megabytes

Quero ficar na geração 1.0 

O mundo criado por um segundanista de Harvard é menos divertido que a vida real

Zadie Smith
Talvez toda a internet fique parecida com o Facebook: falsamente alegre e amistosa, voltada para a autopromoção e engenhosamente dissimulada
Talvez toda a internet fique parecida com o Facebook: falsamente alegre e amistosa, voltada para a autopromoção e engenhosamente dissimulada ILUSTRAÇÃO: JAN_TRICK77.COM

Quantos anos dura uma geração nos dias de hoje? Devo ser da mesma geração de Mark Zuckerberg – afinal, só tenho nove anos a mais que ele –, mas não me sinto exatamente assim. Muito embora possa dizer (como todos os outros residentes do campus de Harvard no outono de 2003) que “testemunhei” a criação do Facebook, que me lembro bem do Facemash e de toda a onda que o programa provocou; e também daquela estrela de cinema diáfana e linda que deslizava pela neve, acompanhada de um séquito de admiradores fiéis, apesar da própria neve inclemente que azulava os dedos dos pés, destruía o ânimo de qualquer um e provocou a morte sem sangue de um esquilo diante do meu alojamento: congelado, inanimado, perfeito. Não duvido que, daqui a muitos anos, eu possa rememorar incorretamente minha proximidade com Zuckerberg, à mesma medida que todos os moradores da Liverpool dos anos 60 que conviveram com John Lennon.

Naquela época, eu me sentia distante de Zuckerberg e de todos os alunos de Harvard. Ainda me sinto distante deles, e até mais, conforme venho optando gradativamente (por escolha ou por inércia) por me desligar das coisas de que eles participam. Temos uma visão diferente da vida ou, mais especificamente, do que seja ou deva ser uma pessoa. Muitas vezes me preocupa a impressão de que minha ideia de pessoa possa ser nostálgica, irracional, equivocada. É possível que a Geração Facebook tenha construído de boa fé suas mansões virtuais, destinadas a acolher as pessoas 2.0 que de fato são, e que me deixem desconfortável por eu ter permanecido atolada na condição de pessoa 1.0. Por outro lado, quanto mais tempo eu passo com os representantes mais novos da Geração Facebook (na pessoa dos meus alunos), mais convencida fico de que boa parte dos programas que vêm dando forma à sua geração não está à altura deles. São bem mais interessantes do que isso, e mereciam coisa melhor.

Em A Rede Social, a Geração Facebook aparece representada num filme que está quase à sua altura. Só isso, por ser tão inesperado, já basta para tornar o filme melhor do que deve ser do ponto de vista objetivo. A partir da cena de abertura, fica claro que estamos diante de um filme sobre pessoas 2.0 feito por pessoas 1.0 (Aaron Sorkin e David Fincher têm, respectivamente, 49 e 48 anos). Antes de tudo, trata-se de um filme falado, com uma profusão de palavras por minuto semelhante a His Girl Friday [de Howard Hawks, 1940, lançado no Brasil como Jejum de Amor]. Um rapaz, Mark, e sua namorada, Erica, estão sentados em torno da mesinha de um bar de Harvard, trocando alfinetadas em alta velocidade no estilo ininterrupto que Sorkin tornou famoso em seu seriado The West Wing – Nos Bastidores do Poder.

Notamos que o rapaz tem algum problema: só muito de vez em quando olha nos olhos da namorada; dá a impressão de não entender certas expressões de uso corrente, ou ambiguidades ocasionais; é tão literal que quase chega a ser ofensivo, pedante ao ponto da agressão. Não entende o que está acontecendo quando ela tenta acabar o namoro. E tampouco entende por quê.



 

Para simplificar, trata-se de um nerd, um maníaco por computadores, um “autista” social: tipo tão reconhecível pelo público do diretor Fincher quanto o jornalista cínico era claramente identificável no tempo de Howard Hawks. Para criar esse Zuckerberg, o roteirista mal precisa encostar a pena no papel. Já entramos no cinema esperando o encontro com o personagem, e é um prazer ver que o filme se limita a preencher de cor o que já trazíamos delineado na nossa imaginação. Às vezes, a cultura consegue inferir, coletivamente, uma personalidade individual. Ou pelo menos acha que consegue. Acreditamos conhecer exatamente os motivos que levam os nerds a serem como são: ganhar dinheiro, que traz popularidade, a qual, por sua vez, atrai garotas. Zuckerberg começa sua ascensão movido pelo despeito.

Muito tempo haverá de passar antes de surgir nas telas uma figura capaz de destronar Jesse Eisenberg, o ator que faz o papel de Zuckerberg, do topo da lista de tipos nerd do cinema. Voz passivo-agressiva e praticamente monocórdia. Tédio irrequieto sempre que outra pessoa está falando. O ar de desdém quase sem disfarce. Eisenberg escolhe inclusive o andar perfeito para o seu nerd: não o arrastar de pés para os lados do corredor (Não bata em mim!), mas a marcha muito vertical de peito estufado (Minha altura não é 1m73, tenho 1,75!).

Sempre de mochila, claro. Um longo plano de quatro minutos o mostra usando exatamente esse jeito de andar para atravessar de ponta a ponta o campus de Harvard antes de finalmente chegar a seu lugar predileto, o único onde se sente realmente à vontade: diante do laptop, escrevendo no seu blog.

Sabemos exatamente quem é esse cara. Superprogramado dos pés à cabeça, furioso, solitário. Em torno dele, o roteirista dispõe um convincente agrupamento de seres humanos 1.0, alternadamente traídos e humilhados por ele, e à medida que o filme avança, todos formam fila para abrir seus processos contra Mark. Se o filme tem três atos, é porque Zuckerberg passa a perna em mais gente do que caberia num filme de apenas dois atos: os gêmeos Winklevoss e Divya Narendra (que acusam Zuckerberg de lhes ter roubado a ideia inicial do Facebook), seu melhor amigo, Eduardo Saverin (o diretor financeiro que ele força a deixar a empresa), e finalmente Sean Parker, o jovem prodígio que criou o Napster, o programa de compartilhamento de música, embora este último, a bem da justiça, cuida sozinho de passar a perna em si mesmo. É em Eduardo – no belo rosto expressivo do ator Andrew Garfield – que todas essas traições parecem convergir, manifestando-se pessoalmente e com grande mágoa. As cenas de arbitragem, que deviam ser chatas, por serem tão estáticas, ganham força a partir do contraste extremo entre o rosto imóvel de Eisenberg, cujas sobrancelhas quase nunca se movem (as do Zuckerberg real jamais se movem), e a incredulidade suplicante de Garfield, lembrando a maneira como Spencer Tracy contorcia o rosto diante da rigidez de Fredric March num outro épico dos tribunais, Inherit the Wind [de Stanley Kramer, 1960, lançado no Brasil como O Vento Será Tua Herança].

Ainda assim, o diretor se permite uma sequência de puro show aquático. Lá pela metade do filme, insere uma sequência arrebatadora, mas totalmente desnecessária, em que os belos gêmeos Winklevoss (para uma história de nerds, os homens são todos inesperadamente bonitos) participam da tradicional Henley Royal Regatta [regata internacional patrocinada anualmente pela família real inglesa no rio Tâmisa, que reúne várias equipes de todo o mundo].Os dois titãs louros remam lindamente. (Um único ator, Armie Hammer, foi digitalmente duplicado. Sou tão irremediavelmente 1.0 que passei uma hora inteira do filme tentando detectar alguma diferença entre os gêmeos.) Seus braços se deslocam com uma velocidade suspeita, maior que a dos braços humanos de verdade, seus músculos parecem definidos a bico de pena, a água emite borrifos em que as gotas isoladas parecem pintadas por Caravaggio; e a música!

A Zuckerberg só resta se dirigir à encruzilhada para um encontro com o demônio: que é, naturalmente, um empresário da música via internet. É uma reação instintiva da Geração Facebook esperar (torcer para?) que as estrelas do mundo pop quebrem a cara na tela, mas Justin Timberlake, no papel de Sean Parker, contraria com talento a expectativa: ache ou não o espectador que ele é um babaca, não há dúvida de que faz muito bem o papel de babaca. Sobrancelhas minuciosamente aparadas, testa suada e uma confiança em si mesmo instilada pela cocaína, precária e altamente quebradiça, sempre à beira de descambar para a paranoia. Timberlake entra em cena no terceiro ato, a passos oscilantes, para transmitir à plateia e a Zuckerberg basicamente a mesma coisa que vem nos transmitindo em seus clipes dos últimos dez anos: uma visão da boa vida.

 

Essa visão é igualmente precária e quebradiça, e o diretor Fincher a satiriza sem dó nem piedade. Aqui, também, já sabemos de cara quais são seus ingredientes básicos: o tapete vermelho, um tratamento de rei por parte das garçonetes, o bom e o melhor ao alcance dos dedos, a mesa privativa e reservada, comida exótica em pequenas porções preparadas com requinte (“Pode nos trazer umas coisinhas? O porco laqueado com confit de gengibre? Não sei, tartar de atum, umas garras de lagosta, os bolinhos de camarão e o foie gras, para começar”), martínis de maçã, uma acompanhante que deve ser modelo da Victoria’s Secret, festas em casa onde rola de tudo, carros esporte, ternos de corte ultramoderno, cocaína e, por objetivo, “o céu é o limite”: “Um milhão de dólares não é grande coisa. Sabe o que é grande?… Um bilhão de dólares.” Consumindo coquetéis num glamoroso clube noturno, Parker deixa Zuckerberg atarantado com os vislumbres da vida que tem à sua espera depois de chegar ao primeiro bilhão. Fincher mantém a pulsante música de fundo euro-house no mesmo volume que teria na vida real: os atores precisam praticamente gritar para serem ouvidos. Tal como muitos outros nerds antes dele, Zuckerberg fica tão animado com a impressão de que está no paraíso que não vê que, na verdade, chegou ao inferno.

A obsessão da Geração Facebook com esse “estilo de vida de celebridade” é mais que familiar. É uma coisa constrangedora, que dá pena e reconhecemos de imediato. Mas será que Zuckerberg, o Zuckerberg da vida real, também não seria capaz de reconhecê-lo? Serão realmente essas suas motivações, suas obsessões? Não – e o filme sabe disso.

 

Se não é o dinheiro e não são as garotas, qual é afinal sua motivação? No caso de Zuckerberg, estamos diante de um autêntico mistério americano. Que talvez nem seja tão misterioso assim, e ele só esteja insistindo numa aposta a longo prazo, evitando realizar os lucros antes da hora: não 1 bilhão de dólares, mas cem bilhões de dólares. Ou será possível ainda que ele simplesmente adore programação? Os autores do filme devem ter levado essa hipótese em conta, mas seu dilema é patente: como poderiam transmitir o prazer de programar – se é que esse prazer existe – de um modo ao mesmo tempo cinematográfico e compreensível? É mais que notório que o cinema deixa a desejar quando se trata de mostrar os prazeres e os rigores da criação artística, mesmo quando conhecemos bem a forma de expressão.

A criação de programas de computador representa um tipo de problema totalmente novo. Fincher tenta dar uma ideia da intensidade da programação em andamento (“Ele está conectado”, diz alguém a um outro para impedir que este perturbe um terceiro sujeito sentado diante de um laptop com fones que eliminam todo ruído externo); também vemos uma festa de “vodca pura com programação” no dormitório de Zuckerberg em Harvard que nos revela alguma coisa de quais sejam esses prazeres. Mas mesmo que passássemos metade do filme contemplando monitores repletos de sinais, isso não diria muita coisa para a maioria de nós. Quando vemos o filme, embora saibamos que o roteirista quer provocar nossa repulsa, não dá para não sentir certa onda de orgulho por essa geração 2.0. Ela passou dez anos sendo criticada por não ter produzido o tipo certo de artes plásticas, literatura, música ou ação política. Entretanto, no fim das contas, os meninos mais brilhantes da geração vinham desenvolvendo outra coisa absolutamente extraordinária: a criação de todo um mundo.

Os criadores de mundos, de redes sociais, partem sempre de uma mesma pergunta: como eu consigo isso? Essa questão Zuckerberg responde em mais ou menos três semanas. A outra questão, a questão de ordem ética, só lhe ocorreria mais tarde: Por quê? Por que o Facebook? Por que nesse formato? Por que dessa maneira, e não de outra? O que mais chama a atenção no Zuckerberg real, tanto em vídeo quanto por escrito, é a relativa banalidade do que ele diz quanto às razões da existência do Facebook. Ele usa as palavras “conectar” e “conexão” como um crente usa o nome de Jesus, algo intrinsecamente sagrado. “A ideia é que através do site as pessoas entrem em conexão umas com as outras e compartilhem informações com as pessoas com quem estão conectadas…” A meta é a própria conexão. A qualidade da conexão, a qualidade da informação que passa por ela, a qualidade das relações que essa conexão permite – nada disso é importante. Parece nunca lhe ter passado pela cabeça que muitos programas de rede social acabem estimulando explicitamente as pessoas a estabelecerem conexões fracas e superficiais umas com as outras, ou que isso possa não ser necessariamente positivo.

 

Zuckerberg, para dizer o mínimo, se mostra pouco interessado pelas questões filosóficas relacionadas à privacidade – e a própria interação social – suscitadas por seu engenhoso programa. Assistindo a entrevistas suas, me surpreendi à espera da presença de espírito, do sarcasmo contido e articulado do jovem e famoso Zuckerberg, mas então me lembrei que conhecia apenas a criação do filme. O verdadeiro Zuckerberg é muito mais parecido com seu website, em cada página do qual, num primeiro momento (2004), figurava obrigatoriamente o crédito: A Mark Zuckerberg Production. Comedido mas maçante, claro e despojado, mas sem nenhum brilho maior, desprovido de ideologia ou de afeto.

No perfil de Zuckerberg publicado pela New Yorker, lê-se que sua própria página do Facebook relaciona, entre seus interesses, o minimalismo, as revoluções e “a eliminação do desejo”. Também ficamos sabendo de sua admiração pela cultura e literatura da Grécia antiga. Talvez seja essa a grande diferença entre o Zuckerberg real e o falso: o filme o mostra inserido no mundo romano da traição e do excesso, mas o Zuckerberg de verdade talvez devesse figurar na Grécia, talvez entre os estoicos (“eliminação do desejo”?). Temos uma pista nas fisionomias comparadas dos dois Zuckerbergs: o real (especialmente de perfil) é uma escultura grega, nobre, mas sem traços distintivos, um pouco como o Doríforo de Policleto (só o rosto, fique bem claro – discordando dos cânones do escultor grego, seu corpo certamente não é sete vezes maior que a cabeça). O falso Mark tem um ar romano, com todos os detalhes faciais bem definidos. Zuckerberg, com sua relação estável, sua casa alugada e sua recusa em se mostrar irritado diante das câmeras de tevê, mesmo quando tratado com extrema grosseria (nesses casos, limita-se a suar), tem algo da aparência de um adolescente estoico. E, evidentemente, se você elimina o desejo, não tem mais nada a esconder, não é?

 

É  desse tipo de rapaz que estamos falando, o tipo que jamais transaria com uma fã no banheiro de um bar – como acontece no filme – ou trocaria sua namorada com doutorado por uma modelo da Victoria’s Secret. E é esse tipo de rapaz que acha uma boa ideia reduzir a privacidade das pessoas. O que chama a atenção na visão de uma internet aberta segundo Zuckerberg é a passividade de que ela precisa para funcionar. E como os usuários do Facebook descobriram quando o site mudou seus padrões de privacidade, permitindo que mais coisas se tornassem públicas, com a consequência de que alguma tia do leitor ou leitora podia descobrir de um dia para o outro que ele ou ela entrou para o grupo Nação Gay terça-feira passada. Muitos jovens homossexuais deixaram de se apresentar como gays, os frequentadores de festinhas de embalo retiraram suas fotos do ar, os incendiários políticos baixaram o facho. Na vida real, podemos ser qualquer dessas coisas em nossos próprios termos, do modo que quisermos e com quem nos der na telha.

No entanto, num dado momento especialmente revelador, o Facebook deixou de levar esse fato em conta. Ou então se cansou de esperar que mudássemos todos do jeito que, segundo acredita, todos deveriam. Sobre a questão da privacidade, Zuckerberg informou ao mundo: “A norma social não passa de uma coisa que muda ao longo do tempo.” Naquela ocasião, o mundo respondeu protestando em voz bem alta, o que fez o Facebook responder com a criação da aba “grupos”, uma mudança nas regras do site que permite a cada um distribuir seus amigos em diversas “facções”, algumas das quais têm acesso maior ou menor ao nosso perfil.

Como a ideia dos “grupos” irá funcionar quando entrar no ar o “Facebook Connect”, ainda não se sabe. O Facebook Connect é “o próximo passo da plataforma Facebook”, em que “os usuários terão a ‘possibilidade’ de ‘conectar’ sua identidade do Facebook a qualquer site”. Nessa internet aberta, apresentaremos sempre nossas verdadeiras identidades enquanto navegamos. Esse conceito parece ter vantagens imediatas para um estoico: irá pôr fim aos pronunciamentos biliosos sem assinatura, às perorações incendiárias: se nosso nome e nossa rede social nos acompanham por todo o mundo virtual para além do Facebook, cada um de nós precisará lançar mão de uma certa compostura, assim como todos os circunstantes. Por outro lado, também levaremos para todo lado a lista das coisas de que gostamos ou não, nossas preferências e nossas escolhas, todas associadas aos nossos nomes. A partir disso irão tentar vender coisas para nós.

Talvez tudo acabe transformado numa versão apenas intensificada da internet em que eu já vivo, onde anúncios de serviços dentários me perseguem ceca e meca, e toda hora sou instada a comprar meus próprios livros. Ou talvez toda a internet fique simplesmente parecida com o Facebook: falsamente alegre, falsamente amistosa, voltada principalmente para a autopromoção e engenhosamente dissimulada. Por todos esses motivos, deixei o Facebook cerca de dois meses depois de entrar. Como costuma ser o caso de tudo que vicia profundamente, largar foi muitíssimo mais difícil que começar. Eu mudava de ideia a cada dia: o Facebook continua a ser a maior distração do trabalho que eu já conheci, o que me fazia adorar frequentá-lo. E acho que é por isso que tanta gente adora o programa. Outras técnicas de fuga do trabalho são intrinsecamente onerosas e não fazem o tempo passar com a mesma velocidade: fumar, comer, telefonar para as pessoas. Com o Facebook, horas, tardes, dias inteiros passavam sem que eu me desse conta.

Quando finalmente decidi dar um basta definitivo nisso tudo, me vi às voltas com a pergunta que acaba inquietando todo mundo: será que quem sai é realmente removido do Facebook, de uma vez por todas? Numa entrevista ao programa The Today Show, o apresentador Matt Lauer fez a mesma pergunta a Zuckerberg, mas como Lauer nunca presta atenção às respostas de ninguém, passou para a próxima depois da seguinte resposta: “É, o que acontece é que nenhuma dessas informações continua a ser compartilhada com quem segue em frente.”

Será realmente isso o melhor que se pode fazer na web? No filme, Sean Parker, durante uma de suas “maratonas de monólogo” alimentadas a cocaína, tenta definir toda uma geração: “Vivíamos no campo, fomos viver nas cidades e agora vamos viver na internet.” A essa ideia, Jaron Lanier, autor de Gadget – Você Não É um Aplicativo! e um dos visionários originais da internet, não pôde fazer nenhuma objeção profunda. Mas suas críticas ao “reducionismo nerd” da web 2.0 podem nos levar a indagar: de que tipo de vida estão falando? Certamente não da que levamos, em que 500 milhões de pessoas conectadas entre si podem decidir ver o mesmo reality show na tevê só porque seus amigos também estão assistindo. “Você já precisa ser alguém”, afirma Lanier, “antes de poder se compartilhar.” Para Zuckerberg, porém, ser alguém já é compartilhar suas preferências com todo mundo e fazer o que todos estiverem fazendo.

 

O meu palpite é o seguinte: Zuckerberg só quer ser como todo mundo. Só quer que os outros gostem dele. As pessoas 1.0 que não conseguem entender o seu gesto aparentemente tosco de relações públicas, ao doar 100 milhões de dólares para as escolas de Newark no dia exato do lançamento do filme, simplesmente estão por fora. Para nossa geração, não gostarem de nós é a pior coisa que pode acontecer. Uma coisa impossível de tolerar por um minuto que seja; nem mesmo por um só instante. Zuckerberg não precisava apenas encobrir o lançamento. Precisava abafar o acontecimento, tentar sufocá-lo. Duas semanas mais tarde, porém, foi assistir ao filme. Por quê? Porque todo mundo tinha gostado.

Quando uma pessoa se transforma numa série de dados num website como o Facebook, tudo nela fica menor: a personalidade individual, as amizades, a linguagem, a sensibilidade. De certo modo, não deixa de ser uma forma de transcendência: perdemos nosso corpo, nossos sentimentos contraditórios, nossos desejos, nossos medos – o que me faz pensar que aqueles de nós que sempre recusaram, com repulsa, o que vemos como uma ideia burguesa hiperinflada da identidade individual talvez tenham exagerado no sentido inverso: as identidades despojadas que assumimos na rede não mostram mais liberdade. São, apenas, mais controladas por alguém.

Com o Facebook, Zuckerberg parece ter tentado criar algo semelhante a uma noosfera ["a esfera constituída pela inteligência humana” – do grego noos-, "espírito, mente” – imaginada por filósofos do início do século XX], uma internet dominada por um pensamento único, um ambiente uniforme em que na verdade não importa quem a pessoa seja, contanto que continue a fazer suas “escolhas” (as quais, em última análise, se traduzem em decisões de compra).

Mesmo que a finalidade seja conquistar o afeto de mais e mais gente, tudo que qualquer indivíduo tem de singular acaba aplainado. Uma nação inteira sob um único formato. Para nós mesmos, somos pessoas especiais, o que está devidamente documentado em fotos maravilhosas. Ocasionalmente, também compramos coisas – fato que consideramos apenas incidental. No entanto, as fortunas que a publicidade fará desaguar no Facebook – se, e quando Zuckerberg conseguir convencer 500 milhões de pessoas a levarem consigo, pela internet afora, suas identidades do Facebook –, esse dinheiro nos vê sob um prisma inverso. Para os anunciantes, somos nossa capacidade de compra, anexada a algumas fotos pessoais totalmente irrelevantes.

Será possível que nos vejamos agora dessa maneira? Achei significativo que, a caminho do cinema, enquanto fazia alguns cálculos mentais elementares (a idade que eu tinha quando estava em Harvard; a idade que tenho hoje), eu tenha tido um ataque de pânico típico de pessoa 1.0. Em pouco tempo vou fazer 40 anos, logo depois 50, e um pouco mais tarde estarei morta. Comecei a suar como Zuckerberg, e meu coração enlouqueceu no peito. Precisei parar e ficar um tempo apoiada numa lata de lixo. Será que esse tipo de sentimento cabe no Facebook? Percebi – e fiquei envergonhada de ter percebido – que quando uma adolescente é assassinada, pelo menos na Inglaterra, seu mural do Facebook muitas vezes se cobre de mensagens que parecem não se ter dado conta da gravidade do que ocorreu. Que peeeena, querida! Ai que saudaaade!! Agora vc tá com os anginhos do séu. Lembrei que adorava muuuuito as suas piadas rsrsrs! PAZ! bjs.

Quando leio esses posts, costumo travar uma discussão interna: “É apenas pela pouca instrução de quem escreve. Os sentimentos são os mesmos de todos nós, só não dominam a linguagem ao ponto de exprimir melhor o que sentem.” Mas outra parte minha nutre pensamentos mais sombrios e assustadores. Dado que o mural da menina ainda está no ar, será que essas jovens na verdade acreditam que, de algum modo, a morta continua viva? E que diferença faz se, no fim das contas, todo o contato com ela sempre foi virtual?

 

Todo programa de computador pode reduzir os seres humanos, mas as gradações variam. A literatura de ficção também reduz os indivíduos – só que a má literatura reduz mais que a boa, e sempre temos a opção de escolher a boa literatura.O que Jaron Lanier diz é que a “conversão” para a internet 2.0 vai acontecer dentro de pouco tempo; está acontecendo agora; até certo ponto, já aconteceu. E o que foi “convertido”? É importante lembrar, a essa altura, que o Facebook, nossa nova e querida interface com a realidade, foi programado por um segundanista de Harvard, dominado pelas preocupações de um segundanista de Harvard. Responda: Qual é seu status de relacionamento? (Só poder haver uma resposta. Afinal, as pessoas precisam saber.) Você tem uma “vida própria”? (Prove. Adicione suas fotos.) Você gosta das coisas certas? (Faça listas. Entre as “coisas que gosta”, você pode relacionar: filmes, música, livros e tevê – mas não arquitetura, ideias ou plantas.)

Talvez eu esteja exagerando na nostalgia, sonhando com uma internet que atenda os interesses de um tipo de pessoa que não existe mais. Uma pessoa reservada, que seja um mistério para o mundo e – principalmente – para si mesma. Uma pessoa misteriosa: não há dúvida de que a ideia de pessoa está mudando, e talvez já tenha mudado. E nisso, acho que concordo com Zuckerberg: toda identidade evolui.

É bem verdade que, para Zuckerberg, as identidades evoluem por conta própria, e a tecnologia que ele e outros criaram não tem qualquer influência no processo. Mas isso ainda precisa ser devidamente debatido por filósofos e especialistas em informática. No entanto, qualquer que seja a origem dessas mudanças, acho absolutamente claro que meus alunos de hoje não se parecem em nada com a estudante que fui, ou mesmo com meus alunos de Harvard apenas sete anos atrás. No presente momento, estou analisando com meus alunos um livro chamado La Salle de Bains [no [no Brasil: O Banheiro] escritor experimental belga Jean-Philippe Toussaint – a mim, pelo menos, ele parecia experimental. O livro conta a história de um homem que resolve passar a maioria do seu tempo no banheiro, mas meus alunos acharam o romance perfeitamente realista; um retrato fiel de suas próprias identidades despojadas ou, em termos mais neutros, um análogo próximo do tédio inegável da existência urbana no século XXI.

Na cena mais famosa do livro, o protagonista sem nome, num dos poucos momentos de “ação” do romance, atira um dardo na testa da namorada. Mais tarde, no hospital, eles se reencontram com um beijo e sem nenhuma explicação. “Isso é lá entre eles”, disse um dos meus alunos, com ar perfeitamente satisfeito. Para um leitor da minha geração, os personagens de Toussaint dão a impressão inicial de não terem nenhuma vida interior – na verdade, não se trata de uma ausência, mas de uma recusa deles, e por motivos éticos. O que existe dentro de mim não é da sua conta. Para os meus alunos, O Banheiro é um romance realista.

Toussaint escreveu-o em 1985 na França, onde a filosofia parece vir antes da tecnologia; aqui, no mundo anglo-americano, corremos à frente com a tecnologia e esperamos que as ideias se ajustem por conta própria. No fim das contas, decepcionante é a ideia do Facebook. Se fosse uma interface realmente interessante, criada para acolher os jovens 2.0 que são genuinamente diferentes, podia ser um grande marco. Mas não é o que acontece. O que vemos é o mesmo velho faroeste da internet, só que domesticado para se ajustar às fantasias das almas de classe média dos habitantes dos subúrbios de classe média. E diz Jaron Lanier:

Esses programas surgiram há pouco tempo, e por isso exibem essa qualidade um pouco fortuita e fragmentária. É preciso resistir aos canais mais fáceis para os quais tentam nos conduzir. Se você se apega a um meio de expressão constituído por um software, corre o perigo de se ver enredado nas ideias descuidadas que alguém andou tendo recentemente. É preciso resistir a isso!

 

Devemos então resistir ao Facebook? Nele, tudo é reduzido à escala do seu fundador. É azul porque, por acaso, Zuckerberg sofre de um daltonismo que não distingue o verde do vermelho. “O azul é a cor mais bem definida para mim – enxergo todos os tons de azul.” Nele, existe a ação poke, de “cutucar”, porque é o mesmo gesto que alguns rapazes tímidos usam para chamar a atenção das moças que eles têm medo de abordar com palavras. Concentra-se em torno de informações triviais porque, para Mark Zuckerberg, a troca de trivialidades pessoais é o que constitui a “amizade”. Estávamos destinados a começar uma vida on-line, o que prometia ser extraordinário. Mas que tipo de vida? Contemple seu mural do Facebook de uma certa distância: de repente não começa a ficar meio ridículo que a sua vida esteja nesse formato?

A última defesa de todo viciado em Facebook é a seguinte: mas ele me permite manter contato com pessoas distantes! Só que tanto o e-mail quanto o Skype cumprem o mesmo papel, com a vantagem adicional de não obrigar ninguém a estabelecer uma interface com a mente de Mark Zuckerberg – mas sabe como é, fazer o quê.

Todo mundo sabe como é. Se alguém realmente quisesse escrever para essas pessoas distantes, ou ir visitá-las, simplesmente escrevia ou ia visitar. O que queremos, na verdade, é realizar apenas o mínimo dos mínimos, como qualquer estudante de 19 anos que preferisse fazer outra coisa, ou não fazer nada.

Na sessão em que vi o filme, toda vez que um dos personagens se referia à antiga plataforma de blogs LiveJournal (ainda bastante popular na Rússia), a plateia começava a rir. Não sei imaginar a vida sem arquivos de computador, mas sou perfeitamente capaz de imaginar um tempo em que o Facebook irá ser tão comicamente obsoleto quanto o LiveJournal. Nesse sentido, A Rede Social não é um retrato cruel de uma pessoa real chamada “Mark Zuckerberg”. É um retrato cruel de nós mesmos: 500 milhões de seres pensantes enredados nas ideias descuidadas mais recentes de um segundanista de Harvard.

Tradução de Sergio Flaksman

Zadie Smith

Zadie Smith, escritora inglesa, é autora de Sobre a Beleza, publicado no Brasil pela Companhia das Letras

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