto. A ninguém
vai dizer se comeu seu almoço. Talvez
tenha os olhos pesados e deite em silêncio:
duas botas de lama. Após um mês de chuva
a manhã era azul.

Pela fresca janela
entra um cheiro de folhas amargo. Já o velho
não se arreda do escuro e não dorme de noite,
mas queria ter sono e esquecer-se de tudo,
como outrora, ao voltar de uma longa jornada.
Aquecia-se, antes, gritando e batendo.

O rapaz, que já está de regresso, não leva
mais tapas.
O rapaz começou a crescer e descobre
cada dia algo novo e não fala a ninguém.

Não há nada na rua que escape ao olhar
daqui desta janela. E o rapaz perambula
todo o dia na rua. Não busca mulheres
e não brinca no chão. Ao final, sempre volta.
O rapaz tem um jeito de ir-se de casa
que, quem fica, se sente jogado de lado.

TERRAS QUEIMADAS 

Fala o jovem esguio que esteve em Turim.
O mar grande se estende, ocultado por rochas,
e reflete no céu um azul deslavado. As pupilas
dos que o ouvem reluzem.

Chegar a Turim pela noite
é ver logo mulheres vagando nas ruas,
maliciosas, vestidas pros olhos, que caminham sozinhas.
Todas elas trabalham pela roupa que vestem,
cada qual para uma hora. Há matizes propícios
às manhãs como há cores pra sair pelos parques,
aos prazeres noturnos. Mulheres que esperam
e se sentem sozinhas, conhecem a vida por dentro.
E são livres. A elas nada se recusa.

Ouço o mar que golpeia e rebate, cansado, na costa.
Vejo os olhos profundos dos jovens à volta
coruscarem. Bem perto uma aléia de figos
desespera de tédio na rocha encarnada.

Há algumas, paradas, que fumam sozinhas,
que se encontram à noite e se deixam de dia,
ao café, como amigos. Todas elas são jovens.
De um homem esperam presteza e espírito,
e que seja gentil. Basta ir à colina
e que chova: abandonam-se como meninas,
mas já sabem gozar o amor. Mais espertas que um homem.
São vivazes e ousadas, e até nuas conversam
com o brilho de sempre.

Eu o escuto.
Observei as olheiras do jovem esguio,
bem profundas. Por elas passaram outrora esses verdes.
Fumarei noite adentro, esquecendo até o mar

Cesare Pavese

Cesare Pavese (1908–1950), poeta e escritor italiano.

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