poemas

Jurupari

Não adianta buscar qualquer paraíso longe ou fora de vós

Waldo Motta

JURUPARI

Em sendo chegado o tempo
de um novo evangelho
e novas revelações
de combate ao mal da terra
e renovação do mundo

Jurupari vem do céu
sem trombetas e sem pompa
para restaurar a terra
e anular-lhe todo o mal
para ensinar outra vez
os preceitos rituais
as regras da convivência
e as normas de conduta
– a justiça e as leis
das regiões siderais
a arte de bem viver
a fórmula da justiça
da alegria e da paz.

Jurupari contristado
viu que o povo sofria
falto de conhecimento
vivendo como animais.



Cheio de aporrinhação
farto de ouvir uis e ais
Jurupari meditou
sobre o seu nome e destino:
boca silente, reticente
que jamais tuge nem muge
que nunca diz chus nem bus
que não diz uste nem aste
cúmplice do mal do mundo.
Isto não quero ser mais.

Jurupari se enfurece
e rasga sem dó nem pena
a plumagem de metáforas

da linguagem angelical
escangalha o figurino
transgride os protocolos
e códigos celestinos
espezinha os floreios
da retórica divina.

Jurupari se revolta
e revoga seus decretos.
Resolve abrir o bico
arreganha a matraca
põe a boca no trombone.

Jurupari vira o jogo:
torna-se o linguarudo
desbocado
boquejante
boquirroto
boquinegro.

Tem puçanga na língua
o uirari das palavras
a mandraca da poesia
o feitiço da verdade

que embevece os justos
e arrebanha os humildes
e enlouquece os ouvintes
e amedronta os boçais.

Jurupari filosofa:
– Esta vida é um buraco
do buraco todos vêm
ao buraco todos vão.
E não escapa ninguém.
Buraco que come
buraco que caga
buraco que vê
buraco que ouve
buraco que fala
buraco que pensa

buraco que anda
buraco que sente
buraco que ama
buraco que sofre
buraco que chora
buraco que sonha…

Tome lengalenga
tome blablablá
tome nhenhenhém.

Jurupari desembucha,
escancara a bocarra,
solta a língua, rasga o verbo,
revela, desvela, esparra.

Clama e proclama
o seu evangelho
conta os segredos
desvenda os mistérios

– desencanta o mal.

Jurupari jurupi
Jurupari jurubi

Jurupari juraci
Jurupari jurucen

jurupuxi juruguera
jurubanga juruboca

Boca interditada
por leis e editais
boca lacrada
por lacres morais
boca selada
por falar demais
boca atarraxada
por conveniências
já não serei mais.

Sendo mister acabar
com a farsa milenar
derrotar a esfinge
matar a charada
decifrar o enigma
decantar o mistério
contar o segredo
quebrar o encanto
vencer o dragão
enganar o diabo
desafiar os deuses
dizer o indizível
com todas as letras,

o alcagüete dedura
a bocaina de Yanderu
o tohu e o bohu
o ninho do surucucu
a caverna de Platão
o buraco do tatu

o vazio dos místicos
o vácuo dos cientistas
o abismo teológico
o nada dos paspalhões
o ocão insofismável

a coisa intangível
a coisa imponderável
a coisa incognoscível
a coisa inefável
a coisa inominável
a coisa abominável

a coisa numinosa
a coisa secreta
a coisa misteriosa
a coisa terrível
a coisa maldita
a coisa vergonhosa

a coisa de Kant e Heidegger
a coisa de Freud e Lacan
a coisa em si

Jurupari desembesta
a falar a coisa a loisa
o treco o trem
o troço a joça
e berra
e ruge
e estruge
o cujo

o nome feio
o nome sujo
a palavrinha
o palavrão

 

EPIFANIA – ASSIM DISSE O TROVÃO

Meu querido Kwaí,
meu adorável xodó:
não há por que escalar
o alto do Kaparaó
e nem por que burungar
os quintos do cafundó.

Não adianta insistir
nessa andança lelé
do Oiapoque ao Chuí.
Não adianta buscar
qualquer paraíso ou céu
longe ou fora de vós.

Com todo o vosso afã
e com toda a vossa fé,
jamais achareis Tupã,
Gorak, Rudá ou Sumé.

Povos e nações das selvas,
meus filhos, xakyabá,
xavante, kamayurá,
kaygang, kayapó,
pataxó, tupiniquim…

Será que não tem mais fim
essa andança boçal,
essa procura insana,
essa busca literal,
aqui, ali, acolá
de vossa sonhada terra,
de vossa Terra Sem Mal?

Eis o que vos diz Rudá:
meu querido Kwaí,
chega de andar atrás
do que está atrás de ti.

E assim fala Tupã,
sendo esta a resposta:
as montanhas do poente
acham-se em tuas costas.

Buscais a Terra Sem Mal,
quereis a Terra Sem Mal,
a terra dos ancestrais,
de vossos pais e avós,
o reino celestial
da alegria e da paz?
Buscai-o dentro de vós.
Ó meu caro Kwaí,
solitária é a jornada,
e não há aonde ir.
A Terra Sem Mal que buscas,
o paraíso que sonhas
sempre esteve em ti mesmo,
está em tuas entranhas.

O lugar que tanto almejas
e buscas com tanto afã
encontra-se no poente:
a montanha semovente
é a pátria de Tupã,
e toda procura, além
desse território, é vã.

Eis que te revelo agora
o sacrossanto lugar
onde vivem vossos mortos,
vossos pais, vossos avós,
todos vossos ancestrais
e também os próprios deuses.

É exatamente ali
no cume do ybyty
que produz o tepoty,
no buraco do tumby.

Em riba do apuã,
na lapa do tepitã,
eis o nosso santuário,
eis a tenda do pajé,
eis o templo do xamã.

Que imaginação cotó!
Tende de vós mesmos dó,
poupai o vosso gogó,
não gasteis os mocotós.
Eis aqui a tão sonhada
terra do balacobaco,
terra do borogodó.

YKÓ KUPEPY AKU
YPY YBAKE OÇÓ.

Este é o endereço
do meu eterno mocó:
a cacimba do bozó,
o oco do oritimbó,
a loca do fiofó,
a grutinha do popó,
o orifício do ó.
E de uma vez por todas
deixai de ser tão bocós.
Chega desse qüiproquó!

Chovam graças em toró
sobre quem ame o loló.

Atentai às estações,
ao dia e hora próprios,
à lua da oração,
e ao tempo dos amores.

Refrescando vossos ossos
e refrigerando a carne
com pomadas e ungüentos,
óleos santos e massagens,
e alegrando as entranhas
com danças e cantorias,
e zelos de amor leal,
transmutareis a maldade,
chegareis à divindade,
em vós mesmos achareis
a própria Terra Sem Mal.

 

AQUELE SUBIDO MONTE

Aquele subido monte
quão humilde ele é,
a gloriosa montanha
é a mais vil e chué,
ali é o fim do mundo
e o princípio de tudo.

Káf e Wák,
Onilê e Imolê,
Horeb e Sinai,
Jabarsa e Jabalka,
montículos irmãos
humílima lição
de fraternidade.

Em riba daqueles montes,
vê-se o alto e o longe,
e do sopé ao topo
a montanha cósmica,
e da raiz à copa,
a árvore da vida
– a planta do universo.

 

YTAYRAPY

Eis aqui a rocha viva
e a caverna dos mistérios
e a passagem secreta
para o reino de Yanderu.

Aqui deve penetrar
todo aquele que almeje
o nosso Pai encontrar.

Somente no tempo próprio
em dia e hora propícios
oficia-se o ofício
e se adentra o orifício.

Quem lhe força a entrada
e entra na hora errada,
incorre em mortal pecado,
comete erro fatal.

Quem entra na hora certa
e cumpre o sagrado rito
purifica-se do mal
e se torna imortal.
JACULATÓRIA A YANDERU MBAÊ KUAÁ
Tu és um pote sem fundo
que jamais se pode encher.
És o abismo, o nada,
porém tudo que existe
deve a ti a sua origem.

#
Tornei ao vácuo supremo,
tornei-me a grota, o vale
do mundo, do universo
– tornei-me o próprio abismo.
E retornando à raiz
onde os seres todos nascem,
ali encontrei o bem,
a virtude e a força.
E regressei à infância,
e me tornei outrossim
eternamente criança.
Além e aquém dos sexos,
volvi ao humano humo
e ao limo e à lama,
e ali me encontrei.

E revolvendo o imo
o elemento adâmico,
animei o oculto lume
e reavivei o nume.

 

 

CONVIDEI MEU NAMORADO
PARA IR COMIGO À PENHA.
NÃO HÁ QUEM ALI NÃO VÁ,
NEM HÁ QUEM DALI NÃO VENHA.
(1999)

EM RIBA DAQUELE MORRO
(JÁ DIZIA O POETA)
É ALI QUE O PAU COME
É ALI QUE O BICHO PEGA

(1999)

EM RIBA DAQUELE MONTE
(COMO REZA O FUXICO),
PASSA ISSO, PASSA AQUILO,
TUDO PASSA, SÓ EU FICO.
(1999)

EM RIBA DAQUILO, MONTO
EM RIBA DAQUILO, FICO
EM RIBA DAQUILO, MORRO
EM RIBA DAQUILO, VIVO

(2001)

Waldo Motta

Waldo Motta, escritor capixaba, se defi ne como “a bicha-papona da poesia brasileira”.

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