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Quiz show

Nas ruas de São Paulo, um festival de perguntas espantosas

Emilio Fraia
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Na sala picotada de divisórias, no 1º andar de um prédio da rua Sete de Abril, em São Paulo, a mulher se isola num compartimento com seu interrogador e confirma que sim, tem o hábito de usar desodorizadores de ar. Embaixo, nas calçadas, homens de terno e homens-placa seguem na lida, sem desconfiar que naquele cubículo está sendo escrito mais um capítulo modesto mas não por isso desprezível do capitalismo pátrio: está em marcha uma pesquisa que definirá o futuro dos rótulos da marca B de desodorizadores de ar.

“A senhora usa o desodorizador uma, duas ou mais vezes por dia?”, pergunta X, de prancheta na mão. “Só uma vez”, responde a mulher. Registrada a informação, X mostra um frasco do produto. Quer saber se ela considera a embalagem jovial. Sim, considera jovial. “É uma embalagem divertida?”, avança X. A interrogada empaca. Inclina o pescoço para um lado, para o outro, tenta avaliar o grau de divertibilidade do arranjo floral estampado no rótulo. Com certo esforço de abstração, concede: “Olha, acho que é divertida sim.”

A investigação se aprofunda. Com base numa escala de zero a dez, a mulher deve responder o quão atraente, acolhedora e coerente com a marca lhe parece a embalagem do desodorizador. Deve ainda revelar se a: “a) Definitivamente compraria este produto; b) Provavelmente compraria; c) Talvez comprasse; d) Provavelmente não compraria; ou e) Definitivamente não compraria”. (Opção b é a resposta.)

X, de 40 anos, pesquisador há dez, agradece. A mulher desocupa a cadeira e, levando a agenda que ganhou de brinde, volta para as ruas.

 

O centro de São Paulo é o lugar onde mais se pergunta no Brasil. A quantidade de pontos de interrogação no ar é verdadeiramente prodigiosa. Na rua 24 de Maio, não longe do QG do desodorizador, graves questões são levantadas a respeito da barra de cereal. O procedimento é o mesmo: o pesquisador intercepta um transeunte e o convida a subir a uma sala alugada, onde provará uma barra de cereal para emitir opiniões sobre textura e crocância do produto. O intuito é comparar a barra A com a barra B, dos concorrentes. Coco é o sabor em questão. Duzentos metros adiante, milita a turma do sabor banana com chocolate.

Y sendo as pesquisas confidenciais, os pesquisadores preferem manter o nome em sigilo precisa captar jovens “de 20 a 25 anos classe B”. Na pesquisa das barras de cereal, ganhando 8 reais por questionário respondido, Y faz em média 60 reais por dia. O valor por questionário pode chegar a 15 reais, dependendo do cliente que encomendou a pesquisa. Não é um trabalho fácil. Além de os transeuntes estarem sempre com pressa e sem paciência, certas variáveis demográficas são difíceis de cercar (a turma das barras de cereal precisou de um dia inteiro para conseguir um jovem de 20 anos classe A no centro de São Paulo).

Y tem experiência. Já trabalhou em pesquisas sobre sabão em pó, tampa de iogurte, cueca e se orgulha de ter entrevistado o empresário Antônio Ermírio de Moraes a respeito de óleos e graxas. “Uma vez”, ela conta, “pesquisei sobre vasos sanitários para saber o que as pessoas achavam da caixa acoplada. Uma mulher quebrou a unha no botão da descarga e eles decidiram repensar o design.”

De acordo com Silvia Almeida, gerente de operações do Ibope Inteligência, que pesquisa consumo, marca e opinião pública, só para entrevistas por telefone a empresa empregou cerca de 300 pessoas entre setembro e dezembro de 2008 e perguntou-se de tudo, como se não houvesse amanhã: O senhor tem perfil em algum site de relacionamento? Compra produtos em promoção? Em qual marca de sabão em pó a senhora mais confia? O Ibope Mídia, que mede audiência de rádio, jornal, televisão e internet, faz cerca de 1 240 entrevistas diariamente, em onze estados. São quase 400 mil entrevistas e milhões de perguntas por ano. Segundo Dora Câmara, diretora comercial, 20% das entrevistas são repetidas posteriormente, para identificar distorções e garantir a fidedignidade da informação coletada.

Na calçada da 24 de Maio, Y confidencia que ali perto, no número 342 da Sete de Abril, cidadãos estariam sendo submetidos a uma bateria de perguntas sobre (misteriosas) “frutas amarelas”. Mais à frente, uma jovem comanda a enquete sobre aparelhos odontológicos. A poucas quadras, na direção da Xavier de Toledo, estão perguntando sobre leite. “Tem gente aqui no Centro que sobrevive de pesquisa”, diz um entrevistador. “Só aceitam responder porque damos o copo de leite.”

Na saída da estação República do metrô, as perguntas são sobre salgadinhos (sabor queijo, presunto e cebola com salsinha). De prancheta em punho, uma entrevistadora comenta que não é novata em pesquisa de alimentos. Um de seus trabalhos anteriores foi sobre pirulitos. “Eu perguntava em que momento do dia a pessoa costumava chupar pirulito. Não é nada simples”, suspira. “É preciso técnica.”

Emilio Fraia

Emilio Fraia, jornalista e escritor, é co-autor, com Vanessa Barbara, do romance O Verão do Chibo, lançado pela Alfaguara.

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