poesia

Presos de Guantánamo falam com o mundo

Marc Falkoff
ILUSTRAÇÃO: XILOGRAVURAS DE ALBERTO MARTINS_2006

MESMO QUE AUMENTE
(Siddīq Turkistānī)

Mesmo que aumente a dor da ferida,
Remédio haverá que a cure.

Mesmo que perdurem os dias de prisão,
Dia virá em que seremos livres.

 

POEMA DA MORTE
(Jum‘ah Al-Dūssarī)

Tomem meu sangue.
Tomem meu sudário e
Meus restos mortais.
Tirem fotografias de meu cadáver na cova, solitário.

Espalhem-nas pelo mundo,
Entre os juízes e
Pessoas de consciência,
Entre os homens de princípios e os justos.

E que eles arquem com o fardo culposo, perante o mundo,
Desta alma inocente.
Que arquem com o fardo, perante seus filhos e a História,
Desta alma desperdiçada, impoluta,
Desta alma que sofreu nas mãos dos “protetores da paz”.

 

ELES LUTAM PELA PAZ
(Chākir ‘Abdurrahmān ‘Āmir)

Paz, eles dizem.
Paz de espírito?
Paz na terra?
Paz de que espécie?

Vejo-os falar, discutir, combater –
Que espécie de paz procuram?
Por que matam? O que estão planejando?

Serão palavras vazias? Por que discutem?
Será tão simples matar? É esse o seu plano?

Sim, é isso, claro!
Eles falam, discutem e matam –
Eles lutam pela paz.

 

LEÕES NA JAULA
(‘Ustād Badruzzamān Badr)

Somos os heróis deste tempo.
Somos a juventude orgulhosa.
Somos os leões hirsutos.

Vivemos nas histórias, agora.
Vivemos nas epopéias.
Vivemos no coração do público.

Somos o escudo diante do opressor.
Nossa coragem é como uma montanha.
O faraó de nosso tempo está intranqüilo graças a nós.

O Chefe do Palácio Branco,
Como outros chefes ímpios,
Não vê nossa paciência.

O torvelinho de nossas lágrimas
Célere aproxima-se dele.
Ninguém resiste ao poder dessa inundação.

No mais das vezes, nestas jaulas,
À meia-noite as estrelas
Trazem-nos boas novas:

Haveremos de vencer,
E o mundo espera por nós,
A Caravana de Badr.

 

PRIMEIRO POEMA DE COPO
(Xeique ‘Abdurrahīm Muslim Dost)

Que espécie de primavera é esta,
Em que não há flores e
Paira no ar um cheiro infame?

 

SEGUNDO POEMA DE COPO
(Xeique ‘Abdurrahīm Muslim Dost)

Algemas convêm a rapazes destemidos,
Pulseiras são para solteironas ou mocinhas bonitas.

 

ODE AO MAR
(Ibrahīm Al-Rubaich)

Ó mar, dá-me notícias de meus entes queridos.

Não fossem os grilhões dos infiéis, eu teria mergulhado em ti
E chegado a minha amada família, ou perecido em teus braços.

Tuas praias são tristeza, cativeiro, dor e injustiça.
Teu amargor corrói minha paciência.

Tua calma é como a morte, tuas ondas arrebatadoras são estranhas.
O silêncio que se eleva de ti contém a traição.

Tua imobilidade matará o capitão se persistir,
E o navegador se afogará em tuas ondas.

Suave, surdo, mudo, indiferente, feroz na tempestade,
Tu abrigas sepulturas.

Se o vento te enfurece, tua injustiça é evidente.
Se o vento te silencia, só resta fluxo e refluxo.

Ó Mar, ofendem-te nossos grilhões?
É sob coação apenas que vamos e voltamos todo dia.

Tu conheces nossos pecados?
Compreendes que fomos lançados nesta treva?

Ó Mar, tu escarneces de nós em nosso cativeiro.
És cúmplice de nossos inimigos, e nos manténs sob guarda cruel.

As rochas não te falam dos crimes cometidos entre elas?
E Cuba, a derrotada, não traduz suas histórias para ti?

Há três anos que jazes a nosso lado, e o que ganhaste com isso?
Barcos de poesia no mar; uma chama enterrada num coração ardente.

As palavras do poeta são a fonte de nosso poder;
Seu verso é bálsamo para nossos corações doridos.

 

Marc Falkoff

Marc Falkoff é professor-assistente do Departamento de Direito da Universidade Northern Illinois e advogado de dezessete prisioneiros de Guantánamo.

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