ficção

Preservação da paz

A polícia tinha que continuar longe. Mas o que o jovem poderia fazer?

José Falero
Quem matará quem: “Não é certo tu querer começar toda uma puta duma guerra que vai foder todo mundo só pra poder tentar se vingar e se sentir um pouco melhor, até porque, na real, isso nem ia trazer teu irmão de volta, de qualquer jeito. Vai ser só uma porra duma bola de neve” –
Quem matará quem: “Não é certo tu querer começar toda uma puta duma guerra que vai foder todo mundo só pra poder tentar se vingar e se sentir um pouco melhor, até porque, na real, isso nem ia trazer teu irmão de volta, de qualquer jeito. Vai ser só uma porra duma bola de neve” – CREDITO: LUCIANO FEIJÃO_2020

A Vila Viçosa e a Vila Nova São Carlos atravessavam um período de paz. Claro, de vez em quando morria um pobre-diabo aqui e outro acolá por causa de briga de bar, por causa de mulher ou por causa de dívida, mas já fazia tempo que as quadrilhas rivais da região não promoviam tiroteios constantes por ali. Isso porque, ultimamente, o tráfico de drogas vinha dando tanto dinheiro que as partes interessadas andavam satisfeitas com as coisas como estavam. Havia muita demanda, havia viciados para todo mundo: a guerra tinha ficado fora de moda. No entanto, a pergunta era: Até quando? A história sempre se repete: tréguas vêm, tréguas vão. Os mais espertos sabiam que cada dia tranquilo que passava era um novo passo em direção a tempos mais conturbados.

E aconteceu que, por uma infeliz peripécia do destino, a paz tornou a ficar ameaçada naquele par de vilas. Dirigindo uma moto, bêbado até o último fio de cabelo, um adolescente atropelou uma menina de 5 anos na Estrada João de Oliveira Remião, e ela morreu na hora. Como se isso já não fosse tragédia que bastasse, o pai da menina, um traficante da quadrilha que atuava na Nova São Carlos, chamado Jair, porém mais conhecido pela sugestiva alcunha de Rasga Bucho, como o vilão do Chapolin Colorado, o pai da menina a acompanhava no exato momento do acidente, de mãos dadas, fazendo uso do falsete e dos dizeres bobos que se costuma empregar com crianças, e nem viu quando a moto passou-lhe ao lado, rápida como um raio, zumbindo como uma abelha gigante; tudo o que esse homem viu foi a filha indo pelos ares como uma boneca de trapo, depois de sentir a mãozinha dela desprender-se da sua. O adolescente que guiava a moto saiu ileso do acidente, tombando do veículo poucos metros adiante e pondo-se de pé num pulo, como se nada tivesse acontecido; mas não resistiu aos dezesseis tiros de pistola .40 que Rasga Bucho lhe deu em seguida, todos na cabeça. E, por incrível que possa parecer, esse episódio bem que poderia passar por banal, sem causar muito espanto ou preocupação, porque, afinal de contas, tudo aconteceu na Lomba do Pinheiro, onde não era fácil causar espanto ou preocupação. Contudo, a história levantou de pronto grande fedor, porque o motociclista morto pelo traficante da quadrilha da Nova São Carlos era irmão mais novo de Fernando, vulgo Bison, como o personagem do Street Fighter, e esse Bison pertencia à quadrilha rival, que atuava na Viçosa.

De noite, quando chegou do trabalho, Pedro ficou sabendo do ocorrido. E encontrou dificuldades para dormir naquela noite. “Porra, cara, logo agora!”, pensava, rolando de um lado para o outro na cama.

Se a guerra se instalasse novamente na região, como estava parecendo que ia acontecer, o rapaz teria problemas. Com tiroteios diários e mortes semanais, choveria polícia na Viçosa e na Nova São Carlos, e todos os que estivessem nas ruas seriam revistados a cada cinco minutos, sem falar que os policiais passariam a promover suas desmandadas buscas, metendo o pé na porta da casa de todo mundo, aleatoriamente, de surpresa, a qualquer hora do dia ou da noite, bagunçando tudo e enchendo de bolacha qualquer um que ousasse dizer um “ai”; isso significava que Pedro teria que adiar seus planos de vender maconha na vizinhança, por tempo indeterminado… Não! A paz tinha que ser mantida! A polícia tinha que continuar longe! Mas o que o jovem poderia fazer?

No dia seguinte, quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009, acordou um pouco mais cedo que de costume e foi se encontrar com o chefe do tráfico na Nova São Carlos, um homem chamado Valdir. Assim como Marques falara com o velho da Lupicínio Rodrigues na véspera, também ele queria avisar a Valdir que venderia maconha na baixada entre a Nova São Carlos e a Viçosa, isto é, na futura Vila Sapo. E depois iria, ainda, dar o mesmo aviso ao chefe do tráfico na Viçosa.

 

A casa de Valdir ficava no fundo de um beco, no ponto mais alto da Nova São Carlos. Era uma casa grande e bonita, contrastando com os barracos ao redor. À medida que Pedro ia avançando em direção a ela, percebia uma estranha movimentação por ali. Logo na entrada da viela, tinha passado por um grupo de amigos seus, todos traficantes, e agora passava por alguns sujeitos que conhecia só de vista, mas que sabia não serem moradores dali, e também via homens que nunca tinha visto antes, todos mal-encarados e aparentemente observando-o com suspeitas. Como se isso não bastasse para que ele se sentisse pouco à vontade, da metade do beco em diante começou a ver armas. Quando não era uma submetralhadora na mão de um, era um revólver na mão de outro, ou era uma pistola na cintura de alguém sem camisa, ou era um fuzil no colo de alguém sentado, ou era uma espingarda escorada num muro.

Pela janela aberta da casa de Valdir, um rapaz viu Pedro chegando e saiu para recebê-lo no portão do pátio. Trazia uma pistola prateada na mão esquerda, mas o largo sorriso estampado em seu rosto não deixava dúvidas quanto a sua hospitalidade.

– E aí, Pedro, sereno, vagabundo?

– Sereno, Lucas. Vem cá: que porra tá acontecendo aqui? Esse beco parece um quartel.

– Ah, mano, o clima ficou estranho depois da merda toda que aconteceu ontem, tá ligado. Não ficou sabendo?

– Fiquei.

– Pois é, mano, aí que eu te falava. O pai tá esperto, sabe cumé que é. A bala vai pegar uma hora dessa, é só questão de tempo. O Bison não vai querer deixar barato o que o Rasga Bucho fez com o pau no cu do irmão dele, mas na real a gente vai comprar a bronca. O Rasga Bucho é dos nosso e tava com a razão no bagulho.

– Onde é que tá o teu pai?

– Tá lá nos fundo. Tu quer falar com ele?

– Quero.

– Entra aí, vamo lá.

Pedro entrou no pátio e seguiu o rapaz, contornando a casa. Lá nos fundos, o terreno descia um pouco, mas em seguida tornava-se plano novamente, uns metros à frente. Havia um pessoal reunido ali (homens, mulheres e crianças), e um churrasco era preparado. Ao perceber que Rasga Bucho achava-se presente na alegre confraternização, inclusive dando risada com uma lata de cerveja na mão, o rapaz ficou chocado, se perguntando que tipo de monstro conseguia superar a perda de uma filha pequena assim, de um dia para o outro, sobretudo da forma trágica que tinha sido.

– Tá aí o pai, Pedro; pode falar.

Entretanto, depois de trazer o visitante à presença de seu pai, Lucas não se retirou.

– Cumé que tá, Seu Valdir? – cumprimentou Pedro.

Valdir estava sentado numa cadeira de praia, meio isolado dos outros, e, como todo mundo, empunhava uma lata de cerveja. Era um homem de meia-idade, careca, com cavanhaque. Pareceu estranhar profundamente a visita de Pedro, como se o rapaz fosse um extraterrestre.

– Tô bem, tô bem – respondeu, com a testa enrugada.

O jovem achou que o traficante talvez estivesse pensando que sua visita tivesse algo a ver com a tragédia da véspera e, no intuito de esclarecer que não era nada disso, sentiu necessidade de ir direto ao assunto.

– Eu vim aqui porque vou começar a vender maconha ali embaixo e achei que era bom falar com o senhor antes.

– Ué, por mim pode vender, eu não vendo maconha.

A resposta foi um tanto seca, e Pedro ficou ressabiado. Pareceu-lhe que Valdir estava bravo por algum motivo. O que estaria passando pela cabeça daquele cara? Estaria pensando que ele, Pedro, tinha sido mandado pelos inimigos, para espionar? Era só o que faltava…

– Vim por questão de respeito.

– Sei.

Valdir agora sorria ironicamente, sem tirar os olhos do rapaz, que já estava ficando assustado.

– O senhor… quer me dizer alguma coisa?

– Se eu quero te dizer alguma coisa? Como assim?

– Sei lá. O senhor tá… me olhando dum jeito estranho… Parece até que não gostou de eu ter aparecido aqui, por algum motivo…

– Impressão tua. Não tenho porra nenhuma pra te falar. Se eu tivesse, te falava. E tu? Tu tem alguma coisa pra me falar?

– Tinha, mas já falei. Eu vou vender maconha ali embaixo.

– Veio aqui só pra falar isso aí?

– Claro. Vim por questão de respeito, que nem eu disse.

– E aonde tu vai agora, saindo daqui?

Pedro não tinha mais nenhuma dúvida das suspeitas de Valdir.

– Na real, saindo daqui, eu vou falar com o Renato.

 

Renato era o chefe do tráfico na Viçosa, principal inimigo de Valdir. E Bison, o irmão do motociclista morto pelo ali presente Rasga Bucho, fazia parte da quadrilha de Renato.

– Ah, então tu vai falar com o Renato?

– Claro. Eu vou lá pelo mesmo motivo que eu vim aqui. Vou avisar pro Renato que eu vou vender maconha ali embaixo.

Valdir se irritou e jogou a lata de cerveja no chão, mas não se levantou. Pedro olhou em volta, e ficou aliviado ao perceber que ninguém prestava atenção na conversa, com exceção de Lucas, que estava bem ao lado do pai.

– Eu devia meter uma bala na tua cara, Pedro – disse o traficante. – Mas quer saber? Vou deixar tu ir. Vai lá. Porque eu não me importo que tu diga pro Renato tudo o que tu viu aqui. Vai lá. Diz pra ele quantos cara armado tu viu aqui.

Pedro pensou em virar as costas e ir embora, mas concluiu que isso seria confirmar as suspeitas de Valdir e, portanto, decidiu agir diferente. Puxou uma cadeira de praia que estava próxima e sentou-se, o que surpreendeu o homem.

– Olha, Seu Valdir, na real, eu vim aqui pensando em ter uma conversa bem curta com o senhor e ir embora, mas não vai dar. Eu não posso ir embora e deixar o senhor pensando um montão de merda. Não foi o Renato que me mandou aqui. Eu não sou fechado com ninguém, o senhor sabe. Se ele tivesse pedido pra eu vir aqui, eu não vinha, nem se ele quisesse me dar um caminhão de dinheiro. Porque eu não me meto em confusão, o senhor sabe. Porra, o senhor sabe, o senhor me conhece! Eu vim aqui só pra avisar que eu vou vender maconha ali embaixo. Só isso. Na real, que culpa eu tenho desse clima cabuloso que tá? É só o senhor pensar: qualquer um que aparecer aqui sem um bom motivo vai parecer suspeito pro senhor, não é verdade? Mas olha bem pra mim, Seu Valdir. Sou eu, o Pedro, o cara que mora ali embaixo e nunca se mete em confusão com ninguém.

Valdir escutou tudo com seu sorriso irônico, que foi se ampliando cada vez mais. Depois, inclinou-se um pouco para a frente, coçando o nariz, e disse:

– Beleza, Pedro, beleza. Tu me convenceu. Eu acredito em ti. Eu… até peço desculpa por toda essa minha… paranoia!

Estava para nascer homem mais sarcástico do que aquele ali. Pedro, entretanto, sentiu que o traficante realmente se convencera de sua inocência e atribuiu toda aquela mordacidade a puro orgulho: não devia ser fácil para um cara como ele dar o braço a torcer totalmente, sobretudo diante do próprio filho.

– Mas, de qualquer forma – continuou Valdir –, tu vai falar com o Renato agora, não vai? Aproveita, então, e me faz um favor: avisa que ele e o Bison tão convidado pro churrasco.

Pedro suspirou.

– É claro que eu não vou fazer isso. Não vou dar essa alfinetada pelo senhor. Na real, se eu puder, eu vou é tentar convencer o Renato e o Bison a esquecer essa porra dessa história. O senhor pode até considerar isso um favor, se quiser. Afinal, se eu conseguir fazer isso, vou livrar o senhor de uma dor de cabeça fodida.

Valdir fechou o sorriso.

– Tu acha que eu tô com medo, por acaso? Deixa eles vir, se eles quiser!

– Não, eu não disse que o senhor tá com medo. Eu sei que o senhor não tá com medo. Ninguém é bobo. Até o Renato sabe que o senhor não tá com medo. Na real, o senhor deve até gostar desse clima pesado.

– É. Eu gosto mesmo. Eu já tava sentindo falta disso.

– Pois é. O problema é que o senhor tem muito mais a perder do que a ganhar com tudo isso. E o Renato também. Quando a bala começar a pegar e os corpo começar a cair, a polícia vai tomar conta dessa porra desse lugar, e aí eu quero ver. Vão apreender arma, droga, dinheiro, um monte de nego vai ser preso.

– Nisso ele tem razão, pai.

Foi a primeira intervenção de Lucas, que obviamente não herdara a coragem do pai.

– Ah, cala essa boca, guri!

– Olha, Seu Valdir – prosseguiu Pedro –, pensa no seguinte: tá tudo certo, não é? Pelo menos é assim que eu penso. Tá tudo certo. Então, qual é a bronca?

– Como assim? Eu não entendi.

– O irmão do Bison atropelou a filhinha do Rasga Bucho, cara. E o Rasga Bucho matou ele. Ponto-final. Quem é que teria agido diferente no lugar do Rasga Bucho? É isso, e deu. O enterro da guriazinha vai ser hoje, o enterro do guri vai ser hoje, e essa história toda também tem que ser enterrada hoje. Acabou. Caso encerrado. Bola pra frente. Ninguém pode se queixar de nada. O senhor entendeu? Eu posso dizer isso pro Renato e pro Bison quando eu for lá. Eles nem precisa saber que eu tive aqui, na real. Se eles não me der bola, bom, problema deles. Mas, enfim, vai saber. Quando vê, eles me escuta. E daí, se pá, eles deixa quieto. Se isso acontecer, vai ser melhor pra todo mundo, na real. Todo mundo vai sair ganhando: o senhor, o Renato, todo mundo. Até eu vou sair ganhando.

Valdir prontamente enrugou a testa.

Tu? O que tu tem a ganhar com essa história toda?

– É que se vocês não começar essa guerra fodida, a polícia vai continuar sem aparecer aqui, e eu vou poder vender a minha maconha em paz.

Mas Pedro sabia que eram poucas as suas chances de convencer Bison a desistir de vingar a morte do irmão. E se o infeliz quisesse mesmo ir à forra, então com certeza Renato e todos os traficantes da Viçosa o apoiariam. A guerra tinha tudo para estourar. Na verdade, estava até demorando para estourar, tendo em vista que o pavio já tinha sido aceso havia várias horas.

 

Ao contrário da Nova São Carlos, a Viçosa não tinha uma composição homogênea. As famílias fundadoras tinham se concentrado na metade sudoeste da vila, onde até hoje vigorava a atmosfera afável, tranquila e civilizada semeada na década de 1970. Já a metade nordeste, fruto de sucessivas e irregulares invasões coletivas ocorridas ao longo dos anos, nada tinha de afável, tranquila ou civilizada. Carinhosamente apelidada de Vilinha, aquela porção da Viçosa, que nem mesmo era reconhecida como tal pela Associação dos Moradores, resumia-se a um deplorável conjunto de habitações permeado por ruas de terra esburacadas, vielas estreitas e valas de esgoto a céu aberto, tudo derramado desordenadamente pela encosta, desde a Estrada João de Oliveira Remião, lá em cima, até a futura Vila Sapo, cá embaixo.

E foi a caminho dessa parte nada afável, tranquila ou civilizada da Vila Viçosa que Pedro se pôs, andando devagar, mas com a cabeça funcionando a todo o vapor. Depois, já no interior da Vilinha, encontrou Bison, que estava escorado numa moto, fumando maconha e conversando com outro sujeito. Cumprimentou os dois e, em seguida, comentou:

– Aí, Bison, fiquei sabendo do lance lá do teu irmão. Lamentável.

Bison limitou-se a torcer os lábios e balançar a cabeça, olhando para o chão.

– Onde tá o Renato? – quis saber Pedro. – Tá na baia?

– Não. Tá lá no Cortiço.

O jovem acenou com a cabeça e seguiu caminhando. Mas parou no meio do caminho e virou-se:

– Te liga, Bison: eu tenho dois bagulho pra falar pro Renato, e um deles se pá tu vai querer ouvir. Chega aí, vamo junto.

– O que que é?

– É sobre o Rasga Bucho.

“Cortiço” era como tinha ficado conhecido o canto da Vilinha que fazia fronteira com um matagal, onde, por elementares razões estratégicas, tinha se estabelecido a boca de tráfico comandada por Renato. Ali não havia o mesmo clima bélico do beco de Valdir. Afinal, era a quadrilha da Viçosa que tinha motivos para atacar, e não o contrário, de modo que ficar em estado de alerta fazia sentido apenas para a quadrilha da Nova São Carlos.

Pedro tomou um susto quando chegou ao Cortiço: Renato e outros quatro homens estavam espancando alguém. A vítima, conforme o rapaz percebeu mais tarde, era um viciado em crack que morava, ou pelo menos tinha morado, na Serra Verde, uma vila situada do outro lado da Estrada João de Oliveira Remião. Pedro o conhecia apenas de vista; de uns tempos para cá, ele tinha passado a comprar crack ali, porque já devia muito dinheiro para os traficantes da Serra Verde e não tinha como pagar.

Enquanto o jovem esperava para poder falar com Renato, mais um homem apareceu, caminhando rápido, trazendo uma sacola.

– Pronto, Renato, tá na mão!

– Traz aqui, traz aqui!

Pedro ficou se perguntando qual seria o conteúdo da sacola, mas não demorou a descobrir: pegando-a pelas alças, Renato começou a bater no infeliz com ela, e o ruído que soava a cada pancada não deixava dúvida de que estava recheada de cacos de vidro.

O viciado implorava por sua vida, chorando, suando, babando, sangrando. De tanto que apanhou, já não tinha mais forças para se proteger ou se esquivar das sacoladas, que o acertavam em cheio, nas costas, no peito, na barriga, onde Renato decidia bater, e a cada golpe o homem soltava um urro animalesco, esganiçado, rouco. Mas sua voz desapareceu subitamente quando Renato bateu com particular violência, bem no meio do rosto. Ele, então, amontoou-se no chão, desacordado.

– Leva esse bosta daqui! – ordenou o traficante.

– É pra matar? – perguntou um dos capangas que juntavam o pobre coitado.

– Não precisa. Larga ele em qualquer canto, longe daqui.

Quando Renato percebeu a presença de Pedro, pareceu ficar meio sem jeito. O rapaz pensou consigo mesmo que ele talvez não gostasse de ser visto naquelas práticas por quem não pertencesse ao mundo do crime, assim como um adulto não gosta de ser visto nu por uma criança ingênua.

– Olha aí o que a gente acaba tendo que fazer na vida, não é, Pedro? – brincou o traficante, aproximando-se.

– O Pedro disse que tem um bagulho pra falar sobre o Rasga Bucho – apressou-se a informar Bison.

– Hum… – fez Renato. – Beleza, vamo trovar lá na minha baia.

A sala da residência era ampla, mas a quantidade de móveis, todos de mau gosto, fazia parecer o contrário. Pedro sentou-se em uma poltrona; Renato e Bison, no sofá, de frente para ele.

– Bom… – começou o rapaz, mas deteve-se de súbito. Vinda da cozinha, a filha de Renato, uma adolescente, acabava de aparecer no recinto, com cara de sono, comendo uma maçã.

– VAI PRO TEU QUARTO!!! – berrou o pai.

A jovem tornou a desaparecer, correndo para o quarto e batendo a porta. Pedro continuou, como se não tivesse havido interrupção:

– Bom, Renato, em primeiro lugar, eu vim te avisar que eu vou começar a vender maconha ali embaixo. Tu não vende maconha, então acho que não tem problema, não é? Sereno?

– Bah, isso depende – disse Renato. – Se tu vai trabalhar pro Seu Valdir…

Pedro teve vontade de rir. Achava engraçado ouvir Renato falar “Seu Valdir”, cheio de respeito, sendo que mataria o inimigo se tivesse oportunidade.

– Não vou trabalhar pra ele. A maconha vai ser minha, tá ligado. Eu vou comprar e depois vender.

– Beleza, mas o que que isso tem a ver com o Rasga Bucho?

– Bom, esse já é um outro assunto. É o seguinte: eu fui falar com o Seu Valdir agora há pouco…

– O filho da puta do Rasga Bucho tava lá? – atalhou Bison.

Pedro encarou-o, sem esconder o desagrado por ter sido interrompido.

– Tava. Tava, sim. Ele e a torcida do Flamengo, se tu quer saber. Todo mundo armado até os dente.

– O que tu foi falar com o Seu Valdir? – perguntou Renato.

– A mesma coisa que eu vim falar contigo: eu fui avisar que eu vou vender maconha ali embaixo.

– E o que que ele falou?

– Ele disse que tá sereno, claro. Ele também não vende maconha. Ele só vende pedra e pó, que nem tu. Mas ele me disse pra eu vir falar contigo antes de eu começar a vender a maconha. Na real, olha, na real mesmo, eu não ia vir aqui falar contigo. Porque a baixada tá mais pra lá do que pra cá. Tipo, da praça pra lá já é território dele, e não teu. Sempre foi assim, não é? Mas, enfim, ele achou que era melhor eu vir te avisar, e é por isso que eu tô aqui.

– Cumé que é? – sorriu Renato, incrédulo. – O Seu Valdir mandou tu vir me avisar? A troco de quê?

– Bom, ele disse que era questão de respeito, na real. Eu também não entendi direito. Ele disse que ele manda lá faz tempo, que tu manda aqui faz tempo, que eu tô começando a fazer a minha mão agora, no meio de vocês, e que eu tinha que mostrar respeito e pá. Daí ele mandou eu vir aqui avisar.

– Caralho, tu tá falando sério?

– Tô, porra.

– Veja! O Seu Valdir mudou um monte, então!

– Ah, ele é malandro da antiga, Renato. Coisa de véio, tá ligado. Ele gosta dos bagulho sendo feito certinho, só isso. Claro, já teve guerra entre vocês, mas olha quanto tempo faz isso. É tempo de paz agora, graças a Deus. É tempo de ganhar dinheiro e ficar de boa, na real.

Bison se impacientou.

– Porra, Pedro, o que tu ia falar sobre o Rasga Bucho, afinal?

Pedro fez um muxoxo.

– Então: se tu deixar eu falar, eu falo. Eu tinha começado a falar, e tu me atravessou.

– Então fala de uma vez, caralho.

– Beleza. É o seguinte, Bison: o Seu Valdir sabe que tu tá puto com o Rasga Bucho. Daí ele pediu pra eu dar um recado pro Renato.

O rapaz, então, dirigiu-se ao dono da casa:

– Ele perguntou se tu vai segurar o Bison, Renato. Tipo, ele disse que as coisa tão indo bem pra todo mundo, que todo mundo tá ganhando dinheiro pra caralho, que ninguém tem preocupação nenhuma com nada e que tudo isso pode continuar assim, se tu quiser. É tu que decide. Se tu segurar o Bison, fica tudo como tá. Mas se tu deixar o Bison tentar se vingar, bom, daí… Enfim.

Bison se levantou e começou a gargalhar, porém visivelmente enfurecido.

– Beleza, Pedro. Já deu o recado. Agora volta lá e diz praquele saco de cocô que eu vou matar o Rasga Bucho. Fim de papo.

Renato deu duas batidinhas no joelho de Bison.

– Te acalma, caralho! Te senta aí!

O homem tornou a se sentar, bufando.

– Aquele pau no cu matou o meu irmão, Renato!

– Eu sei, porra, eu sei! Mas vamo ouvir o que mais o Pedro tem pra falar.

 

Pedro percebeu que Renato tinha interesse na preservação da paz. Só o que precisava, agora, era insinuar, de maneira mais aguda, que impedir Bison de ir à forra era um preço pequeno a se pagar para fazer com que tudo continuasse como estava. Mas como sugerir isso, estando o próprio Bison ali presente, sedento por vingança? Se arrependeu de tê-lo convidado para participar da conversa. Apesar disso, foi justamente a ele que se dirigiu:

– Bom, eu também tenho um recado pra ti, Bison. Um recado do Rasga Bucho. Ele mandou te dizer que tem coisa pra caralho em jogo, coisa bem maior que tu, e que tu tem que te conformar. Tipo, ele falou que os negócio tão indo bem pra todo mundo, lá e aqui, que tá todo mundo de boa, lá e aqui, e que não é certo tu querer começar toda uma puta duma guerra que vai foder todo mundo só pra poder tentar se vingar e se sentir um pouco melhor, até porque, na real, isso nem ia trazer o teu irmão de volta, de qualquer jeito. Vai ser só uma porra duma bola de neve: tu mata ele, aí alguém vai querer te matar, e assim vai indo.

Desnecessário dizer que, num sutil jogo psicológico, o rapaz, embora falasse com Bison, queria mesmo era que Renato ouvisse tudo aquilo e pensasse a respeito. E, lembrando de súbito que o dono da casa tinha uma filha (a adolescente que havia pouco surgiu na sala), acrescentou, ainda se dirigindo a Bison:

– No fim, o Rasga Bucho pediu pra tu lembrar como foi a bronca toda, porque se tu tá inconformado por ter perdido o teu irmão, é muito pior perder uma filha, como ele perdeu. Ele pediu pra tu tentar imaginar isso. Pediu pra tu tentar te colocar no lugar dele. Ele tava segurando na mão da guriazinha quando o teu irmão, cagado de bêbado, bateu nela com a moto e atirou ela longe. Enfim, ele pediu pra tu tentar imaginar como ele se sentiu naquela hora.

Bison se levantou novamente, explodindo:

– Tu acha que eu tô aí pro que aconteceu com a filha dele? Foda-se a filha dele! Entendeu? Foda-se! Eu não vou ficar aqui ouvindo essa porra! Tu pode voltar lá, Pedro, e dizer pro Rasga Bucho que eu vou matar ele! Entendeu? Eu vou matar ele!

E saiu para a rua, batendo a porta. Mas ficou por perto, pois era possível ouvir sua voz resmungando coisas como “aquele filho da puta!”, ou então “não vai escapar de mim!”, ou ainda “ah, quando eu pegar ele!”.

Vendo que Renato estava muito pensativo, Pedro deu um riso seco e disse:

– Rebelde ele, hem? Sabe o que é que a minha vó dizia? Que quem deita com cachorro, levanta com pulga. O Bison ainda vai te trazer muita dor de cabeça. – Suspirou e se levantou para ir embora. – Bom, eu vou nessa. Falou, Renato, até mais.

O dono da casa, contudo, mostrou a palma da mão ao rapaz.

– Espera, Pedro. Eu quero que tu me faça um favor.

– Beleza, fala aí.

– É o seguinte: volta lá e diz pro Seu Valdir e pro Rasga Bucho que não vai ter guerra. Diz que vai ficar tudo como tá.

– Ué, como assim? O Bison…

– Deixa que eu cuido do Bison. Só vai e diz isso pra eles lá. Valeu?

– Valeu. Vou lá, então.

– Valeu. Deixa a porta aberta aí, quando tu passar.

O jovem obedeceu: saiu para a rua e deixou a porta aberta. A voz de Renato, então, chamou:

– Bison, chega aí!

Mas Bison, que naquele momento tentava acender um cigarro, a uns poucos metros da entrada da casa, se fingiu de surdo, enquanto Pedro, indo embora, passava ao lado dele.

Renato insistiu:

– Bison, eu tô te chamando, caralho!

Desta vez, o homem levou o chamado em consideração: dirigiu-se para dentro da casa, ainda tentando acender o cigarro. De repente, dois tiros, e os pássaros que estavam em uma árvore próxima saíram voando, assustados. Pedro, talvez até mais assustado do que os pássaros, girou de pronto nos calcanhares, a tempo de ver Bison cambaleando para fora, desesperado e ferido. Em seguida, Renato também saiu, efetuando mais vários disparos contra o infeliz pelas costas, até que Bison se esparramou no chão, de bruços, se contorcendo todo, em convulsão.

– Pai?! – O chamado, cheio de preocupação, vinha de dentro da casa, e pertencia à filha de Renato.

– Tá tudo bem, meu anjo! – respondeu o traficante. – Fica aí dentro, não vem pra cá! – ordenou, recarregando a arma com toda a tranquilidade, para, em seguida, tornar a descarregá-la, atirando ainda mais vezes contra o corpo já crivado de balas.

 

Capítulo extraído do livro Os Supridores, a ser lançado em novembro pela editora Todavia.

José Falero

É escritor, autor de Vila Sapo (Venas Abiertas)

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