ficção

Preservação da paz

A polícia tinha que continuar longe. Mas o que o jovem poderia fazer?

José Falero
Quem matará quem: “Não é certo tu querer começar toda uma puta duma guerra que vai foder todo mundo só pra poder tentar se vingar e se sentir um pouco melhor, até porque, na real, isso nem ia trazer teu irmão de volta, de qualquer jeito. Vai ser só uma porra duma bola de neve” –
Quem matará quem: “Não é certo tu querer começar toda uma puta duma guerra que vai foder todo mundo só pra poder tentar se vingar e se sentir um pouco melhor, até porque, na real, isso nem ia trazer teu irmão de volta, de qualquer jeito. Vai ser só uma porra duma bola de neve” – CREDITO: LUCIANO FEIJÃO_2020

A Vila Viçosa e a Vila Nova São Carlos atravessavam um período de paz. Claro, de vez em quando morria um pobre-diabo aqui e outro acolá por causa de briga de bar, por causa de mulher ou por causa de dívida, mas já fazia tempo que as quadrilhas rivais da região não promoviam tiroteios constantes por ali. Isso porque, ultimamente, o tráfico de drogas vinha dando tanto dinheiro que as partes interessadas andavam satisfeitas com as coisas como estavam. Havia muita demanda, havia viciados para todo mundo: a guerra tinha ficado fora de moda. No entanto, a pergunta era: Até quando? A história sempre se repete: tréguas vêm, tréguas vão. Os mais espertos sabiam que cada dia tranquilo que passava era um novo passo em direção a tempos mais conturbados.

E aconteceu que, por uma infeliz peripécia do destino, a paz tornou a ficar ameaçada naquele par de vilas. Dirigindo uma moto, bêbado até o último fio de cabelo, um adolescente atropelou uma menina de 5 anos na Estrada João de Oliveira Remião, e ela morreu na hora. Como se isso já não fosse tragédia que bastasse, o pai da menina, um traficante da quadrilha que atuava na Nova São Carlos, chamado Jair, porém mais conhecido pela sugestiva alcunha de Rasga Bucho, como o vilão do Chapolin Colorado, o pai da menina a acompanhava no exato momento do acidente, de mãos dadas, fazendo uso do falsete e dos dizeres bobos que se costuma empregar com crianças, e nem viu quando a moto passou-lhe ao lado, rápida como um raio, zumbindo como uma abelha gigante; tudo o que esse homem viu foi a filha indo pelos ares como uma boneca de trapo, depois de sentir a mãozinha dela desprender-se da sua. O adolescente que guiava a moto saiu ileso do acidente, tombando do veículo poucos metros adiante e pondo-se de pé num pulo, como se nada tivesse acontecido; mas não resistiu aos dezesseis tiros de pistola .40 que Rasga Bucho lhe deu em seguida, todos na cabeça. E, por incrível que possa parecer, esse episódio bem que poderia passar por banal, sem causar muito espanto ou preocupação, porque, afinal de contas, tudo aconteceu na Lomba do Pinheiro, onde não era fácil causar espanto ou preocupação. Contudo, a história levantou de pronto grande fedor, porque o motociclista morto pelo traficante da quadrilha da Nova São Carlos era irmão mais novo de Fernando, vulgo Bison, como o personagem do Street Fighter, e esse Bison pertencia à quadrilha rival, que atuava na Viçosa.

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José Falero

É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas)

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