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QUESTÕES PROLETÁRIAS

Antes mesmo de terminar de ler “Fogo na usina do desenvolvimento acelerado” (piauí_56, maio), corri atrás do texto sobre a revolta em Fordlândia, da qual me lembrei imediatamente, que foi publicado na piauí_45 (“Matem todos os americanos”, junho 2010). Onze meses separam uma reportagem da outra. Pouco tempo. Mas 81 anos separam uma revolta da outra, e as pessoas não deixaram de ser tratadas como bichos. Se queriam colocar em prática, em 1930, na cauda da Revolução Industrial, a concepção do homem-máquina, a essa altura do campeonato me constrange saber que, ainda em 2011, esperam do ser humano uma capacidade robótica que não lhe cabe.

Reparem como são parecidos os trechos: “O calor sufocante não ajudava. O antigo refeitório…” (piauí_45) e “Ali, no Curral [estação rodoviária], o cansaço dos que acabam de encerrar o expediente e o calor beirando os 40 graus se sobrepõem perigosamente” (piauí_56). Ou: “À medida que a fila aumentava, as reclamações se tornavam mais incisivas. ‘Não somos cachorros’, protestou alguém” (45) e “Capatazes conclamavam os peões para o trabalho quando um novo incidente estourou, dessa vez no refeitório. Um operário de cabelos claros gritava: ‘Greve! Greve!’” (56).

E mais: “Depois de demolir o refeitório, destruíram ‘tudo de quebrável que estivesse no caminho, o que os levou ao prédio do escritório, à usina de força, à serraria, à garagem, à estação de rádio e ao prédio da recepção’” (45) e “Havia 45 ônibus e quinze carros incendiados. Salas de cinema, de jogos e de televisão inutilizadas. Escritórios, posto de saúde, agência bancária, lanchonete, lan house e refeitório parcialmente destruídos” (56). Impossível não compará-las e refletir sobre o quanto, realmente, a humanidade caminhou para a frente, e não para trás ou para os lados.

KARINA PADIAL GARCIA_SÃO PAULO/SP



 

ERROS NO AR E NA TORRE

Parabéns a Ivan Sant’Anna, pelo excelente relato da derrubada do Boeing da Gol, em 2006 (“Cadeia de erros”, piauí_57, junho). Um assunto de tal importância nunca foi tratado pela imprensa de forma articulada, contando o seu desenvolvimento fatal. Fica clara a sequência de erros e a dificuldade em isolar culpados. A distração e a incompetência dos principais culpados dão medo: a expectativa do público é de que essa história seja divulgada amplamente, pela lição que encerra.

SÉRGIO FERNANDO BATH_BRASÍLIA/DF

A maioria das pessoas ainda acredita que apenas os pilotos americanos foram os responsáveis. Entretanto, pelo material apresentado, houve um somatório de negligência e incompetência de todos os envolvidos na situação. É lamentável saber que, quando tomamos um avião, estamos nas mãos de tantos inconsequentes, começando pelo fabricante.

LILIAN MARIA VAZ DE MELLO OSWALD_RIO DE JANEIRO/RJ

AQUELE BEIÇÃO

Só uma pergunta à leitora Liv Sovik (Cartas, piauí_57, junho): piada de português ainda pode? Ou será “lusofobia”? Não dá mais para aguentar o policiamento gênero-racial-politicamente-correto. Esse povo não tem mais o que fazer? Será que a sensibilidade se confundiu com a suscetibilidade exaltada e extrapolada dos certinhos de última hora? Logo estaremos discutindo, como naquele livro de Umberto Eco, se Cristo ria ou não. E ai daqueles que riem, e se riem, quando vencerem os que acham “aquele beição”, nesse contexto, coisa de racista, e não motivo para desopilar um pouco o fígado.

MÁRCIO XAVIER_SÃO PAULO/SP

 

VÍTIMAS DAS ÁGUAS

Pela primeira vez em minha história de leitor, chorei. Por que era verdade e a verdade machuca. Parabéns a Consuelo Dieguez (“O fim do mundo”, piauí_56, maio) pela maneira como nos leva, leitores inicialmente distantes do fato, para dentro da história. Quando o filho de Edemilson conta que “Eu só pensava que eu ia morrer e que você tinha comprado o material da escola à toa”, desmoronei. São passagens assim que mostram que, por trás de uma tragédia, existem pessoas, sentimentos, como os meus e de qualquer um. Não pude resistir à emoção, e fico feliz que exista um jornalismo que consiga ser ao mesmo tempo objetivo e humano.

MATEUS COELHO_BELO HORIZONTE/MG

Não me contive com as histórias contadas e, aos prantos, parei a leitura diversas vezes.

J. TOMAZ_RIO DE JANEIRO/RJ

Como nossa memória nos prega peças. É impressionante como certas coisas conseguem desaparecer de nossas cabeças. Assim foi com o ocorrido em Nova Friburgo, em janeiro de 2011. A reportagem traz uma visão tão próxima da tragédia que é difícil não se comover, mais uma vez. É difícil não fechar os olhos e ver e ouvir as descrições. Havia deixado a reportagem para ser a última a ler da edição de maio. Só não pensei que um texto fosse mexer tanto em mim.

CAIO NATALE_BELO HORIZONTE/MG

 

RAKUDIANAI

O fato de que o artigo do Persio Arida (“Rakudianai”, piauí_55, abril) estava entremeado de cartuns pornôs do Wolinski feriu algumas suscetibilidades. Mas eu acho que foi esperteza do editor, porque o texto é de uma sexualidade atroz. Tem a coisa explícita da garçonnière do pai fazendo um contraste danado com a estética mesoburguesa da casa dos pais do Persio. Mas o que me enlouqueceu de prazer foi a tremenda confissão de que ele entrou na política para pegar mulher. Mais especificamente, uma riponga daquelas, tipo mais alienada impossível, que aparentemente eram comuns na época. A dialética (risos) sexual dessa parte teve tal impacto sobre mim que tive um momento “sadomasô” e comecei a achar muito gatos os olhos tristinhos do Persio na foto do Dops.

LUCY SILVA_IGUABA GRANDE/RJ

Tucano não sabe onde fica o crematório da Vila Alpina! Não é Zona Norte, é Leste. Uma vez, o Henfil disse que conversou com o Fernando Henrique Cardoso e que o sapato dele (FHC) estava brilhando. O Henfil disse que não confiava em um homem com sapato brilhando. Esses tucanos não sabem o que é periferia.

JOSELINO PEIXOTO_SÃO PAULO/SP

PEGADINHA

Li de uma só vez a piauí_56, de maio, excelente. Como nada é perfeito, deparei-me novamente com o Gotlib (“Engenhocas para contos de fadas”). Gostaria de saber quanto ele paga de jabá, já que pretendo iniciar uma campanha para arrecadar fundos e oferecer o dobro para retirá-lo definitivamente da revista. Alguém já escreveu para a seção Cartas elogiando esse cara? É pegadinha?

BERNARDO REINHARDT DESERT MENEZES_CURITIBA/PR

365 NUNCAS

A Esquina “365 nuncas” (piauí_56, maio) é estimulante. Morando na Cidade Maravilhosa há quase quatro anos, posso dizer que sou tão aventureira quanto as mineiras. Vim do interior também, e sei quantas são as possibilidades de inovar e nunca se cansar nessa cidade. É claro que uma hora a criatividade é desbancada. Mas “viver e não ter a vergonha de ser feliz” é para qualquer um. A felicidade faz parte da vida, e inventar também!

MARIA APARECIDA DUTRA BASTOS_RIO DE JANEIRO/RJ

SR. NORMA CULTA

Evanildo Bechara (“O Sr. Norma Culta”, piauí_57, junho): é um prazer apreciar a excelência incontestável de seu ofício, de sua arte. Mas muito mais que isso, uma surpresa para mim – devota das palavras, convicta de tudo o que elas são capazes de fazer na vida de uma pessoa a elas atenta e sensível – devo dizer, causou-me imenso prazer conhecer esse nobre homem, em todo o esplendor da simplicidade de seus 83 anos.

ADRINÊS FREITAS E PENA_NITERÓI/RJ

O que mais me atrai na revista – e que me levou a assiná-la novamente – é a interessante diversidade de assuntos e, evidentemente, o modo como cada um é tratado. O artigo sobre o Evanildo Bechara é prova disso. Nele, além de encontrarmos relatado o início de sua atividade como estudioso de nossa língua, temos também delineado o perfil do verdadeiro professor que, segundo o próprio Bechara, “nada mais é do que um estudante mais velho”, referindo-se às responsabilidades atribuídas àqueles que exercem o magistério.

RONALDO GUIMARÃES GALVÃO_SÃO PAULO/SP

 

ENGOLFADO PELA VIOLÊNCIA

Cheguei a “Engolfado pela violência” (piauí_56, maio) por sugestão de uma professora da Universidade Federal de Alagoas. Ela disse que ficara surpresa com o fato de se ter colocado um dos filhos do ex-presidente Fernando Collor como exemplo da juventude alagoana. Acabo de ler a reportagem e parabenizo o autor pela tentativa de “ir além do óbvio” sobre o problema da segurança pública. Mas questiono a escolha de Arnon Collor de Mello. Como foi colocado no próprio texto, ele teve a oportunidade de estudar na Suíça e nos Estados Unidos. Foi a Alagoas para assumir o maior clube do estado como trampolim político-eleitoral. A ideia, que também está na matéria, era criar um sucessor dentro da família. Como deu errado, ele saiu do estado. Dizer que “falta perspectiva” para o jovem alagoano chega a ser desrespeitoso em relação a mim e a outros colegas e amigos, que têm perspectivas e têm que conquistar as coisas por conta própria, com muito suor, e não por um sobrenome. Hoje, curso mestrado, com bolsa, numa universidade do Rio Grande do Sul e posso garantir que não estaria aqui se não tivesse perspectivas de vida.

ANDERSON SANTOS_SÃO LEOPOLDO/RS

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