carta de Dubai

Rachaduras no paraíso

Com a crise, aparecem as primeiras fissuras e as paisagens menos cintilantes do templo do consumismo global

Johann Hari
FOTO: LAYINGWITHLIGHTDUBAI

A imagem sorridente do xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o soberano de Dubai, aparece a cada dois arranha-céus do emirado. Ele vendeu Dubai ao mundo como a cidade das Mil e Uma Luzes, uma Shangri-lá do Oriente Médio protegida das tempestades de areia que assolam a região. Sua imagem domina a silhueta que imita a de Manhattan, radiante entre as pirâmides de vidro e os hotéis construídos em forma de moedas de ouro empilhadas. Lá está ele, no prédio mais alto do mundo – uma agulha fina, invadindo o céu como nenhuma outra construção humana na história.

É abril de 2009 e alguma coisa está mudando no sorriso do xeque Mohammed. Entre os guindastes espalhados por toda parte, muitos estão paralisados, como que perdidos no tempo, e há inúmeros canteiros de obras inacabados, num abandono completo. Nas construções mais arrojadas – como o hotel Atlantis, o pantagruélico castelo cor-de-rosa erguido numa ilha artificial em mil dias, ao custo de 1,5 bilhão de dólares – o teto está caindo aos pedaços. Nessa Terra do Nunca edificada num extremo do mundo, as rachaduras começam a aparecer. Dubai é uma metáfora viva do mundo globalizado neoliberal que pode estar desmoronando.

A canadense Karen Andrews não consegue falar. Toda vez que começa a contar sua história, abaixa a cabeça. Ela é magra e forte, com o esplendor embotado de quem já foi rico. Suas roupas estão amarrotadas como a testa, enrugada. Encontro-a no estacionamento de um dos hotéis mais chiques de Dubai, dentro de um Range Rover. Karen dorme naquele carro e naquela garagem há meses, graças à caridade dos funcionários bengaleses do estacionamento, que não tiveram coragem de expulsá-la.

Ela chegou a Dubai quatro anos atrás. O marido tinha conseguido um bom emprego numa multinacional. “Quando ele mencionou Dubai, logo rebati: ‘Não vou me vestir de preto nem parar de beber.’ Mas ele me pediu uma chance”, conta Karen.

As apreensões da canadense desapareceram assim que o casal aterrissou no emirado, em 2005. “Parecia uma Disneylândia para adultos, com o xeque Mohammed no papel de Mickey”, relembra. “A vida era fantástica. Tínhamos um apartamento enorme, maravilhoso, um monte de serviçais, tudo livre de impostos. A vida era uma festa.” Não tardou muito e Daniel, o marido de Karen, comprou dois imóveis.

Mas, pela primeira vez na vida, ele se embaralhou nas finanças. O casal acabou se endividando e Karen começou a estranhar as confusões financeiras do marido. Passado um ano, descobriu que Daniel tinha um tumor maligno no cérebro.

As dívidas cresceram. “Até então, eu não sabia nada a respeito das leis de Dubai. Com todas essas grandes corporações se instalando no emirado, imaginei que o sistema local deveria ser parecido com o do Canadá, ou o de qualquer outra democracia liberal.” Ninguém lhe havia contado que em Dubai não existe o conceito de falência. Quem se endividar e não tiver como pagar vai para a cadeia.

“Quando soubemos disso, sentei com Daniel e constatamos que precisávamos ir embora daqui”, prossegue Karen. O marido sabia que, se pedisse demissão, poderia contar com uma indenização cujo valor bastaria para pagar as dívidas. Mas ele acabou recebendo menos do que o previsto e a dívida não foi saldada. Em Dubai, quando um funcionário larga o emprego, o empregador tem o dever de comunicar o fato ao seu banco. Caso o funcionário tenha alguma dívida em aberto, não coberta pelo seu saldo bancário, todas as suas contas são automaticamente bloqueadas e ele fica proibido de sair do país.

“De repente, nossos cartões de crédito pararam de funcionar. Fomos despejados do nosso apartamento e não tínhamos mais nada.” Daniel foi preso no dia do despejo, Karen ficou seis dias sem conseguir falar com o marido, que acabou sendo condenado a seis meses de prisão diante de uma corte que só falava árabe, sem tradução. “Agora estou aqui, sem nada, aguardando que ele saia da prisão”, explica a mulher do Range Rover. Com o olhar perdido de constrangimento, ela me pergunta se posso lhe pagar o almoço.

O caso de Karen não é único. Por toda a cidade existem imigrados dormindo clandestinamente nas dunas de areia, no aeroporto ou no próprio carro. “É preciso entender que em Dubai nada é o que aparenta ser”, resume a canadense. “Você é atraído pela idéia de um lugar moderno, mas por trás dessa fachada o que temos é uma ditadura medieval.”

 

Trinta anos atrás, quase toda a área onde se ergue hoje o emirado de Dubai era deserta, habitada somente por cactos, plantas e escorpiões. Tudo começou em meados do século XVIII, com a fundação de uma pequena vila ao sul do Golfo Pérsico que atraiu mergulhadores em busca de pérolas. Em pouco tempo, a população foi se tornando mais cosmopolita, com viajantes vindos da Pérsia, do subcontinente indiano e de outros países árabes. Todos na esperança de enriquecer. Batizaram a vila com o nome de um gafanhoto predador que reinava na região, daba. Mas não tardou para a cidade ser dominada pelas Forças Armadas do Império Britânico, e assim permaneceu até 1971. Quando os ingleses bateram em retirada, Dubai se juntou a seis pequenos estados vizinhos e formaram uma federação, os Emirados Árabes Unidos.

A retirada britânica coincidiu com a descoberta de generosos lençóis de petróleo na região, e os xeques agora soberanos passaram a viver um dilema singular. Eles eram, em grande parte, nômades analfabetos que haviam passado a vida perambulando pelo deserto em cima de camelos. Agora tinham um pote de ouro nas mãos. O que fazer?

Comparado ao vizinho emirado de Abu Dhabi, Dubai tinha pouco petróleo. Por isso, o xeque Mohammed Al Maktoum decidiu investir na construção de algo que durasse. Israel não se gabava de ter feito o deserto florescer? Al Maktoum decidiu fazer o deserto enriquecer. Planejou construir uma cidade que se tornasse o centro do turismo e de serviços financeiros, atraindo dinheiro e profissionais do mundo inteiro. Convidou o mundo a seu paraíso fiscal – e o mundo veio, esmagando os habitantes locais, que agora representam só 5% da população total de Dubai. Em apenas três décadas uma cidade inteira surgiu do nada. Um salto do século XVIII para o século XXI em apenas uma geração.

 

Existem três Dubais diferentes, cada um girando em torno dos outros dois. Há os expatriados ocidentais, como Karen, os árabes nativos ou dubaienses, liderados pelo xeque Mohammed, e a mão de obra estrangeira, que construiu a cidade e ali ficou presa. Essa última permanece invisível, apesar de estar por toda parte, enfiada em uniformes azuis e seguindo um regime de trabalho forçado.

Todas as noites, os milhares de peões estrangeiros que constroem Dubai são levados dos canteiros de obras para uma imensidão de concreto, em pleno deserto, distante uma hora da cidade. Ali permanecem isolados. Até poucos anos atrás, eles eram transportados em caminhões de gado, mas diante do desagrado dos expatriados agora são levados em ônibus fechados, que funcionam como estufas no calor do deserto. Todos suam como esponjas sendo espremidas.

Sonapur é uma cidade-dormitório de quilômetros e quilômetros de prédios de concreto, todos idênticos. Em hindi o nome significa “cidade do ouro”. São cerca de 300 mil homens que moram amontoados. No primeiro acampamento que visitei, logo fui cercado por moradores, ávidos para desabafar com quem se dispusesse a ouvi-los. O lugar fede a esgoto e suor.

Sahinal Monir é um jovem magro, de 24 anos, vindo de Bangladesh. Quatro anos atrás, um agenciador de mão de obra apareceu em seu vilarejo, anunciando que havia um lugar, Dubai, em que se poderia ganhar 40 mil takas (o equivalente a 640 dólares) por mês, trabalhando das 9 às 17 horas no ramo da construção. Com direito a acomodação decente, boa comida e outros cuidados. Bastava pagar adiantado o equivalente a 3 700 dólares pelo visto de trabalho – a despesa seria facilmente recuperada com os seis primeiros meses de serviço. Sahinal vendeu o pedaço de terra da família, contraiu um empréstimo junto a um comerciante local e seguiu rumo ao paraíso.

Assim que desembarcou no aeroporto de Dubai, teve o passaporte confiscado pela empresa construtora. Nunca mais viu o documento. Comunicaram-lhe secamente que trabalharia catorze horas por dia no calor do deserto (os turistas ocidentais recebem a recomendação de não ficarem nem cinco minutos expostos ao sol, a temperaturas que podem chegar a 55 ºC) – por menos de um quarto do salário prometido. Se não estivesse satisfeito, acrescentou o contratante, poderia voltar para casa. “Mas e o meu passaporte? Nem tenho dinheiro para a passagem de volta”, contestou Sahinal. “Então é melhor trabalhar”, foi a resposta.

Sahinal ficou em pânico. Sua família – filho, filha, mulher e pais – esperava pela remessa de dinheiro. Só que ele teria de trabalhar dois anos para pagar o custo da viagem – e ganhar menos do que em Bangladesh.

Seu dormitório é pequeno. Beliches de três andares são compartilhados com outros onze homens. Todos os seus pertences estão empilhados no beliche: três camisas, uma calça extra e um celular. O quarto cheira mal porque os lavatórios do acampamento – arcaicos buracos no chão – estão entupidos com excrementos e cobertos por nuvens de mosquitos. Não há ar condicionado nem ventilador. “A gente passa a noite suando e se coçando”, disse. No alto verão, dorme-se no chão, no telhado, em qualquer lugar onde se possa pegar uma pequena brisa.

E o trabalho? “É o pior do mundo”, diz Sahinal. “Temos que carregar tijolos e blocos de cimento de 50 quilos num calor infernal. Você sua tanto que fica sem urinar por dias ou semanas. É como se todo o líquido saísse pela pele. Ficamos tontos e doentes, mas só podemos parar por uma hora, à tarde. Se faltarmos ao trabalho por motivo de doença, somos descontados, e ficaremos presos aqui por mais tempo.”

Sahinal trabalha no 67º andar de uma reluzente torre em construção, ainda sem nome. Nos quatro anos de sua estadia, jamais chegou a ver a Dubai sedutora dos folhetos, apenas os andares que constrói. Pergunto se sente raiva. Ele fica calado por um bom tempo. “Aqui ninguém manifesta sua raiva”, disse. “Se você a mostra, te mandam para a prisão e te deportam.”

Indago se o grupo se arrepende de ter vindo. Todos olham para baixo. Depois de um tempo, alguém rompe o silêncio: “Sinto saudade do meu país, da minha família, da minha terra. Em Bangladesh, a terra dá frutos. Aqui, não dá para plantar nada. Só tem petróleo e obras.”

Com a atual recessão, dezenas de acampamentos ficaram sem energia elétrica, e há quem não receba salário há meses. Muitas empresas saíram de Dubai sem sequer devolver os passaportes aos contratados. Se Sahinal sumir em Dubai, talvez ninguém note. Um cidadão inglês que trabalhou no setor de construção me disse: “Ocorrem inúmeros suicídios nos acampamentos e nas obras, mas ninguém quer tocar no assunto. Dizem que foi ‘acidente’.”

Um estudo da ONG Human Rights Watch revelou que existe um ocultamento da real extensão das mortes causadas pela exposição ao calor, excesso de trabalho e os suicídios. O consulado da Índia registrou 971 mortes de patrícios somente em 2005, mas depois da divulgação desse número a contagem parou de ser feita.

Na distância, a cintilante silhueta de Dubai, que Sahinal ajuda a construir, se ergue indiferente.

 

Os reluzentes centros comerciais de mármore se espalham por toda a cidade. O calor é tão grande que não se vê ninguém nas calçadas. No interior dessas catedrais, o tempo parece não passar. O dia tem sempre a mesma luminosidade artificial, o mesmo piso brilhante, as mesmas grifes de luxo globais. Neles, Dubai se reduz à sua essência: compras e mais compras. Nos shoppings mais caros, onde circulo quase sozinho, me dizem que os negócios vão bem, obrigado. Extraoficialmente, os vendedores parecem assustados. Passo por uma exposição de chapéus que promove o Grande Prêmio de Turfe de 2009, com peças que custam 1 600 dólares. Entre um e outro shopping, não há nada além de asfalto. Todas as ruas têm no mínimo quatro pistas. Andar a pé é coisa de suicida.

Como se sente o cidadão local diante da ocupação de seu país por estrangeiros? Ao contrário do grupo de expatriados com dinheiro e da classe de trabalhadores escravos, não é prudente sair perguntando essas coisas para dubaienses. Quando abordados, as mulheres se calam e os homens se ofendem, respondendo secamente que está tudo bem. Resolvi, então, navegar por blogs na internet e fiz contato com vários jovens dos Emirados Árabes que me pareceram retratar o pensamento local. Marcamos encontro num shopping center, é claro.

Ahmed Al Atar é um rapaz charmoso de 23 anos, barba aparada, túnica branca feita sob medida e óculos finos retangulares. Fala um inglês impecável e conhece Londres, Los Angeles e Paris melhor do que muitos ocidentais. Reclinado numa cadeira de um café Starbucks, Ahmed proclama: “Esse é o melhor lugar do mundo para um jovem! O governo paga seus estudos até o doutorado. Você ganha um apartamento quando se casa e seu plano de saúde é gratuito. Você não paga sequer a sua conta de telefone. Quase todo mundo aqui tem empregada, babá e motorista. E não pagamos impostos. Você mesmo não gostaria de ter nascido aqui?”

Ele se inclina para frente e prossegue: “Entenda: meu avô acordava cedo todo dia e disputava o primeiro lugar na fila do poço. Quando o poço secava, a água era distribuída por camelos. Todos viviam com fome, tinham sede e buscavam trabalho. Meu avô mancou a vida inteira porque não havia tratamento médico quando ele quebrou a perna. Agora, olhe só para nós!”

A maioria dos cidadãos locais, como Ahmed, é funcionário público. Por isso, são poupados da recessão. “Os empregos aqui são seguros”, disse ele. “Você só é demitido se fizer alguma besteira muito grande.” Ahmed admite que a grande quantidade de expatriados possa, às vezes, “estragar” a paisagem, “mas consideramos a sua vinda como o preço a pagar pelo desenvolvimento. Não teríamos conseguido de outra forma. Ninguém quer voltar aos tempos de deserto. Éramos como um país africano e agora temos uma renda per capita de 120 mil dólares por ano. Do que reclamar?”.

O jovem também não vê problemas na falta de liberdade política. “É muito difícil encontrar um cidadão daqui que não apóie o xeque Mohammed. Ele é um excelente líder. Garanto que minha vida é muito parecida com a sua”, conclui sorrindo, ao pedir outro caffè latte.

 

No estiloso Emirates Tower Hotel, encontro Sultan Al Qassemi, de 31 anos, colunista da imprensa e colecionador de arte com fama de liberal e contestatório. Sultan se veste com roupas ocidentais – jeans e camiseta Ralph Lauren – e fala absurdamente rápido, arrolando argumentos.

“As pessoas daqui estão virando bebês obesos e preguiçosos”, critica. “Essa história de babá foi longe demais. Ninguém faz mais nada sozinho. Por que ninguém trabalha no setor privado? Por que os pais não podem tomar conta dos próprios filhos?”

Mas quando tento falar da mão de obra escrava que construiu Dubai, ele se irrita. “O resto do mundo deveria nos dar mais crédito”, sustenta Sultan, “pois somos os seres mais tolerantes do planeta. Dubai é a única cidade realmente internacional no mundo. Qualquer um que vem aqui é tratado com respeito.”

Os desolados acampamentos de Sonapur ficam a apenas alguns quilômetros dali. Sultan não gosta do tema. “E os mexicanos não são maltratados em Nova York? Quanto tempo demorou para os ingleses tratarem bem as pessoas? Eu também poderia ir a Londres, escrever sobre os desabrigados de Oxford Street e manchar a imagem da sua cidade! Os trabalhadores aqui podem ir embora quando quiserem, sejam indianos ou asiáticos!”

Não é bem assim, contesto. O passaporte deles é confiscado e o salário, retido. “É lamentável que isso ocorra, e os responsáveis deveriam ser punidos. Mas os trabalhadores sempre podem recorrer a suas embaixadas.” Pergunto por que Dubai proíbe os trabalhadores de fazer greve contra os maus empregadores. “Graças a Deus que proibimos!”, responde, exaltado. “Somos contra greves. Não queremos ser como a França. Imagine um país em que os trabalhadores podem parar quando quiserem!”

Ao arrematar a discussão Sultan abranda o tom, sorri e diz: “Lendo as críticas dos jornalistas ocidentais, me pergunto se vocês não percebem que estão dando um tiro no próprio pé. O Oriente Médio será muito mais perigoso se Dubai não der certo. Não exportamos petróleo, exportamos esperança. Os pobres do Egito, da Líbia ou do Irã crescem dizendo que querem ir para Dubai. Estamos mostrando como ser um país muçulmano moderno. Não temos fundamentalistas entre nós. Os europeus não deveriam se alegrar com as nossas derrotas. Sabe o que vai acontecer se esse modelo fracassar? Dubai vai virar um Irã, um país islâmico.”

Procuro outra vertente das minorias – o pequeno grupo de dissidentes que tenta minar as leis abusivas dos xeques – e marco encontro com o inimigo público número um do regime. Mohammed Al Mansoori, de túnica branca e rosto forte, dá o tom a seu discurso: “Aqui não há liberdade. A família real acha que é dona do país e que todos somos seus servos.”

Mohammed nasceu em Dubai e aprendeu com o pai pescador a nunca seguir o rebanho, a ter opiniões próprias. No início do desenvolvimento acelerado da cidade, trabalhava como advogado. Foi diretor da Associação de Juristas, uma organização criada para pressionar o Estado a aprovar leis condizentes com a legislação internacional de direitos humanos. Até que um dia ultrapassou os limites de tolerância do xeque. Inconformado com o que chama de “sistema de escravidão”, deu entrevistas para a Human Rights Watch e a BBC.

Não tardou a receber ameaças da polícia: se não se calasse, perderia o emprego e seus filhos ficariam proibidos de trabalhar. Mohammed acabou perdendo sua licença de advogado e confiscaram-lhe o passaporte. “Entrei para a lista negra do regime, assim como meus filhos”, disse. “Os jornais estão proibidos de me citar.”

Na década de 1930, na última vez em que Dubai passou por uma depressão econômica, houve um simulacro de democracia no emirado. Os comerciantes se uniram contra o xeque Said bin Maktum Al Maktum, soberano da época, e exigiram que lhes fosse dado o controle das finanças do Estado. A experiência durou alguns anos, mas o xeque varreu-os do mapa com o apoio dos ingleses.

Hoje, o emirado transformou-se numa “creditópolis” sustentada por contas que não fecham, com 107% de seu PIB comprometidos com dívidas a pagar. Não fosse o socorro que recebe do vizinho Abu Dhabi, cujo solo esbanja petróleo, Dubai já teria falido. “Agora é Abu Dhabi que dita o ritmo – e eles são muito mais conservadores e fechados do que nós”, explica Mohammed. “Nossa liberdade de expressão tende a ficar ainda mais restrita”, acredita ele. De fato, já existe uma lei de imprensa que proíbe os veículos de comunicação de divulgar qualquer notícia que possa “prejudicar a imagem ou a economia” de Dubai.

O fundamentalismo islâmico é visto como outra ameaça. Todo imã, ou líder religioso, passou a ser nomeado pelo governo e seus sermões são monitorados para garantir o tom moderado. O próprio Mohammed se mostra preocupado: “Ainda não temos um fundamentalismo islâmico ativo, mas se não tivermos meios de nos expressar, ele poderá emergir. Uma população silenciada vai calando, calando, até o dia em que explode.”

Existe um grupo para o qual a retórica de liberdade e liberação repentina parece verdadeira – justamente o grupo que o governo mais reluta em liberar: os gays. Num famoso hotel internacional, entro numa boate gay, possivelmente a única da península arábica. Lá dentro, uma coleção de braços fortes e camisas sem manga se movimenta ao som de Kylie Minogue, com muito ecstasy e badalação. Igualzinho ao Soho. “Dubai é o melhor lugar do mundo muçulmano para os gays”, diz um jovem árabe de 25 anos, cabelos espetados, abraçado ao parceiro. “Estamos vivos. Podemos nos reunir. A maioria dos gays árabes não pode fazer isso.”

Ser gay é considerado crime em Dubai, com pena de dez anos de reclusão, mas os endereços dos espaços clandestinos circulam livremente na internet, e a frequência é alta. “Eles podem fechar a boate, mas não vai adiantar, vão apenas nos dispersar”, diz um frequentador. Saleh, um soldado raso do Exército da Arábia Saudita, veio a Dubai para assistir a um show do Coldplay. “Na Arábia Saudita é difícil ser adolescente heterossexual”, explica. “Devido ao confinamento das garotas a gente acaba tendo relações homossexuais. No fundo, todos os gays árabes querem morar em Dubai.”

 

Os guias turísticos costumam se referir ao emirado como multirracial e multicultural. Percebo, contudo, que cada grupo tende a permanecer em seu próprio enclave étnico, tornando-se uma caricatura de si mesmo. Basta adentrar o Double Decker, um bar para expatriados ingleses. Na entrada, a inevitável cabine de telefone vermelha e placas de trânsito londrinas. O interior de madeira sugere um clube colonial dos tempos do Império Britânico, mesclado a discoteca dos anos 80 com luzes estroboscópicas e música estridente.

Caminho em direção a duas senhoras de aproximadamente 60 anos que bebericam. “Fica-se em Dubai pelo estilo de vida”, explica uma delas, convidando-me para me juntar à mesa e à bebida. Todos os expatriados ocidentais falam em estilo de vida, mas quando perguntamos o que é isso, a resposta é vaga. Ann Wark, uma das inglesas, tenta precisar: “Aqui, saímos toda noite, o que jamais faríamos no nosso país. Encontramos pessoas diferentes o tempo todo. Tempo livre é o que não falta porque temos empregadas e serviçais para todo tipo de trabalho. Vivemos de festa em festa.”

As duas moram em Dubai há vinte anos e explicam como a cidade funciona. “Existe uma hierarquia”, diz Ann. “No topo estão os árabes dos emirados, seguidos pelos ingleses e outros ocidentais. Mais abaixo imagino que venham os filipinos, por serem mais espertos que os indianos. Por último estão os indianos e todo o resto.”

Ambas admitem que jamais conversaram com quem está no topo da pirâmide. Nunca? “Não. Os árabes dos emirados são muito reservados.”

Mais tarde, num bar de hotel, conversei com uma americana que trabalha na indústria de cosméticos e mantém distância dos expatriados típicos. “Quem não conseguiu ter sucesso em seu país vem para Dubai. Nunca vi tanta gente incompetente, ocupando cargos tão altos, em nenhum outro lugar do mundo”, diz ela. “Tornam o lugar racista. A filipina que trabalhava para mim ganhava um quarto do salário de uma funcionária européia que exercia a mesma função. Quem trabalha de fato não ganha quase nada, enquanto esses gerentes de meia tigela ganham 63 600 dólares por mês.”

Com exceção dessa americana, os expatriados ocidentais com quem conversei têm um ponto em comum: a felicidade de ter à disposição uma mordomia inimaginável em seus países. Em Dubai, ao contratar uma empregada, você passa a exercer um poder quase absoluto sobre ela. Isso inclui reter seu passaporte, pagá-la quando quiser, decidir se ela terá direito a férias, e quando. Como a maioria dos empregados não fala árabe, as chances de escaparem dessa camisa de força são escassas.

Existe um único albergue feminino, e ele está repleto de domésticas que tentaram a fuga. Mela Matari, uma etíope de 25 anos e sorriso inseguro, me conta sua história – tão semelhante à de milhares de outras. Mela ouvira falar de Dubai por um agenciador, largou a filha de 4 anos e veio fazer seu pé-de-meia. “Fui trabalhar com uma família australiana de quatro filhos. Das seis da manhã à uma da madrugada, todos os dias, sem dia de folga. Eles não me pagavam: diziam que iam acertar tudo no final de dois anos. O que eu podia fazer? Eu não conhecia ninguém aqui. Fiquei apavorada.”

Chegou o dia em que Mela, depois de uma sessão de maus-tratos, largou tudo, saiu correndo para a rua e perguntou, num inglês sofrível, onde era o consulado da Etiópia. Lá chegando, foi informada que precisava retornar à casa da patroa australiana para buscar o passaporte. “Não dava”, conta apenas. Mela está no albergue há seis meses. Falou com a filha duas vezes. “Perdi meu país, perdi minha filha, perdi tudo”, constata.

 

O arquipélago artificial The World, ainda em construção, que forma o desenho do mapa-múndi, está vazio. Foi abandonado. De binóculo, consigo vislumbrar uma ilha autônoma, infértil na brisa salina, que seria a “Inglaterra”. Foi aqui que os empreiteiros se propuseram a reconstruir o mundo. Criaram ilhas artificiais na forma das massas terrestres do planeta, com planos de vender cada “continente” como terreno para futuras edificações. Havia rumores de que o casal Beckham compraria a “Inglaterra”. Mas quem trabalha próximo ao megaempreendimento conta que há meses não vê movimento na obra. “O mundo acabou”, diz um sul-africano, aproveitando o trocadilho.

Por toda a cidade, projetos delirantes que antes estavam “em obras” agora estão em ruínas. Entre eles, uma praia com ar-condicionado e um sistema de resfriamento da areia para os usuários não queimarem os pés no longo caminho entre a toalha e o mar.

Os projetos concluídos um pouco antes da crise estão vazios e malconservados. Quem não se lembra da inauguração do hotel Atlantis, no inverno passado, cujo festão consumiu 20 milhões de dólares e atraiu celebridades como Robert De Niro? Localizado numa ilha artificial em forma de palmeira, o hotel hoje parece um imenso sorriso banguela. O saguão central é uma cúpula monumental coberta com bolas cintilantes, sustentada por oito palmeiras de concreto. Bem no meio há uma estrutura de vidro reluzente em forma de intestino. Mas chove lá dentro: a água vaza do telhado e os azulejos estão caindo.

Uma sul-africana do departamento de relações públicas me mostra as suítes mais cobiçadas do hotel, explicando ser esse “o lugar mais luxuoso do mundo”. Passamos por lojas que vendem anéis de diamante por 38 milhões de dólares. Uma das atrações do Atlantis são seus mega-aquários de tubarões, que nadam entre castelos e submarinos artificiais, submersos. O hotel tem mais de 1 500 suítes, todas com vista para o mar. Na suíte Netuno, de três andares, os tubarões podem observar o hóspede deitado na cama. Coisas de Dubai.

Hospedado no hotel mais classudo da cidade, o Park Hyatt, sou o único cliente no restaurante. Um dos atendentes me diz ao pé do ouvido: “Antes isso aqui fervia. Agora não vem quase ninguém.” Naquele lugar enorme, me sinto como Jack Nicholson no filme O Iluminado, o último homem numa casa abandonada e mal-assombrada.

O hotel mais celebrado do emirado – o grande ícone de Dubai – continua sendo o Burj Al Arab, construído à beira-mar em forma de gigantesco veleiro de vidro. No saguão, converso com um casal que mora e trabalha em Londres e visita a cidade há dez anos. Eles adoram. “Tudo é uma surpresa”, contam. “Na última viagem, no início das férias, nossa janela dava para o mar. Mas antes de partirmos, uma ilha inteira já havia sido erguida à nossa frente.”

Dubai não é apenas uma cidade vivendo além de seus recursos financeiros. O emirado também vive além de seus recursos ecológicos. Vemos gramados bem cuidados, com irrigadores espirrando água para todos os lados, turistas fazendo fila para nadar com golfinhos, pistas de esqui com neve de verdade construídas no interior de um shopping center, numa espécie de freezer do tamanho de uma montanha. Só que estamos em pleno deserto, num lugar que não tem água. Como isso é possível?

A própria terra está tentando repelir Dubai, secando e apagando a cidade do mapa. O novo campo de golfe que leva o nome de Tiger Woods precisa de 15 milhões de litros de água por dia para irrigação. O lugar é regularmente açoitado por tempestades de areia que enevoam o céu e escondem a linha do horizonte. Quando a areia baixa, o calor aumenta, abrasando tudo o que não estiver sendo constantemente irrigado. O dr. Mohammed Raouf, diretor de meio ambiente do Gulf Research Centre, não parece muito otimista: “Estamos num deserto e tentamos ignorar isso. Pura insensatez. Não dá para desafiar o deserto.”

O xeque Maktoum construiu sua cidade-vitrine em um lugar sem água potável e sem água alguma, exceto a do mar. Ela conta com pouquíssimos reservatórios e acusa um dos índices pluviométricos mais baixos do mundo. Ou seja, Dubai bebe o mar. A água dos emirados, dessalinizada em fábricas espalhadas por todo o Golfo, é a mais cara do planeta. Segundo o dr. Raouf, caso a recessão se transforme em depressão, Dubai pode ficar desabastecida.

“Por enquanto, ainda temos reservas financeiras que pagam o transporte de água para o meio do deserto”, disse ele. “Mas se nossa renda diminuir – se, por exemplo, o mundo encontrar outra fonte de energia além do petróleo, enfrentaremos um grande problema. Seria uma catástrofe. Dubai tem água só para uma semana.” Apenas para sobreviver, um morador de Dubai necessita de três vezes mais água do que a média mundial.

O aquecimento global, acrescenta o dr. Raouf, piora ainda mais a situação. “Estamos construindo todas essas ilhas artificiais, mas se o nível do mar subir afunda tudo. Os engenheiros sempre garantem que está tudo bem, que essa possibilidade já foi prevista nos cálculos, mas não tenho tanta certeza assim.”

Procurei investigar como o governo lida com um problema ambiental que já existe – a poluição das praias. Uma americana que trabalha num dos grandes hotéis vinha denunciando a situação em vários fóruns na internet. Contatei-a para marcarmos um encontro. “Não posso falar com o senhor”, respondeu ao telefone, secamente. “Poderíamos, talvez, conversar sem que o seu nome seja citado”, ponderei. Ela desligou o telefone na minha cara.

No dia seguinte, apareço no seu escritório. “Se o senhor revelar minha identidade serei mandada embora no primeiro avião”, me adverte, antes de começarmos a caminhar pela orla. “As primeiras reclamações vieram de hóspedes que voltavam da praia. A água lhes parecia suja, e alguns contraíram doenças. Então escrevi para o ministro da Saúde e do Turismo, à espera de uma providência – e nada. Escrevi de novo e fui entregar as cartas pessoalmente. Nada.”

Os hóspedes começaram a encontrar camisinhas, absorventes íntimos e até fezes boiando no mar. O hotel contratou uma empresa especializada em analisar a qualidade da água, e foi detectada uma enorme quantidade de coliformes fecais e bactérias. “Passei a recomendar aos hóspedes que evitassem a praia, mas todo mundo ficou revoltado – afinal, eles vieram passar férias aqui para isso.”

A americana decidiu postar as informações nos fóruns virtuais de expatriados – e todos puderam entender o que estava acontecendo. Dubai havia crescido de forma tão desordenada que sua rede de esgoto não conseguia mais dar vazão. Os caminhões-tanque de coleta, obrigados a fazer fila durante três ou quatro dias nas estações de tratamento, cansavam-se de esperar e simplesmente abriam buracos no chão para jogar a água não tratada ali mesmo. Inexoravelmente, ela acabava indo direto para o mar. Mesmo depois que as autoridades reconheceram o problema, a qualidade não melhorou: a água ficou escura e fedorenta. “É resultado dos produtos químicos”, aposta a americana.

Na minha última noite no emirado, já a caminho do aeroporto, parei numa pizzaria perdida em meio às autoestradas. O estabelecimento é idêntico ao Pizza Hut perto lá de casa, em Londres. Muitos dos produtos que consumo na Inglaterra também são fabricados por pessoas em regime de semiescravidão só que a mais de 3 mil quilômetros de distância. Aqui elas estão a 3 quilômetros de proximidade, e às vezes nos esbarramos. Talvez seja por isso que Dubai me incomoda tanto.

Pergunto à moça filipina do balcão se ela gosta do lugar. “Gosto”, diz ela, inicialmente. “Pois eu detesto”, rebato. Ela concorda e desabafa: “Demorei alguns meses para perceber que tudo aqui é falso. Tudo. As palmeiras são falsas, os contratos de trabalho são falsos, as ilhas são falsas, os sorrisos são falsos. Dubai é como uma miragem. Você acha que avistou água, mas quando chega perto vê que é só areia.”

Alguns nomes neste artigo foram modificados.

Johann Hari

Johann Hari é jornalista e dramaturgo escocês.

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Foro de Teresina #59: A popularidade de Bolsonaro, o Congresso após a Previdência e o espólio de Moro

Podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

O carteiro de Lula

Desconhecido até prisão de ex-presidente, auxiliar assume tarefa de entregar quase tudo que petista vê e lê

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