problemas solúveis

Quadrados em disputa

No reino dos cultores de palavras cruzadas não é de bom-tom pronunciar a palavra sudoku. As duas tribos, definitivamente, não se bicam

Dorrit Harazim
Pausa para palavras cruzadas na Bolsa de Valores de Londres: uma obsessão solitária, intimista e bela que, para os puristas, exige o engajamento absoluto da mente
Pausa para palavras cruzadas na Bolsa de Valores de Londres: uma obsessão solitária, intimista e bela que, para os puristas, exige o engajamento absoluto da mente FOTO: PETER MARLOW_MAGNUN PHOTOS

Desde o início oficial deste verão até o último dia de janeiro de 2008, o usuário da Linha 1 do metrô do Rio de Janeiro teve com o que se distrair. Por conta de uma campanha publicitária da Coquetel, dona quase absoluta do mercado editorial de quebra-cabeças e passatempos no Brasil, a composição número 2001 circulou pelas dezoito estações do trajeto Cantagalo-Saens Peña com uma roupagem sedutora. Não apenas a parte externa do vagão central fora revestida com palavras cruzadas tamanho gigante, como todas as paredes internas estavam forradas com os característicos quadradinhos em branco, à espera de serem preenchidos.

Pela avaliação dos “olheiros” da Coquetel, que observaram a reação dos passageiros à distância, a campanha conseguiu injetar surpresa, rejuvenescimento e descontração num universo tido como mofado – no Brasil, palavras cruzadas ainda são sinônimo de ocupação para velhos e mania de desocupados. Animado com os resultados, o diretor-geral da empresa, Luís Fernando Pedroso, programou ação semelhante para o metrô de São Paulo e quer levar a campanha (classificada de “adesivagem” pelos marqueteiros) para vôos de verdade. Pretende que um avião comercial de alguma rota doméstica regular seja inteiramente revestido – fuselagem, cabine interna, porta-bagagens, tudo – com diagramas graúdos, para deleite de quem estiver a bordo. A novidade talvez não renda os dividendos esperados por Pedroso, mas, com tantos passageiros órfãos da ANAC, submetidos com monótona regularidade a delongas adicionais no pouso e na decolagem, o executivo pode estar inaugurando, sem querer, uma terapia de grupo improvisada.

Pelo experimento montado no metrô, o comportamento do público seguiu o traçado previsto: quem se arriscava a sacar caneta ou lápis para tentar preencher uma ou outra palavra do quebra-cabeça, à vista dos demais passageiros, era invariavelmente jovem. E, a partir da marca deixada por esse primeiro moicano, outros usuários, na mesma viagem ou em viagens subseqüentes, iam aderindo ao passatempo. Ao final da campanha, letras de vários tipos e origens preenchiam as lacunas mais fáceis dos diagramas, ainda que o grau de dificuldade dos quebra-cabeças afixados fosse quase constrangedor, de tão primário. Para enunciados como “Madeira resistente, 5 letras” (resposta: mogno) ou “Prenome Maluco Beleza da MPB, 4 letras” (Raul), a coisa ainda andou. Mas sobrou um deserto de quadrinhos vazios para perguntas ligeiramente menos óbvias, como “Secreção abundante nas horas de tensão, 4 letras” (suor). Isso indica que os passageiros mais idosos, tímidos, cansados ou habitués do ofício preferiram não participar da obra coletiva – até porque, para quem cultua palavras cruzadas como uma obra de arte da engenharia humana, a sedução está antes de tudo na característica solitária, obsessiva e intimista do jogo.

Trata-se de uma obsessão a ser alimentada em segredo, com ardor. Nada a ver com folhear uma revista em um consultório dentário, tropeçar em um diagrama semicompletado por algum paciente anterior e preencher as casas restantes distraidamente. Para quem é do ramo, essa abordagem casual é obscena. Pior. Significa o sucateamento ignóbil do que deveria ser um engajamento absoluto da mente, algo que, para os mais extremados, já foi definido como um prazer próximo ao êxtase.



A celebração máxima desse culto atende pelo nome pouco tonitruante de Torneio Americano de Palavras Cruzadas, cuja próxima edição está marcada para o último fim de semana de fevereiro no hotel Brooklyn Bridge Marriott, em Nova York. O prêmio maior é pífio, mesmo para uma economia americana em recessão: 5 mil dólares. Ainda assim, sair vencedor do evento é considerado mais eletrizante do que vencer os 100 metros rasos numa Olimpíada – a ausência de doping é garantida. Will Shortz, que há catorze anos ocupa o cargo de editor-imperador das palavras cruzadas do New York Times – as mais reverenciadas do planeta -, sustenta que nesse ramo não há fraude nem cola. As divisórias que separam as mesas dos competidores, aliás, são mínimas. “Se você espiar a solução do vizinho, está admitindo que ele tem melhor controle mental do que você, e isso entra na sua corrente sangüínea como um veneno, é uma quase-impossibilidade. Ao atacar um diagrama, você está medindo forças sobretudo com quem criou o problema”, explica Shortz.

Os Estados Unidos têm uma base de 63 milhões de aficionados que se engalfinham com no mínimo um diagrama por semana, e é desse exército que emerge a nata dos 698 afinadíssimos competidores que serão testados no Brooklyn Bridge Marriott. Embora o torneio já esteja na 31ª edição, com cobertura regular da imprensa mais intelectualizada do país, até dois anos atrás ele permanecia confinado numa redoma para iniciados. Foi somente em 2006, graças à câmera do documentarista de primeira viagem Patrick Creadon, que toda a graça, a inteligência, o humor e o suspense do concurso contagiaram o grande público. O longa-metragem de Creadon, intitulado Wordplay e premiado nos festivais de Sundance e Tribeca, é delicioso, surpreendente e indispensável aos que quiserem mergulhar mais fundo nessa divertida região da mente. O filme também ampara quem quiser se livrar do desdém que sempre nutriu por cruciverbalistas – como são chamados os criadores de palavras cruzadas – e suas vítimas. (O trailer do documentário pode ser visto em www.wordplaythemovie.com.)

 

Num salão cujo tamanho já foi comparado a um hangar de Zeppelin, o torneio reúne competidores que durante três dias emitem um som semelhante ao de cupins em ebulição. São as centenas de pontas de lápis número 2 deslizando sobre os espaços em branco dos diagramas. Os competidores em si nada têm de explicitamente exótico. Um pode ser gerente de projetos da Hewlett Packard, outro é roqueiro, uma terceira é doutora em estatística pela Universidade Harvard. O que os distingue dos demais bípedes é a capacidade de perceber numa fração de segundo que a palavra presbiteriano (presbyterian, em inglês) é anagrama de Britney Spears, ou a habilidade de exercitar a concentração nas situações mais adversas. O pianista canhoto Jon Delin, por exemplo, vencedor de sete entre dez edições recentes do evento, treina para o concurso resolvendo diagramas com a mão direita, falando ao telefone ou ouvindo rádio – práticas frontalmente incompatíveis com o ofício de cruzadista.

A carreira das palavras cruzadas é conhecida. Foi no dia 21 de dezembro de 1913, um domingo, que o repórter inglês Arthur Wynne, emigrado de Liverpool para os Estados Unidos, introduziu o novo passatempo no New York Sunday World, do qual era editor da seção de divertimento. Wynne batizou a novidade de word-cross, mas por um erro de tipografia o nome saiu invertido, cross-word, e nunca mais mudou. Era uma variante dos “quadrados mágicos”, acrósticos, anagramas e quebra-cabeças surgidos na Inglaterra da rainha Vitória – ela mesma uma laboriosa inventora de enigmas do gênero, apesar de ter um reino com aproximadamente um sexto da população mundial para cuidar.

 

Na América, o passatempo criado por Wynne espalhou-se rapidamente por outros jornais, virou febre nacional, tema de musicais da Broadway e produto de exportação. Em sua autobiografia, o escritor Vladimir Nabokov orgulha-se de que a introdução da expressão “palavra cruzada” na Rússia coube a seu pai, o jurista e político de mesmo nome. Mas a novidade também gerou apreensão. “É preciso inventar uma antitoxina que previna as pessoas de serem contaminadas por essa doença”, clamava um leitor do Sunday World. Tarde demais. Já nos anos 20, a empresa de transportes ferroviários Pennsylvania Railroad passou a imprimir diagramas no verso dos cardápios de seus vagões-restaurante. A concorrente B&O Railroad foi além, colocando dicionários à disposição dos passageiros em cada vagão. Enquanto isso, a Biblioteca Pública de Nova York viu-se forçada a impor um limite estrito de cinco minutos de consulta a livros e dicionários de referência para evitar tumultos nas filas que se formavam diante do seu imponente prédio da rua 42. Por fim, em 1924, um primeiro livro de palavras cruzadas – lançado por dois jovens chamados Dick Simon e Max Schuster – vendeu quase 250 mil exemplares só no primeiro ano, dando origem a uma das maiores editoras do país, a Simon & Schuster.

O passatempo consolidara-se como instituição nacional. Meio século antes de se ouvir a palavra sudoku pela primeira vez.

Nos Estados Unidos, o último jornal a ceder à demanda de seus leitores por palavras cruzadas foi o New York Times, em 1942, e, mesmo assim, somente aos domingos. Em plena II Guerra Mundial, foi uma decisão editorial de porte na venerável instituição, e diz muito sobre o peso cultural que o passatempo adquirira no país. Na verdade, ela só foi possível porque Arthur Hays Sulzberger, membro da família proprietária do jornalão e publisher à época, tornara-se fanático por palavras cruzadas. Mas somente oito anos mais tarde, em 1950, o jornal se dobrou por inteiro e passou a publicar um diagrama por dia. Nascia, assim, o fetiche cultural das cabeças pensantes americanas . De fato, e apesar de soar tolo, há quem avalie o seu jornal preferido pela qualidade das palavras cruzadas que nele encontra. Não demorou até que o New York Times formasse uma elite própria. “Nossos diagramas são uma fatia da nossa intelligentsia“, gabava-se o editor Jack Rosenthal.

Ao longo do tempo, essas paixões tribais foram se acentuando. Os puristas desprezam com horror a fabricação de diagramas por programas de computador, como os do diário USA Today. “Dado que o New York Times publica apenas um esquema por dia, o viciado que consegue solucioná-lo começa a procurar substitutos em outros jornais, mas todos lhe parecem menos satisfatórios. É claro que existem milhares de diagramas antigos, estocados na versão eletrônica do jornal, mas solucionar um problema já enfrentado no passado equivale a aceitar um cigarro de camomila quando você fuma três maços de cigarro sem filtro por dia”, afirma o escritor Marc Romano, autor de Crossworld: One Man’s Journey into America’s Crossword Obsession [Mundo Cruzado – Viagem de um Homem Através da Obsessão Americana por Palavras Cruzadas]. Para Romano, é a antecipação, e não a posse, que produz o prazer maior. A doce agonia da espera de 24 horas entre a solução de um diagrama e a chegada do próximo, na edição do dia seguinte, tem regulado sua vida há vinte anos.

O comediante Jon Stewart, o documentarista Ken Burns (das séries A Guerra Civil, Jazz e, mais recentemente, da fenomenal A Guerra), a dupla de roqueiras Indigo Girls, entre outros tantos, consideram as cruzadas do NYTimes como a última trincheira da elegância do idioma, do humor borbulhante, dos trocadilhos tão sublimes quanto infames. Bill Clinton é invejado pela tribo de cruzadistas não por ter ocupado a Casa Branca e saber fruir das boas coisas da vida, mas por conseguir resolver o diagrama dominical do jornal – o de mais alto grau de dificuldade – à caneta, sem rasuras. Nem mesmo a atual campanha presidencial da mulher, Hillary, é capaz de fazê-lo perder uma única cruzadinha aos domingos. Ele não está sozinho. Um em cada quatro leitores da edição dominical vai direto para a página do enigma. Se sobrar tempo, lê também o jornal.

O responsável por essa lealdade canina é Will Shortz, que há catorze anos ocupa o reverenciado posto de editor de palavras cruzadas. Trata-se de um dos cargos mais duradouros do jornal – em 66 anos de existência da seção, houve apenas três editores antes dele. Eugene T. Maleska, seu antecessor direto, era um classicista. Reinou de 1977 a 1993 e deixou uma legião de viúvos e viúvas para quem palavras cruzadas deveriam ser mantidas na esfera da alta cultura. Professor de latim e de inglês, Maleska jamais deixou que alguma trivialidade, nome de marca comercial ou termo dos incompreensíveis anos 60 se infiltrassem em seus diagramas. As palavras cruzadas sob seu reinado vinham abarrotadas de nomes de cantores líricos, obscuros rios da Ásia Central e palavras que sobrevivem apenas em dicionários especializados. Acima de tudo, Maleska foi um educador.

Shortz, em contrapartida, é mestre na arte de brincar com palavras. Acusado de herético por ter demolido o modelo clássico criado por Maleska, ele mexeu em tudo o que considerava rançoso, sem humor ou pouco interessante. É ele quem escreve pessoalmente metade dos enunciados para os diagramas recebidos de colaboradores freelancers – os chamados cruciverbalistas -, e imprimiu-lhes um virtuosismo técnico ímpar. Associações livres, finas ironias, trocadilhos impossíveis, introdução de conceitos modernos tão desconcertantes quanto imprevisíveis – com Shortz ninguém podia. Ao aumentar o grau de dificuldade dos problemas ao longo da semana, o editor passou a exercer controle pleno sobre o grau de tortura voluntária a que seus seguidres são submetidos, com a apoteose dominical servindo de consagração máxima dos fanáticos. Tem mais. Will Shortz é a primeira e certamente a única pessoa do mundo a ter um diploma universitário de enigmatologia. Na época em que estudava economia na respeitada universidade de Indiana, aproveitou-se da estrutura aberta do seu currículo acadêmico e convenceu o corpo docente da necessidade de se estudar a relação entre quebra-cabeças e o ambiente cultural em que são criados e solucionados. Saiu dali com o singular diploma embaixo do braço, mas por via das dúvidas tomou a precaução de se formar também em direito. Não demorou para arrumar emprego na revista Games, modelo da brasileira Coquetel, ser contratado pelo New York Times em 1993, ano da morte de Maleska, e passar à potência máxima nos negócios e na arte das palavras cruzadas.

 

O ataque veio de um flanco inesperado, desconhecido, guerrilheiro e franco-atirador, que de início passou despercebido no Ocidente. Um passatempo chamado sudoku (pronuncia- se súdoku), abreviação para uma longa frase que em japonês significa “os números precisam ser únicos”, havia sido criado em 1986 pelo maior fabricante de puzzles do país, a Nikoli, mas ficara restrito ao consumo oriental. Criado cinco anos antes por um arquiteto americano, Howard Garnes, sob outro nome, o quebra-cabeças numérico não tinha emplacado. Mas como no Japão os jogos com números tendem a ser mais populares do que os que envolvem palavras – certamente pelas características da língua japonesa -, o sudoku, ou jogo do “número único”, agradou, floresceu e acabou fazendo o caminho inverso. Primeiro, infiltrou-se nas páginas do The Times, de Londres, pelas mãos de um juiz aposentado de Hong Kong, Wayne Gould, que o apresentou aos ingleses em 2004. No ano seguinte, cruzou o Atlântico, aportou em Nova York e foi parar nas páginas do tablóide New York Post. Quando Will Shortz se deu conta da blitzkrieg, o inimigo já estava na soleira de sua porta.

Para se ter idéia do efeito motoserra que o sudoku provoca por onde passa, basta dizer que em poucos meses todos os jornais da Inglaterra haviam adotado a novidade, a ponto de o respeitado The Guardian chegar a publicar um sudoku em cada página do jornal durante um breve período. Da Rússia ao Brasil, onde foi introduzido pela Ediouro, da França aos Emirados Árabes, da Internet às estantes de livrarias, a mania tornou-se universal. Com exceção, por enquanto, do território físico de Shortz: assim como as palavras cruzadas levaram décadas para obter acesso ao New York Times, o jornal nova-iorquino continua altivamente blindado ao passatempo cujo nome poucos se arriscam a pronunciar. Isso, no que se refere à edição em papel, pois da edição eletrônica do jornal já constam sudoku diários.

O próprio Shortz foi atropelado pelo fenômeno quando a editora St. Martin, que há décadas publica seus livros de palavras cruzadas, instou-o a produzir três volumes contendo 100 quebra-cabeças de sudoku em apenas dez dias.Surpreendentemente, ele aceitou. E ficou mais rico. A série cresceu, chegou a cinqüenta volumes, freqüenta quarenta dos cinqüenta títulos de maior tiragem na categoria Jogos e em 2006 ostentou uma tiragem de 1 milhão de exemplares por mês.

Qual o segredo da coisa? Ter regras simples. O desafio está em preencher uma grade de 9 casas na horizontal por 9 casas na vertical, com números que vão de 1 a 9; esses números não podem se repetir nem nos quadradinhos verticais nem nos horizontais, assim como não podem se repetir nas subgrades de 3 por 3 delimitadas no interior do diagrama. Pronto.

Soa mais complicado do que é. Na verdade, um problema de sudoku pode ser solucionado por quem sequer é alfabetizado. Basta ter conhecimentos elementares de aritmética, saber contar de 1 a 9 e ter uma mente lógica. Ou, na definição do jornalista americano Clive Thompson, autor de um divertido perfil de Will Shortz, sudoku é o quebra-cabeças sob medida para o mundo pós-letrado. Ao contrário das palavras cruzadas, que de certa forma espelham características da cultura e da civilização de cada país, e por isso costumam ser intraduzíveis, o sudoku é uma língua franca que atravessa fronteiras sem pedir licença. Por mais que seus criadores se esmerem em multiplicar os graus de dificuldade do quebra-cabeças numérico, a essência do sudoku não está no cabedal de conhecimentos que você tem, mas na forma como você raciocina. Para solucionar um diagrama de sudoku não é necessário ter conhecimentos de história nem saber trivia, basta operar como uma máquina lógica. Resumindo, trata-se da antítese quase perfeita das palavras cruzadas, e não espanta que as duas tribos não se misturem. O ex e futuro candidato a governador de São Paulo Geraldo Alckmin deve ser uma das raras pessoas a manifestar devoção pelos dois passatempos.

No entender de Will Shortz, o sudoku tem uma pegada psicológica. Ele é construído de maneira a fazer a pessoa se defrontar com um impasse, no meio do caminho, e levá-la quase à desistência. Mas se for persistente, acabará encontrando uma brecha, um avanço, e rapidamente conseguirá completar o que falta. “Então você é tomado por uma intensa satisfação de compleição, e imediatamente quer resolver o próximo problema. É viciante.” Nesse aspecto, nada muito diferente de outros quebra-cabeças, concebidos em grande parte para quem gosta da sensação de concluir tarefas e pôr a cabeça em ordem. “Dado o número de problemas que enfrentamos diariamente”, diz Shortz, “poucos deles conseguem se resolver ou têm solução à vista. Vamos tocando a vida como podemos. Num quebra-cabeças você encontra não apenas a solução, mas a solução perfeita.”

O passatempo também ajuda a deixar de lado preocupações imediatas, empurrá-las para baixo do tapete por um tempo. Não há forma mais barata de adiar uma decisão importante do que se concentrar para descobrir qual palavra começa com a letra “x”, termina com “y” e tem um “a” ou “m” no meio. Que o diga o marechal Arthur da Costa e Silva. Na tarde de 12 de dezembro de 1968, depois de ouvir pelo rádio a rejeição do Congresso brasileiro ao pedido de licença para processar o deputado Márcio Moreira Alves, o presidente trancou-se no Palácio das Laranjeiras. Durante horas não recebeu ninguém, nem mesmo o ministro do Exército, Lira Tavares. Ficou fazendo palavras cruzadas e ouvindo música. Às cinco da tarde do dia seguinte, quando presidiu a sessão que aprovou o Ato Institucional nº 5, oficializou a ditadura que duraria dez anos.

Na inconclusa (e ociosa) disputa por espaço entre sudoquistas e cruzados, vale descrever aquele que, pelo virtuosismo de sua construção, é considerado o diagrama de palavras cruzadas mais belo de todos os tempos. Ele costuma ser apresentado como a prova decisiva da

superioridade da palavra sobre o número, e vem a calhar neste ano eleitoral americano. Data: 5 de novembro de 1996, dia da eleição presidencial que decidiria se o novo ocupante da Casa Branca seria o democrata Bill Clinton ou o republicano Bob Dole. Naquela manhã de terça-feira o New York Times saiu com um diagrama que tinha um mesmo enunciado para as casas 39 e 43, na horizontal: “Manchete do jornal de amanhã”. Duas respostas diferentes cabiam exatamente nos mesmos espaços, exigindo um extraordinário malabarismo múltiplo nos enunciados verticais. As duas respostas corretas, criadas pelo cruciverbalista Jeremiah Farrell, um matemático aposentado que se tornou lenda desde então, eram: CLINTON ELEITO E BOB DOLE ELEITO. Foi um furor. Leitores republicanos crucificaram o jornal por estar fazendo campanha de última hora para o candidato democrata, e vice-versa. Até que perceberam a genialidade do diabólico quebra-cabeças e silenciaram, envergonhados.

No dia seguinte, a manchete do jornal foi “Clinton eleito”. As urnas tinham matado a charada do país.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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