diário

Preferia não fazê-lo

Um longo dia pela frente, da zerésima ao último eleitor

Adriano Cirino
O jornalista Adriano Cirino na frente da seção eleitoral em Belo Horizonte: “Eu ia e vinha, feito uma barata tonta, explicando a todos que a urna havia falhado, mas que o problema já estava sendo resolvido”
O jornalista Adriano Cirino na frente da seção eleitoral em Belo Horizonte: “Eu ia e vinha, feito uma barata tonta, explicando a todos que a urna havia falhado, mas que o problema já estava sendo resolvido” CREDITO: EUGÊNIO SÁVIO_2020

Desocupado durante a pandemia, o jornalista e aspirante a escritor ADRIANO CIRINO, 26 anos, atuou como mesário nas últimas eleições em Belo Horizonte. Foi nomeado primeiro-secretário da seção eleitoral, com a função principal de controlar a fila de eleitores. Exerceu com brio, orgulho e tédio o seu dever cívico, mas por um dia apenas: a capital mineira não teve segundo turno.

 

É um trabalho insípido, cansativo e letárgico. Posso compreender que seria totalmente insuportável para algumas personalidades mais exuberantes.

Herman Melville, em Bartleby, o Escrivão

 

Em 3 de agosto, segunda-feira, recebi por WhatsApp uma mensagem de número desconhecido – o que é sempre curioso, ainda que também suspeito:

Boa tarde, Adriano! Meu nome é Isabelle, sou estagiária da 33ZE [Zona Eleitoral] de Belo Horizonte. Seu nome consta no cadastro da Justiça Eleitoral como voluntário para o trabalho de mesário. Caso você esteja disponível para trabalhar nas eleições deste ano, favor enviar um e-mail para zona033@tre-mg.jus.br e confirmar seus dados. Obrigada!

Dedicado exclusivamente, havia uma semana, ao esboço de meu primeiro romance, fiquei tentado a contestar – a exemplo de Bartleby, o escrivão – que “preferia não fazê-lo”. Porém, contive o impulso: desocupado em tempos de pandemia e vivendo ainda de mesada paterna, eu não podia me dar ao luxo de recusar uma oferta de trabalho sem antes pensar duas vezes, mesmo que se tratasse de um trabalho temporário, não remunerado e burocrático.

De fato, eu havia me alistado para mesário voluntário no sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em janeiro de 2018, com a expectativa de que seria chamado a servir nas eleições gerais daquele ano, o que não ocorreu. Recém-formado em jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (ufmg), à procura de meu primeiro emprego, eu tivera a ideia de enriquecer meu currículo com um trabalho voluntário e, de quebra, escrever um relato acerca da experiência. Acaso já não serviram a burocracia, o funcionalismo e a máquina pública – estes temas frios e impessoais por excelência – como matéria-prima para a literatura de Herman Melville (Bartleby, o Escrivão), Fiódor Dostoiévski (O Crocodilo) e Franz Kafka (O Processo)?

Foi à volta com essas reflexões – e a fim de ganhar mais tempo para tomar minha decisão – que perguntei a Isabelle, a estagiária do TRE, até quando poderia confirmar minha disponibilidade. “Até 10 de agosto”, ela me disse, prestativa.

 

11 DE AGOSTO, TERÇA-FEIRA_Estourei o prazo para confirmar minha disponibilidade ao TRE. Com sorte, consegui fazê-lo ainda hoje, muito embora minha irmã, advogada, tenha me desencorajado expressamente da ideia: “Nossa! Só você mesmo. Vai passar o resto da vida sendo mesário. Muito vacilo, ninguém leva isso em consideração etc.” Minha mãe, servidora pública concursada, tratou de me defender. Ela própria, na juventude, atuou como mesária em uma eleição e, em anos mais recentes, como jurada em um tribunal.

 

14 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA_Enquanto eu assistia à tevê, fui surpreendido por uma campanha nacional de convocação da Justiça Eleitoral protagonizada por Drauzio Varella. “A Justiça Eleitoral tem a maior consideração por você, mesário voluntário. Vai oferecer toda a segurança para que você exerça essa função importantíssima para nossa democracia”, diz ele, olhando diretamente para a câmera, como se falasse a cada brasileiro, mas a mim particularmente. “Você receberá tudo o que a lei prevê: alimentação, folgas, treinamento online, equipamento de proteção e materiais para esterilização”, continua Varella, e arremata: “Seja um mesário voluntário.”

Então ainda é tempo de se alistar. Suponho que o prazo final que me fora comunicado por Isabelle visava apressar a confirmação da minha disponibilidade.

 

8 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA_Já eram esperadas as medidas preventivas contra o novo coronavírus anunciadas hoje pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para estas eleições: uso obrigatório de máscara, álcool em gel e caneta própria (ou higienizada, fornecida pelos mesários) nos locais de votação; ampliação do horário de votação (das 7 às 17 horas, com preferência para idosos das 7 às 10 horas); supressão da biometria; respeito à distância mínima de 1 metro; entre outras.

9 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA_Finalmente, recebi por e-mail minha carta de convocação. Comecei a ler com interesse e, de repente, um susto: fui nomeado primeiro-secretário. O início da carta é assim:

Prezado(a) Senhor(a): Comunico sua nomeação como PRIMEIRO-SECRETÁRIO da Mesa Receptora de Votos da 278ª seção desta Zona Eleitoral, a instalar-se no dia 15/11/2020, no(a) ESCOLA ESTADUAL PANDIÁ CALÓGERAS – PRAÇA CARLOS CHAGAS 35, SANTO AGOSTINHO, onde V. Sª. deverá apresentar-se às 6 (seis) horas e 30(trinta) minutos da manhã.

Essa nomeação – arbitrária, aparentemente –, mais do que afagar meu ego, me preocupa: será que, aos 26 anos, em minha primeira eleição como mesário, estarei apto a assumir uma função que porventura se prove de grande reponsabilidade e não admita falhas humanas? Na divisão do trabalho e na hierarquia de uma seção eleitoral, que lugar – que papel – cabe ao primeiro-secretário?

Ora, seguramente eu já estaria arrependido de meu voluntariado, não fosse uma notícia do jornal Estado de Minas que me chegou há pouco por WhatsApp e me reanimou: “‘Efeito Drauzio Varella’: inscrições para mesários em Minas já superam as de 2018.” Em outras palavras, antecipei-me a uma tendência e fiz aposta promissora.

 

14 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Pela manhã, conforme fora orientado pela carta de convocação do TRE, baixei o aplicativo Mesário em meu celular, a fim de dar início ao treinamento virtual. Contudo, no momento de me cadastrar, não consegui efetivar a operação: “Erro ao realizar o login. Verifique sua conexão ou tente novamente mais tarde.” Reportei o problema a Isabelle, a estagiária do TRE que é também minha guia. “Boa tarde, Adriano!”, respondeu ela, horas depois. “Algumas pessoas estão tendo o mesmo problema com o app, vou lhe enviar algumas instruções que talvez possam resolver. Se ainda assim não conseguir, favor ligar para o cartório que tentaremos ajudá-lo.” Agradeci a atenção, mas adiei a tarefa.

 

18 DE SETEMBRO, SEXTA-FEIRA_Quando comentei com meu melhor amigo que vou trabalhar como mesário voluntário, ele me marcou em um vídeo no YouTube, no qual o compositor Boca Nervosa apresenta um samba de sua autoria. “Alô, doutor Drauzio Varella, me desculpe, mas essa é minha opinião”, diz o homem, de sorriso fácil e pálpebras caídas. Então canta: “Só mesmo sendo otário pra trabalhar de mesário/Com tanto dinheiro que tem pra gastar nesse fundão partidário./Não me venha com esse papo-furado de ser voluntário em prol da nação./Tô desempregado, pra que quero folga?/Trabalho de graça é escravidão.”

 

21 DE SETEMBRO, SEGUNDA-FEIRA_Ao acessar o aplicativo Mesário, uma mensagem com cronômetro regressivo recordava: “Faltam 55 dias para as Eleições 2020!” Em questão de dez minutos, concluí a primeira seção de treinamento, “Preparando a seção”, e seu quiz. Acertei as seis perguntas do teste (as respostas eram intuitivas e qualquer um poderia acertá-las sem treinamento). Um exemplo:

Na frase a seguir, assinale Verdadeiro ou Falso: Ao montar a Seção Eleitoral, no início dos trabalhos, os mesários devem, entre outras práticas: organizar os cabos da urna no chão para evitar acidentes e destinar espaço de circulação para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

( x ) Verdadeiro – Parabéns! Resposta correta!
(   ) Falso.
A cada resposta correta, o aplicativo colore a alternativa de verde e, para minha diversão, faz soar aquele sinal sonoro da urna eletrônica.

 

9 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Primeiro dia de propaganda eleitoral gratuita. Só falta a pipoca.

 

30 DE OUTUBRO, SEXTA-FEIRA_Segundo a pesquisa de intenção de votos do Ibope, Alexandre Kalil (PSD) apresenta ampla vantagem (63% do total de votos) na disputa para a Prefeitura de Belo Horizonte e caminha tranquilamente – como quem bate ponto ou cumpre tabela – para a reeleição já no primeiro turno. É o prefeito com a maior intenção de votos entre as capitais do Brasil. Sorte a minha, para quem isso se traduz em um dia a menos de trabalho.

 

4 DE NOVEMBRO, QUARTA-FEIRA_Recebi hoje, por e-mail, um arquivo com instruções para baixar outro aplicativo, o Carteira Digital, para recebimento do vale-alimentação (40 reais, para o primeiro turno) a que têm direito os mesários. Que complicação por um prato de comida.

 

5 DE NOVEMBRO, QUINTA-FEIRA_Donald Trump lança suspeitas sobre a lisura das eleições nos Estados Unidos. Votos enviados por correio atrasam a apuração do resultado. Na hora do almoço, em comentário para o Jornal Hoje, da Rede Globo, a correspondente internacional Sandra Coutinho foi precisa na comparação com as eleições brasileiras: “Tediosas, mas eficientes”, disse, referindo-se às nossas.

 

7 DE NOVEMBRO, SÁBADO_Véspera do meu aniversário. Pela manhã, fui cortar o cabelo pela segunda vez desde o começo da pandemia. À tarde, Júlia, minha namorada, testou negativo para a Covid-19 (alguns dias atrás, a irmã dela teve contato com uma pessoa que testara positivo). Vamos nos reunir, agora à noite, em algum boteco do bairro Santa Tereza com os meus amigos, para celebrar.

 

8 DE NOVEMBRO, DOMINGO_Depois da noitada de ontem, nem sinal de Covid. Só ressaca. No restaurante em que fomos almoçar, Júlia pediu ao garçom que embrulhasse nossos pratos para viagem, pois meu próprio estômago estava embrulhado.

 

15 DE NOVEMBRO, DOMINGO, 5h30_Ao soar o alarme do celular, saltei da cama com a sensação de que não havia pegado no sono (em que pese o vinho de ontem à noite). Ainda debaixo do lençol, Júlia se ofereceu para preparar o café. Disse a ela que voltasse a dormir. Tomei um banho e me aprumei: camisa polo preta, calça jeans, tênis, óculos e gel no cabelo. Comi uma fatia de pizza requentada, acompanhada de um copo de suco de laranja. Depois, uma xícara de café, um cigarro e um comprimido de Ritalina 10 mg – só para ficar esperto.

 

6h20_Céu nublado, ruas desertas, exceto por algumas pessoas que praticavam jogging. No caminho até a Escola Estadual Pandiá Calógeras (33ª Zona Eleitoral), na Praça da Assembleia, retirei a máscara e coloquei os fones de ouvido, sintonizado nas primeiras notícias do dia. As calçadas do quarteirão da escola estavam tomadas por santinhos de um tal Elcio Júnior (PTC), candidato a vereador. Embora atrasado, antes de entrar na escola acendi mais um cigarro, pois não sabia se teria outra oportunidade para fumar até a hora do almoço. Enquanto eu fumava, um senhor muito idoso higienizou as mãos e ingressou na escola. Ele estava bastante adiantado no horário do início da votação, mas mesmo assim senti que eu ficava para trás. Então apaguei o cigarro e me apressei.

 

6h40_Ao me apresentar como primeiro-secretário na 278ª seção eleitoral, Thiago (primeiro-mesário), Auxiliadora (segunda-mesária) e Franciely (presidente) já haviam instalado a urna eletrônica e emitido a zerésima, um relatório que comprova que todos os candidatos estão registrados na urna e que nenhum deles computa votos previamente. Estavam em suas respectivas carteiras, sobre as quais haviam disposto seus materiais (como canetas e cadernos de votação). Primeiro, assinei meu nome na Ata da Mesa Receptora; depois, recebi meu crachá e o kit de prevenção (um frasco de álcool em gel para uso individual, três máscaras descartáveis e um escudo facial com a inscrição “Eu ajudo a preservar vidas”); por fim, ocupei minha carteira, junto à porta, enquanto aguardávamos o horário oficial do início da votação. Também os marcadores de chão – para distanciamento social – já haviam sido colados ao longo do corredor.

Apesar de o título ter me envaidecido, descobri que, na hierarquia do corpo de mesários, o primeiro-secretário tem a posição mais baixa. Ele não se senta ao lado do presidente. Sua função é organizar a fila de votação, de acordo com a ordem de preferência e a distância mínima de 1 metro entre os eleitores, bem como realizar a triagem de seus documentos. É uma espécie de porteiro da seção eleitoral.

 

7h_O primeiro eleitor, de nome Max, cerca de 40 anos, se dirigiu até os mesários e apresentou seu documento oficial com foto. Auxiliadora o identificou no caderno de votação e ditou o número de seu título de eleitor para Franciely, que, por sua vez, o digitou no terminal do mesário, para registrá-lo e liberá-lo. Foi então que, no aparelho, surgiu a seguinte mensagem: “URNA ELETRÔNICA BLOQUEADA, ERRO DE AUTENTICAÇÃO OU ERRO DE HW.”

Franciely reiniciou a urna e o erro se repetiu. Enquanto isso, a fila crescia, com eleitores idosos, alguns dos quais bem impacientes. Era o início de uma aglomeração – e uma apreensão.

Foi chamado um técnico de urna: ele nos acudiu após quinze minutos, acompanhado por uma servidora do cartório eleitoral. Também eles reiniciaram o aparelho e emitiram nova zerésima. Àquela altura, a fila já alcançava a seção eleitoral ao lado, causando alguma confusão entre últimos e primeiros.

Eu ia e vinha, feito uma barata tonta, explicando a todos que a urna havia falhado, mas que o problema já estava sendo resolvido etc. Uma eleitora sugeriu que eu trouxesse cadeiras para que se sentassem; outra, que eu distribuísse senhas. Fiz ambas as coisas, porém sem muita lógica.

 

7h35_Foi, enfim, registrado o voto de Max. Aparentemente, tudo o.k. No momento do registro da segunda eleitora, contudo, surgiu nova mensagem no terminal do mesário: “AMARELO PISCANDO: EM PROCESSAMENTO” “Só Deus”, exclamou Auxiliadora. Mais uma vez, vieram o técnico de urna e a servidora do cartório eleitoral, desta feita com uma urna de contingência – para substituição.

 

7h56_Agora sim, foi dada a largada. Em questão de minutos, descartei o escudo facial, pois embaçava minha visão. Como um idiota, acabei encostando em alguns eleitores, ao convidá-los a avançar na fila ou ingressar na seção eleitoral. Um deles me repreendeu.

 

8h30_O controle da fila era o meu objetivo e o meu orgulho cívico. Como as coisas marcharam bem, pude ter um respiro e me sentar um pouco na minha carteira de secretário. Fiquei sabendo algo sobre meus colegas mesários. Thiago, 30 anos, é analista de Tecnologia de Informação da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig). Franciely, 31 anos, é assessora administrativa do Ministério Público. Auxiliadora, 56 anos, é analista judiciária da Justiça Federal. Alistaram-se para o trabalho de mesário motivados pelo benefício das folgas. Eles me perguntaram o que eu faço.

 

10h_Ao fim do horário preferencial para a votação dos idosos, Auxiliadora pediu permissão para ir ao banheiro e abastecer sua garrafa d’água. Quando retornou, perguntei a ela onde havia um bebedouro. Ela me indicou o local, com a ressalva de que não era possível beber diretamente da fonte. “Você não trouxe uma garrafinha?”, perguntou. “Esqueci”, respondi, incrédulo com minha própria displicência. De sua bolsa, ela sacou então um copo plástico, desses de requeijão, recheado com amêndoas, castanhas-de-caju e castanhas-do-pará. “Você pode ficar com esse copo”, disse, “depois que me ajudar a comer as castanhas.” “Poxa, muito obrigado”, respondi, enquanto baixava a máscara para beliscar um dos frutos. “Eu tenho uma água sobrando, toma para você”, disse Franciely. “Não podemos é confundir as garrafinhas de água com as de álcool”, observei.

 

10h20_Autorizei a entrada de uma senhora com um adesivo de Áurea Carolina (Psol), candidata à Prefeitura, colado na blusa, na altura do peito. Foi a única manifestação – individual e silenciosa, conforme manda o figurino – que testemunhei até agora.

 

10h40_Saiu o sol, contrariando a previsão meteorológica. Uma jovem apareceu à porta da seção eleitoral com um cachorro pequeno e peludo na coleira. “Posso entrar com ele?”, perguntou. “Isso não está previsto”, respondi. “Ele é bonzinho”, argumentou a jovem. Resolvi segurá-lo, enquanto ela votava.

 

11h_Thiago e Auxiliadora saíram para o horário de almoço. Com isso, assumi provisoriamente a função de mesário, em posse dos cadernos de votação: no primeiro, constavam os nomes dos eleitores com iniciais de A a L; no segundo, os nomes dos eleitores com iniciais de M a Z. O nome mais frequente: Maria (contei 26 Marias). Houve quem reagisse às próprias fotos 3×4: “Nossa, quase não me reconheci”, disse um eleitor. “Até que eu estou bem nessa foto”, disse uma eleitora. Alguns eram afobados, outros pacientes. Quanto a mim, tratei a todos com um sorriso impessoal, cuidando para que, ao higienizar a caneta de uso comum, o álcool em gel não respingasse nas páginas dos cadernos, o que, de resto, me obrigava a lambuzar as mãos.

Há 495 eleitores registrados em nossa seção. Até agora, foram computados 163 votos. Ainda temos uma longa tarde pela frente. A sala é abafada, mesmo com as quatro janelas escancaradas. Não sei por que o ventilador está desativado (coberto com uma lona preta). Deve ser para não voar a papelada eleitoral. Precavida mesmo foi a Auxiliadora, que trouxe um leque de casa. Fez-me inveja ao longo de toda a manhã.

 

13h_Durante meu horário de almoço, dei um pulo em casa: tomei uma ducha e troquei de roupa, porque havia suado. Quando eu já estava de saída, Ésio, o porteiro do prédio, quis ficar de prosa. “Deixa eu ir, que estou trabalhando nas eleições”, falei, lamentavelmente surdo para o que ele, decerto, teria a me ensinar sobre meu próprio ofício, o de primeiro-secretário.

 

14h_“Já? Foi rápido!”, exclamou Thiago, ao me ver de volta. “É uma hora de almoço, certo?”, perguntei. “São duas!”, respondeu Auxiliadora. Que vacilo! Eu poderia ter até feito uma sesta em casa.

 

14h30_Fui votar – na seção ao lado. Vapt-vupt.

 

14h40_O atual presidente do Clube Atlético Mineiro, Sérgio Sette Câmara, votou na nossa seção, acompanhado pela esposa. Thiago o reconheceu pelo nome. “Vocês são atleticanos?”, quis saber Sette Câmara. “Cruzeirenses”, responderam Thiago e Auxiliadora. Seguiu-se uma troca de farpas e piadas entre uns e outros. “Com o Cruzeiro na série B, até a gente torce um pouco”, ironizou a esposa.

 

14h50_Um jovem, de camisa vermelha e escudo facial decorado com um adesivo de Fernando Haddad (PT), perguntou se podia fazer uma selfie com a urna. “Só do lado de cá da cabine”, respondeu Thiago.

 

15h20_Os eleitores sumiram. Os mesários ficaram de papo. Auxiliadora contou sobre uma viagem que fez a Manhuaçu, no interior de Minas, de onde trouxe diversos tipos de café para o marido. Franciely confessou que não gosta de café nem de leite. “Então você não é uma boa mineira”, eu disse. Thiago entrou na onda e emendou, para provocá-la: “Você é de Minas mesmo?”

 

15h40_Um senhor idoso ingressou na cabine para votar, mas se esqueceu do número de seu candidato para prefeito. Franciely o orientou a consultar uma lista afixada do lado de fora da sala, e Auxiliadora o acompanhou. “É o Kalil”, ele deixou escapar, antes mesmo de chegar à porta.

 

16h50_Eleitoras de última hora, ofegantes.

 

17h_Fim dos trabalhos. Foram impressas cinco vias do boletim de urna, com as seguintes informações computadas: eleitores aptos, 495; total de votos nominais, 368; brancos, 11; nulos, 16; total apurado, 395; eleitores faltosos, 100.

Para efeito de curiosidade, se fossem considerados apenas os 368 votos nominais registrados em nossa seção eleitoral, os cinco mais votados para prefeito em Belo Horizonte seriam:

1º lugar: Alexandre Kalil (PSD), 132 votos (36%);
2º lugar: Áurea Carolina (Psol), 74 (20%);
3º lugar: Rodrigo Paiva (Novo), 49 (13%);
4º lugar: Bruno Engler (PRTB), 47 (13%);
5º lugar: João Vitor Xavier (Cidadania), 44 (12%).

Enquanto Thiago e Auxiliadora revisavam os cadernos de votação, Franciely retirou o pen-drive com a mídia de resultado e o lacrou em um envelope. Em seguida, desligou a urna e a guardamos em uma caixa. Fui eu que a transportei através do pátio até a sala da recepção.

Quando nos despedimos, lamentei apenas que não pudéssemos nos abraçar. Em vez disso, sugeri um grupo de WhatsApp.

P.S.: Há mais ou menos uma semana, li que, em reação a uma declaração do presidente Jair Bolsonaro, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, afirmou que “retornar ao voto impresso é um retrocesso, é como comprar um videocassete”. “O único problema é que as urnas eletrônicas custam caro”, disse o ministro. De acordo com ele, o TSE já estuda um projeto para a implementação de “eleições digitais” no Brasil, “de preferência, utilizando o dispositivo móvel de cada um”. Ou seja, cada eleitor poderia votar pelo próprio celular, sem sair de casa.

Ao que parece, os mesários estão com os dias contados.



Adriano Cirino

Jornalista e escritor, é autor do livroreportagem Nos Bastidores de Escobar & Outras Crônicas Bogotanas (Crivo Editorial)

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