esquina

Ra rá!

Do sambo ao judô com Vladimir

Marina Darmaros
IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL_2009

A sala está escura e vazia. Sentado numa cadeira, Vladimir Putin fixa a câmera. Severo. Firme. A seu lado, um homem. Não fosse uma singela flautinha, dir-se-ia que o ex-agente da KGB conduz um interrogatório. Seu companheiro de cena, entretanto, não é um jornalista inconveniente ou um candidato à Presidência da Ucrânia, mas o mestre e fundador da arte marcial do judô, Jigoro Kano. Não o próprio, que morreu em 1938, mas uma escultura de pedra do mito. Putin não divide o palco com lendas vivas.

A cena abre o DVD Vamos Aprender Judô com Vladimir Putin, peça didática lançada em outubro de 2008, na qual o primeiro-ministro russo discorre sobre a sua filosofia de luta – de cuja eficácia dá provas levando ao chão uma série de faixas-pretas propositadamente imóveis. “A escola de judô é uma aula de ajuda mútua e cooperação”, ensina. Putin é apaixonado pelo esporte, sem dúvida o exercício predileto do extenso rol de atividades varonis a que tem se dedicado publicamente. Tais façanhas incluem pescar com o peito à mostra, pilotar caminhões de corrida (Fórmula Truck) e, mais prosaicamente, caçar tigres.

Putin descobriu cedo as artes da luta. Em 1963, aos 11 anos de idade, franzino, decidiu aprender boxe como modo de se impor aos meninos da rua (e, mais tarde, do bairro, da cidade, do estado, do país, do mundo e, caso haja vida em alguma outra galáxia, também aos meninos de lá). No início a coisa não deu muito certo. “De cara me quebraram o nariz”, escreveu no livro Ot Pervogo Litsa: Razgovori s Vladimirom Putinim (Primeira Pessoa: Conversas com Vladimir Putin). Mas ele já era ele: mesmo sangrando profusamente, o rapazote Putin se recusou a seguir para o hospital. “Disse: ‘Pra quê? Vai cicatrizar sozinho.'” Cicatrizou.

Desiludido com o boxe, foi procurar meios mais eficazes de dar pancada. O ano era 1965. São Petersburgo se chamava Leningrado e o ex-presidente vivia em um apartamento comunal. Enquanto o pai trabalhava numa fazenda coletiva e a mãe numa fábrica, ele dedicava o tempo livre a dominar as técnicas do sambo, arte marcial desenvolvida pelo regime soviético, um coquetel mortal de caratê, aikidô, kung-fu, krav magá e principalmente judô.

Foi com o sambo que o briguento aprendeu a arte que ensinaria anos mais tarde no livro Uchimsia Dziudo s Vladimirom Putinim (Vamos Aprender Judô com Vladimir Putin), lançado em 1998 – o DVD é uma adaptação da obra literária. Ao longo das páginas, Putin demonstra diversas maneiras de melhor derrotar um oponente, seja por empurrão na cara, puxão de cabelo ou torção de pescoço.

O futuro presidente virou faixa-preta aos 18 anos. Aos 22, recebeu o título de mestre. Aos 24, sagrou-se campeão municipal. Como o sambo se assemelhasse tanto ao judô, Putin acabou, por tabela, se tornando mestre da modalidade. “Desde que me entendo por gente eu luto judô. Eu amo esse esporte demais”, revela, sem medo de abrir sua intimidade.

O treinamento era intenso. Toda manhã, Putin corria em volta do Khepoyarvy, “um lago enorme com uns 17 quilômetros de circunferência”. Depois, café da manhã e treino específico. Ao meio-dia, almoço, seguido de descanso e mais treino. Tamanha disciplina é enfatizada no vídeo: “Sucesso se alcança não só com exercícios físicos, mas também com uma intensa preparação moral”, avisa. “O que valorizamos no judô é a autoconfiança, a firmeza, a determinação e o respeito aos mais velhos, aos colegas de equipe e aos adversários”, declara para a câmera, olhos grudados no teleprompter.

 

O DVD foi lançado no dia em que Putin completou 56 anos. Um mês antes, quem sabe se para promover a peça, o judoca se oferecera para dar umas aulas particulares ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, que, demonstrando ter juízo, agradeceu e declinou.

A presença de Putin é escassa no vídeo que leva seu nome. Após fazer uma introdução teórica com duração de um minuto e vinte segundos, um primeiro-ministro de quimono branco desfere cinco golpes rápidos: um ippon seoi nage, um tai otoshi, um o soto gari, um harai goshi e um tomoe nage. “O título do filme é apenas um truque de marketing”, explicou na coletiva de imprensa. “Os espectadores vão aprender mesmo é com mestres japoneses e campeões russos.”

Pés descalços no tatame, Vladimir Putin se aquece na companhia de dois jovens judocas russos. Rufam tambores. Os jovens rebolam, dão cambalhotas e torcem a cabeça para todo lado. Tal vigor, se intui, será demolido pelo samurai solitário que, muito manso, amarra o quimono com uma faixa preta na qual se lê “Vladimir Putin” em letras vermelhas – caracteres ocidentais, não cirílicos. Tambores cedem vez à flauta. Agarrando o oponente pela lapela e pela manga, Putin lhe passa uma rasteira fulminante. Trata-se de um de seus golpes prediletos, o tai otoshi clássico. O opositor, que minutos antes era a vitalidade inquebrantável da juventude em pessoa, tomba estrondosamente no chão.

Aparece na tela uma vinheta com o título do próximo golpe. A flautinha segue ativa. Putin está prestes a mostrar outro movimento que muito lhe apetece: a técnica de mão seoi nage. O golpe consiste em desequilibrar o adversário para, como um relâmpago, fazer das próprias costas uma alavanca que lança o desavisado nas alturas – com o inevitável desfecho de mais uma queda estrepitosa.

Certa vez, num campeonato em Leningrado, Putin aplicou o seoi nage em Vladimir Kjullenen, então campeão mundial de sambo. “O golpe foi tão bonito, tinha uma tal amplitude, que a luta deveria ter sido encerrada ali mesmo”, ele lembra, quase com poesia. “Mas como Kjullenen era o campeão, isso seria considerado uma indecência.” Putin beijou a lona.

Sabe-se que nunca é tarde para tomar tento. Se vivos estiverem, Vladimir Kjullenen e o menino que socou o nariz de Putin há meio século certamente valorizam a discrição, mas, se pudessem mudar de nome (ou de país), mal não faria.

Marina Darmaros

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