poesia

Poesia

Alice Sant’Anna
ILUSTRAÇÃO: ADARA SÁNCHEZ ANGUIANO

do outro lado da porta mora um leão
é preciso aprender
a abrir a porta do quarto
com toda a delicadeza para que o leão
não acorde
no cinema na noite anterior
a tela preta antes de o filme começar
o silêncio da tela preta
qualquer barulho da plateia
botaria tudo a perder
ninguém tossia, ninguém respirava
o leão atrás da porta
há uma autoestrada
que não importa se liga o ponto a ao b
uma autoestrada que flui devagar
como pode uma rua
fluir devagar? como fluiria
de outro jeito?
uma autoestrada onde há uma interseção
um parque de esquina
onde as crianças brincam
na saída da escola
a autoestrada passa lentamente
mesmo quando tem pressa
pelo mercado do português
e por um brechó com roupas
em promoção na calçada
não é bem uma autoestrada
pensando bem é uma rua qualquer
marcamos de nos encontrar bem no meio
o tempo cronometrado da minha descida
e da sua subida
de longe avisto um vulto que só pode ser
de longe você avista uma pessoa com um casaco
na verdade o seu casaco
olhando assim deve ser outra pessoa
ninguém mais anda
na rua naquela hora
de longe um leão vestindo um casaco
a rua que chamamos de nossa
não é bem autoestrada mas vamos dizer assim
como alguém que mora num hotel
e aprende a gostar de morar num hotel
num quarto que não é bem seu
mas que por isso mesmo é tão seu
o mínimo necessário
porque o que gosta mesmo de ver
fica atrás da cortina
quando assistimos à chuva de raios
a vista carregada de nuvens
o morro dois irmãos apagado no nevoeiro
e o clarão que iluminava
a sala da casa em espasmos
de repente sinto muita preguiça
posso deitar no sofá?
o momento em que você percebe
que está vivendo um momento
por algum motivo
um momento mais importante
que os outros
porque você está
prestando atenção dessa vez
como quando vai a um museu e observa
algo só porque está na parede
emoldurado para ser olhado
com atenção
esse momento: você está vivendo
você não pediu por isso mas ninguém pede
um leão atrás da porta
impossível dizer se está dormindo
talvez não seja tão crucial saber
se está dormindo
você é um acrobata louco
minha prima quando era criança
um dia ficou de castigo e de raiva
cortou os próprios cílios
com a tesoura
uma falha que nunca foi corrigida
os cílios do olho direito para sempre
mais curtos
os cílios não crescem? se os cílios
fossem como os cabelos
e crescessem sem trégua
cobririam os olhos
como uma cortina e talvez
entrassem na boca e se agarrassem aos dentes
gosto de como você
não entende o que estou falando
e como toda vez me ensina
uma palavra nova que esqueço
em dez minutos
a rua da interseção continua
distante debaixo do fog
o parque e o brechó e o mercado do português
e mesmo que você não consiga lembrar
em detalhes qual era
o ponto a e o ponto b a autoestrada
que agora em outro país continua
atravessando lentamente aquele trecho
onde você desce onde ele sobe
um leão com o seu casaco
a rua ou a autoestrada
ou se pode chamar de avenida
o caminho onde duas pessoas

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Alice Sant’Anna

Alice Sant’Anna é carioca, autora da coletânea Dobradura, da 7Letras.

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