poesia

Quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões dos anjos?

Manuel António Pina
FOTO_BERNARDO P. CARVALHO_2018

LUDWIG W. EM 1951

“As palavras (o tempo e os livros que

foram precisos para aqui chegar,

ao sítio do primeiro poema!)

são apenas seres deste mundo,

insubstanciais seres, incapazes também eles de compreender,

falando desamparadamente diante do mundo.

As palavras não chegam,

a palavra azul não chega,

a palavra dor não chega.

Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem que palavras?

E, no entanto, é à sua volta

que se articula, balbuciante,

o enigma do mundo.

Não temos mais nada, e com tão pouco

havemos de amar e de ser amados,

e de nos conformar à vida e à morte,

e ao desespero, e à alegria,

havemos de comer e de vestir,

e de saber e de não saber,

e até o silêncio, se é possível o silêncio,

havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo.

 

Teremos então, enfim, uma casa onde morar

e uma cama onde dormir

e um sono onde coincidiremos

com a nossa vida,

um sono coerente e silencioso,

uma palavra só, sem voz, inarticulável,

anterior e exterior,

como um limite tendendo para destino nenhum

e para palavra nenhuma.”

 

 

TANTA TERRA

Tanta terra,

tantas palavras sob tantas palavras.

Regressa como um corpo o coração

à apenas existência,

 

lembrança de

alguma coisa lida:

o rosto da mãe, a trepadeira do jardim.

Mãe, afastei-me de mais, perdi-me

 

no meio de palavras minhas e palavras alheias,

quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões dos anjos?

E nem isto me pertence,

 

a tua ausência e o meu medo;

nem estou na minha ausência,

fui como um vaso e quebrei-me ou qualquer coisa assim.

 

 

O NOME DO CÃO

O cão tinha um nome

por que o chamávamos

e por que respondia,

 

mas qual seria

o seu nome

só o cão obscuramente sabia.

 

Olhava-nos com uns olhos que havia

nos seus olhos

mas não se via o que ele via,

 

nem se nos via e nos reconhecia

de algum modo essencial

que nos escapava

 

ou se via o que de nós passava

e não o que permanecia,

o mistério que nos esclarecia.

 

Onde nós não alcançávamos

dentro de nós

o cão ia.

 

E aí adormecia

dum sono sem remorsos

e sem melancolia.

 

Então sonhava

o sonho sólido em que existia.

E não compreendia.

 

Um dia chamámos pelo cão e ele não estava

onde sempre estivera:

na sua exclusiva vida.

 

Alguém o chamara por outro nome,

um absoluto nome,

de muito longe.

 

E o cão partira

ao encontro desse nome

como chegara: só.

 

E a mãe enterrou-o

sob a buganvília

dizendo: “É a vida…”

 

 

UMA PROSA SOBRE MEUS GATOS

Perguntaram-me um dia destes

ao telefone

por que não escrevia

poesia (ao menos um poema)

sobre os meus gatos;

mas quem se interessaria

pelos meus gatos,

cuja única evidência

é serem meus (digamos assim)

e serem gatos

(coisa vasta, mas que acontece

a todos os da sua espécie)?

Este poderia

(talvez) ser um tema

(talvez até um tema nobre),

mas um tema não chega para um poema

nem sequer para um poema sobre;

porque é o poema o tema,

forma apenas.

Depois, os meus gatos

escapam demais à poesia,

ou de menos, o que vai dar ao mesmo,

são muito longe

ou muito perto,

e o poema precisa do tempo certo

de onde possa, como o gato, dar o salto;

o poema que fizesse

faria deles gatos abstractos,

literários, gatos-palavras,

desprezível comércio de que não me orgulharia

(embora a eles tanto lhes desse).

Por fim, não existem “os meus gatos”,

existem uns tantos gatos-gatos,

um gato, outro gato, outro gato,

que por um expediente singular

(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)

me é dado nomear e adjectivar,

isto é, ocultar,

tendo assim uns gatos em minha casa

e outros na minha cabeça.

Ora só os da cabeça alcançaria

(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.

Fiquei-me por isso por uma prosa,

e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.

 

 

OS TIGRES DE TOZAMURAI-NO-MA

Ninguém os vira antes, nem Naonobu,

emboscados na matéria da madeira

inexistindo puros e interiores.

 

Capturados pela astúcia do carmim

e do oiro na cerimónia da pintura

correm imóveis entre as cerejeiras.

 

Os seus olhos impacientes

presos do lado de fora

fitam com ira os turistas.

 

 

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,

principalmente as que estiveram muito perto,

como uma respiração,

e não reconheci,

ou desistiram e

partiram para sempre,

deixando no poema uma espécie de mágoa

como uma marca de água impresente;

as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te

nem foram capazes de dizer-me;

as que calei por serem muito cedo,

e as que calei por serem muito tarde,

e agora, sem tempo, me ardem;

as que troquei por outras (como poderei

esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);

as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo

e se foram levando o mundo.

E também aquelas que ficaram,

por cansaço, por inércia, por acaso,

e com quem agora, como velhos amantes sem

desejo, desfio memórias,

as minhas últimas palavras.

 


Trechos da antologia poética a ser publicada pela primeira vez no Brasil em novembro pela Editora 34.

Manuel António Pina

Manuel António Pina poeta e jornalista português, recebeu o Prêmio Camões em 2011.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Foro de Teresina #39: A fritura de Bebianno, a matança no Rio e os inimigos na Amazônia

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Guerra Fria – tragédia da paixão impossível

Indicado ao Oscar, filme polonês se distingue ao narrar história simples de modo inovador

Quatro tons de amarelo

Coletes-amarelos franceses racham entre ultradireita, defensores de “democracia direta”, candidatos a deputados e um novo partido de oposição

Arqueólogos redescobrem relíquias do Museu Nacional

Quantidade e qualidade das peças resgatadas surpreendem pesquisadores; a piauí foi o primeiro veículo brasileiro a entrar no palácio após o incêndio

Maria vai com as outras #2: Peso

Duas professoras falam sobre como perder ou ganhar muitos quilos afetou suas vidas dentro e fora do trabalho

Abaixo da ilha das Cobras, um tesouro biológico

Cientistas descobrem no litoral paulista o recife de corais mais ao sul do oceano Atlântico

Um engenheiro, um policial e duas tragédias

Delegado que investigou Mariana reencontra em Brumadinho gerente de minas envolvido nos dois desastres

Helio Bolsonaro e os novatos da Câmara

Deputados de primeiro mandato são apresentados ao “vota no meu, que eu voto no seu”

Foro de Teresina #38: Os novos donos do Congresso, as leis de Moro e os escândalos do governo

Podcast da piauí discute os fatos da semana na política nacional

Fevereiros – vislumbre de felicidade

Documentário sobre Maria Bethânia é testemunho do sincretismo religioso afro-brasileiro que está na origem de sua expressão musical

Mais textos
1

Arqueólogos redescobrem relíquias do Museu Nacional

Quantidade e qualidade das peças resgatadas surpreendem pesquisadores; a piauí foi o primeiro veículo brasileiro a entrar no palácio após o incêndio

2

Abaixo da ilha das Cobras, um tesouro biológico

Cientistas descobrem no litoral paulista o recife de corais mais ao sul do oceano Atlântico

4

Quatro tons de amarelo

Coletes-amarelos franceses racham entre ultradireita, defensores de “democracia direta”, candidatos a deputados e um novo partido de oposição

5

A guerra do PCC

Facção se internacionaliza com tráfico de cocaína, e pela primeira vez Marcola vê seu poder ameaçado

6

Um engenheiro, um policial e duas tragédias

Delegado que investigou Mariana reencontra em Brumadinho gerente de minas envolvido nos dois desastres

7

Onze bilhões de reais e um barril de lágrimas

Luis Stuhlberger, o zero à esquerda que achava que nunca seria alguém, construiu o maior fundo multimercado fora dos Estados Unidos e, no meio da crise, deu mais uma tacada

8

Em nome do nada

O suicídio de jovens no Brasil

10

Foro de Teresina #39: A fritura de Bebianno, a matança no Rio e os inimigos na Amazônia

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana