esquina

Previsão gaiata

Os caprichos do tempo em idioma cearês

Lianne Ceará
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

“Óia aí, mah. Bem na beirinha. Torózim no fim de tarde seria bom, nera não?” Assim, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) avisou no dia 10 de novembro, no Twitter, sobre as nuvens carregadas que avançavam pelo mar rumo ao estado. “Chuvinha, só você sabe agradar, fazer qualquer um se apaixonar”, comemorou o tuíte da fundação no dia seguinte. “Quem quer mais chuva levanta a mãozinha”, acrescentou. “Sexta com sol truando, hein. Pra hoje, não há expectativa de chuva em nenhuma das regiões. Haja mão na testa pra limpar suor”, noticiou, dois dias depois.

Quem entra na página da Funceme no Twitter não tem como evitar um sorriso, às vezes uma risada. Numa linguagem bem-humorada e sem receio de acrescentar às informações uma penca de regionalismos, memes e letras de música, os comunicados da fundação são uma novidade em previsão de tempo, quebrando a formalidade que em geral cerca as notícias meteorológicas. E faz isso sem dispensar os dados científicos, apresentando gráficos, mapas e imagens de satélite.

A Funceme é uma instituição estadual criada em 1972 com o objetivo não apenas de estudar o clima, mas auxiliar na busca de soluções para as estiagens e secas no Ceará, historicamente um dos estados mais afetados por esses problemas no Brasil. Por isso, ainda que não caia na forma de “toró”, a chuva é sempre um “mimo” no Twitter da fundação. “Quartinha toda trabalhada no céu claro, viu? Porém, quinta e sexta deve rolar uns mimos, ó. Cedinho, chuva passageira entre os litorais de Fortaleza e Pecém”, anunciou o tuíte de 21 de outubro.

“Comunicação de qualidade não é só aquela coisa séria. As pessoas estão conseguindo entender mais as coisas quando elas são transmitidas com humor. O humor também é qualidade”, diz o jornalista Felipe Lima, assessor de Comunicação da Funceme, a pessoa por trás dos avisos gaiatos da fundação.

 

Felipe Lima, 33 anos, nasceu em Fortaleza, mas foi criado em Caucaia, na região metropolitana da capital, onde viveu por três décadas. Teve infância e adolescência modestas, ao lado da mãe, que trabalhava como enfermeira, e da irmã mais nova. Para ir à escola, precisava pegar dois ônibus. Quando não tinha dinheiro para as quatro conduções de ida e volta, percorria parte do trajeto a pé. De vez em quando, ficava por um fio de dar uma “pilôra” de fome na escola, ou seja, desmaiar.

Foi professor de reforço escolar, pulando de casa em casa dos alunos. Prestou vestibular para odontologia, veterinária e química industrial. Em 2007, acabou entrando na faculdade de comunicação social, no turno da noite. De manhã e à tarde, dava aulas no ensino fundamental. Em 2009, arrumou um estágio no jornal O Povo e largou o ensino. Perdeu o salário de professor, mas realizou o sonho de entrar para uma redação.

Naquela época, a transição para o digital ainda deixava os jornais em polvorosa no Ceará. Lima foi convocado para trabalhar no portal do diário na internet, onde aprendeu a lidar com a pressa das informações e os novos modos de comunicação online. Mas ele gostava mesmo era de caminhar vagarosamente pelas ruas, onde encontrava as pautas para sugerir aos editores. “Jornalismo é mais sentimento do que teoria”, diz ele.

Formou-se em 2011, passou por outras redações e, depois de oito anos de trabalho como repórter, tornou-se assessor de Comunicação da Funceme. Não sabia a diferença entre clima e tempo. Mas tratou logo de se informar sobre tudo – “tempo” se refere à situação atmosférica de um local em dado momento; “clima”, à média das variações de tempo num período de pelo menos trinta anos. Resolveu que deveria aproximar as pessoas da fundação e dos comunicados meteorológicos, recorrendo à sua experiência na imprensa. “As pessoas diziam que a Funceme errava tudo, mas meteorologia não é determinação, é probabilidade”, conta.

O erro talvez fosse apenas de comunicação. As redes sociais da fundação estavam desativadas, e o assessor quebrou tabus na Funceme ao defender que “estar nas redes às vezes é melhor que estar num jornal”. Em 2018, ele criou a página da instituição no Twitter e passou a fazer os comunicados sobre o “bichinho teimoso” – que é como o assessor define o tempo. Hoje, seu trabalho nas redes sociais é apreciado pela equipe da Funceme, que o estimula a dar as notícias sempre em linguagem simples, sem muitos termos científicos e, claro, em bom cearês.

No Ceará, tempo bom é quando o céu está com nuvens carregadas, “bonito pra chover”, nas palavras de Lima. Para ele, um momento de felicidade é quando pode avisar pelo Twitter que nuvens carregadas estão se aproximando e parecem dispostas a despejar suas águas sobre o estado. “Principalmente no interior. É de extrema satisfação.” O jornalista compara a expectativa com que o sertanejo aguarda a chuva com a da mãe que espera pelo filho voltar da escola ou do trabalho.

Por isso, a mensagem dos sonhos de Lima é sempre uma variação deste tuíte ideal: “Prepara os baldes, gente. Tá tudo aprumado pra cair um toró amanhã e a cruviana vai truar! Tá só filé pra todas as regiões. Óia aí, mah. Cuida!”



Lianne Ceará

Estagiária de jornalismo na piauí

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