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Previdência funesta

Dona Erilda deixou pronto o cardápio do funeral

Felipe Sáles
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Dona Erilda Bittencourt é habilidosa com as mãos. Ao longo dos anos, cultivou o hobby de produzir bibelôs feitos de papel vegetal enquanto não estava dando aulas a alunos do ensino fundamental numa escola pública de São Pedro da Aldeia, Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Numa tarde inspirada, ela criou seu tour de force: um receptáculo diminuto com 5 centímetros de comprimento imitando à perfeição o formato de um caixão. O acabamento primou pelo esmero. A tampa e o fundo foram feitos de isopor, a miniatura foi pintada de branco e ornada com um laço preto e uma cruz dourada. Um cartão esclareceu a natureza do objeto: “Lembrança do funeral de dona Erilda.”

Planejar em detalhes sua despedida deste mundo é uma ideia fixa desde a adolescência. Não que tenha um temperamento mórbido ou impulsos suicidas. Dona Erilda quer apenas poupar de imprevistos os amigos e familiares que forem lhe dar o último adeus. O grau de minúcia de seu projeto é admirável. Dentro dos caixõezinhos distribuídos como lembrança, os convivas encontrarão oportunas balas de tamarindo. “Elas são bem azedas para ajudar a cara feia na hora de ver o corpo”, justificou.

Na cidade, a professora aposentada é conhecida por sua idiossincrasia. Um amigo já manifestou impaciência para degustar o churrasco que ela promete oferecer como cardápio das exéquias. De uma vizinha que sofrera um derrame, ouviu uma preocupação legítima: “Espere por mim, não posso perder seu enterro!”

Dona Erilda situa a origem de sua obsessão numa longínqua noite no início dos anos 60, numa sala de cinema. A fita em cartaz era Imitação da Vida, melodrama dirigido por Douglas Sirk e estrelado por Lana Turner e Juanita Moore. Ao cabo de uma avalanche de infortúnios, a morte da personagem de Moore foi celebrada num funeral épico, de parar Manhattan. Num pomposo cortejo fúnebre, precedido por uma carruagem, o caixão foi conduzido ao interior de uma catedral inundada de flores, embalado por um coro gospel puxado por Mahalia Jackson. O espetáculo cativou Erilda, que tinha 15 anos. “Achei tão bonito que quis logo organizar meu enterro e deixar tudo do meu jeito”, explicou.



Enquanto voltava para casa, começou a fantasiar sobre como poria em prática os planos suscitados pelo filme. O primeiro passo seria assegurar um mínimo de conforto para seu descanso eterno. Escondida da família, foi a uma funerária escolher um caixão. Por contingências mundanas, teve que se contentar com um modelo “mais simplesinho”, a ser pago em várias prestações. O negócio acabou desfeito quando seu pai descobriu o primeiro carnê.

Dona Erilda teve que abrir mão temporariamente de seus planos, mas nunca deixou de tramar a sua partida para o além. Quando conheceu seu futuro marido, só se deixou desposar depois que o pretendente jurasse que lhe daria um caixão bem bonito. Mas a promessa acabou esmaecendo com a rotina conjugal. “Ele só me enrolou”, contou ela, sem rancor. “Fiquei danada da vida.”

A obsessão funérea de dona Erilda ajudava a entreter os correligionários do marido, vereador em São Pedro da Aldeia, quando ele promovia reuniões políticas em casa. Enquanto eles discutiam ruas para asfaltar, a distribuição de merenda escolar e outras questões republicanas, circulavam os caixões em miniatura, para admiração de todos. Estimulada com a receptividade, ela fabricou até marcador de livro e convites para a missa de sétimo dia.

A escalada do ímpeto lúgubre de dona Erilda foi interrompida quando sua mãe morreu, seguida pouco depois pelo marido. Arquitetar seu funeral, de uma hora para outra, virou uma brincadeira de mau gosto. A família teve que lidar com muitos trâmites burocráticos por causa dos enterros – até tentativa de golpe da funerária houve na história. O trauma convenceu os dois filhos de dona Erilda de que ela tinha razão ao querer adquirir seu féretro em vida.

Ela escolheu um esquife branco, de alça dourada e tampa de vidro, não muito diferente dos que concebera em papel vegetal. Só no dia em que a encomenda foi entregue é que ela se deu conta de que não havia pensado onde acomodaria o caixão em casa. Na falta de solução melhor, o trambolho ficou na sala, convertido em estante. À espera de seu uso derradeiro, o ataúde abriga porta-retratos, bonecas e a coleção de sapinhos de dona Erilda. Ao fundo, ela tratou de deixar a bandeira do Flamengo que deve cobrir seu caixão – “É para não correr o risco de esquecerem.” O último vestido, claro, também já está pronto: é branco e cheio de detalhes, fechado atrás com velcro, “para facilitar o serviço quando o corpo enrijecer”.

Dona Erilda quer que seu velório seja apregoado num carro de som pelas ruas de São Pedro da Aldeia. Um amigo radialista emprestou sua voz e gravou o convite soturno: “Não percam o sensacional velório de Erilda Sampaio Bittencourt, com farta distribuição de brindes e aquela cervejinha beeem gelada!” Entre um anúncio e outro, serão reproduzidos trechos da trilha sonora do filme Ghost – Do Outro Lado da Vida. Até a ordem do cortejo fúnebre foi prevista. Conduzindo o rebanho, virá o padre, à frente do caixão, seguido pela família, pelos amigos e pelo bloco carnavalesco do bairro. O único trabalho dos filhos será providenciar a cerveja e o churrasco.

Mas uma incerteza corrói dona Erilda: ela desconhece o destino final do cortejo. Não há vagas nos cemitérios de São Pedro da Aldeia. “Aqui não tem onde cair morto”, lamentou. “Estou doida para comprar um jazigo. Já falei com dois prefeitos e, até agora, nada.”

Dona Erilda não tem pressa. Aos 63 anos, diz não ter vontade de morrer, apesar de tantos preparativos. “A morte é um momento de glória, de encontro com Deus, mas a vida é muito boa”, afirmou. Uma única contrariedade assalta seu espírito quando ela pensa em como será o momento que vem maquinando com tanta minúcia: “Pena que não vou participar.”

Felipe Sáles

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