esquina

Radialista profano

Air guitar no Vaticano

Lucas Ferraz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Passava um pouco do meio-dia de uma quarta-feira de setembro quando Stefano Corato foi ao ar pela Radio Vaticana. O Sound Snacks, programa diário que ele produz e apresenta há mais de um ano, entra depois de um Pai-Nosso e da previsão do tempo.

Com o bordão “Música faz bem e não engorda”, o músico e produtor romano idealizou o programa mais transgressor da emissora católica: sua programação revisita a história da música pop e rock nos últimos cinquenta anos, com curiosidades e informações sobre artistas e canções.

Naquele dia, o ponto alto foi uma análise comparada da linha de guitarra de Superstition, sucesso de 1972 de Stevie Wonder, e Stayin’ Alive, lançada cinco anos depois pelos Bee Gees e eternizada na trilha sonora de Embalos de Sábado à Noite. “Parece até plágio”, sugeriu o radialista. No estúdio, com um enorme fone de ouvido, Corato acompanhava a execução das músicas dedilhando uma guitarra imaginária, prática conhecida como air guitar. Estendendo os braços como na dança de John Travolta, saudou os técnicos de som, que o cumprimentaram de volta com o mesmo gesto.

Stefano Corato é um romano de 61 anos de ar jovial, cabelos desgrenhados e levemente grisalhos. Formado em contrabaixo clássico, foi produtor musical na RCA italiana, tocou na orquestra sinfônica da RAI, a emissora estatal de rádio e tevê, e ensinou música até que se deparou com a oportunidade de trabalhar na rádio oficial da Igreja Católica.

No final da década de 80, a rádio do Vaticano já começava a deixar de lado a marola carola e emitia ondas mais agitadas. Corato, vizinho do responsável por organizar as viagens do papa João Paulo II, valeu-se dessa proximidade para chegar à Santa Sé, não sem antes providenciar um atestado de decência junto ao padre do bairro. “Eram outros tempos, a Igreja mudou muito”, disse o radialista. “Mas o ambiente aqui ainda pode ser complicado, por isso prefiro pensar só na música.”

 

A emissora católica começou a operar em 1931, com a transmissão de um discurso em latim do papa Pio XI, tendo por operador nada menos que Guglielmo Marconi, o inventor do rádio. Sua programação, focada em missas, sermões e entrevistas, passou a dedicar mais tempo à música erudita em 1951, com a inauguração do Auditório Maria Assunta e suas apresentações de maestros e sinfônicas renomadas, então transmitidas ao vivo.

A programação incorporou a música popular a partir de 1974 por obra do jesuíta John St. George, um padre siciliano formado em Nova York, onde chefiou o departamento de Comunicação da Universidade Fordham nos anos 50.

A música e as artes em geral sempre tiveram muito prestígio no Vaticano. Alguns dos pontífices eram ótimos instrumentistas, como Pio XII, virtuose do violino, e Joseph Ratzinger, o Bento XVI – que renunciou há seis anos –, pianista de formação que passava horas tocando Mozart, seu compositor preferido. Paulo vi, até hoje reconhecido como o papa da cultura, era um grande entusiasta dos concertos – a noite em que Arturo Benedetti Michelangeli, um dos grandes pianistas do século XX, se apresentou para ele é lembrada ainda hoje. João Paulo II, seu sucessor, só deixou de assistir aos concertos no final da vida, quando não conseguia manter-se acordado em público.

Sob o papado de Jorge Bergoglio, contudo, as coisas mudaram. O papa Francisco acabou com o concerto anual organizado pelo governo italiano, uma noite de gala que reunia cerca de 6 mil pessoas (a elite política, econômica e cultural do país), e no lugar dele, abriu as sessões de música para os pobres da periferia. Ao contrário de seus antecessores, o argentino ainda não botou os veneráveis pés na rádio do Vaticano, embora há mais de cinco anos venha palmilhando o mundo. “Francisco não liga para a música”, disse Stefano Corato. “Considera o rádio um veículo ultrapassado e dá preferência às redes sociais.”

 

A Radio Vaticana está localizada num prédio amplo de seis andares, a poucos passos da via della Conciliazione, a artéria que liga o rio Tibre à praça de São Pedro. O edifício abriga redações de jornalismo de múltiplas nacionalidades, com seus serviços de notícias em quarenta idiomas (incluindo o esperanto) – provavelmente um dos endereços mais multiétnicos da Itália. Desde 2015, a rádio foi absorvida pela Secretaria de Comunicações da Santa Sé, criada por um decreto papal em junho daquele ano.

Seguindo a tendência global do mercado de comunicação, a emissora cortou custos e quadros, contando hoje com cerca de 300 funcionários, religiosos ou não. Os dois estúdios que sobreviveram aos doze de outrora convivem com muitos cômodos vazios. Da sala do departamento de música, onde trabalham seis pessoas, avista-se o Castelo Santo Ângelo.

Corato seleciona o repertório do Sound Snacks com base no acervo de mais de 36 mil CDs à sua disposição. A liberdade com que escolhe as músicas é temperada com o grão da moderação: letras ou temas blasfemos são proibidos. Nos tempos de John St. George, o jesuíta que flexibilizou a programação, as faixas consideradas ofensivas eram riscadas com pregos.

A única artista oficialmente proscrita é a cantora irlandesa Sinead O’Connor, que, em 1992, durante uma aparição no programa de tevê Saturday Night Live, rasgou no ar uma foto de João Paulo ii. Mas tampouco convém tocar a banda inglesa Black Sabbath, comumente associada ao satanismo. “É preciso entender o limite”, disse Corato. “Nunca me falaram o que tenho de tocar ou não, vou pelo bom senso”, continuou num bar ao lado da emissora, após a apresentação do Snacks.

Ainda assim, transgressões sutis não terão passado despercebidas aos ouvintes mais fiéis que acompanham o programa desde o início. O protagonista de uma delas foi Paolo Rocchi, um dos operadores musicais, um cinquentão cabeludo e guitarrista nas horas livres. Certa vez, num especial sobre os mestres da guitarra, ele botou no ar riffs de Jimmy Page, instrumentista do Led Zeppelin conhecido por seu interesse pelo ocultismo, e também de Angus Young, do AC/DC, banda australiana que celebra a tríade sexo, drogas e rock’n’roll. Prudente, Rocchi limitou-se aos trechos instrumentais das músicas – nada de letra.

Lucas Ferraz

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