coisas de teatro

Reapareceu o Athayde

A vida na montanha-russa do autor de Apareceu a Margarida, do sucesso milionário ao ostracismo e vice-versa em poucos anos

Alfredo Ribeiro
No casarão do Cosme Velho, onde voltou a morar, Athayde começou a construir uma história de passagens feéricas e fracassos retumbantes. Ele lembra que ali seu pai, o acadêmico Austregésilo de Athayde, era idolatrado como um deus
No casarão do Cosme Velho, onde voltou a morar, Athayde começou a construir uma história de passagens feéricas e fracassos retumbantes. Ele lembra que ali seu pai, o acadêmico Austregésilo de Athayde, era idolatrado como um deus FOTO: ALEXANDRE SANTANNA_2007

Como a caligrafia de Roberto Athayde era ilegível, aos 9 anos ele ganhou a sua primeira máquina de escrever. Aos 13, recitava de cor trechos de Os Lusíadas – na aula de matemática, no recreio e até no consultório da psicanalista, onde foi parar por conta de seu comportamento “quase esquizóide”, segundo diagnóstico que faz hoje, aos 57 anos. Aos 15, Athayde foi expulso pela terceira vez de uma escola. Seus pais desistiram de rematriculá-lo: ficou em casa, uma mansão no Cosme Velho, tendo aulas de alemão, espanhol, inglês, francês e piano. Aos 17 anos, como se fosse o cara mais normal do mundo, foi admitido sem problemas numa escola em Michigan, nos Estados Unidos.

Quatro anos depois, no retorno ao Brasil, tudo para o qual ele não havia se preparado começou a acontecer, aceleradamente. Apareceu a Margarida, uma das cinco peças que escreveu no primeiro ano de sua volta ao Rio, estreou em 1973. Com Marília Pêra no papel único, sob direção de Aderbal Jr. (que depois virou Aderbal Freire Filho), o monólogo misturou sucesso de público, problemas com a censura e teatro fechado pela polícia – enfim, todos os ingredientes que fariam de Roberto Athayde, aos 23 anos, uma aparição espetacular no panorama teatral.

Quem era aquele rapaz abusado que, em pleno governo Médici, fazia o público encarar o autoritarismo e o terror de uma professora em sala de aula? A peça era melhor do que a metáfora involuntária, viu-se logo depois, quando Athayde saiu com seu monólogo mundo afora. No ano seguinte, Annie Girardot foi Madame Marguerite em Paris. Em 1977, o próprio autor dirigiu Estelle Parsons, numa montagem produzida por Joe Papp (o mesmo de Chorus Line), em Nova York. Por muitos e muitos anos, Athayde assistiu de camarote à sua peça virar um fenômeno internacional. Foram 250 montagens em todo o mundo, 44 produções só na língua alemã.

De lá para cá, escreveu 26 peças, quatro romances, um punhado de livros infantis, produziu uma minissérie, dois documentários, um curta-metragem e alguns programas de televisão. E, afora os amigos mais chegados, ninguém ouviu falar de qualquer outra coisa de sua autoria que não seja Apareceu a Margarida.

O que também não quer dizer coisa alguma. Alguém por acaso lembra de algum livro do pai dele, o imortal Austregésilo de Athayde, que presidiu por 34 anos a Academia Brasileira de Letras? A exemplo do pai, o melhor e o pior de Roberto Athayde não é o que ele escreve. Sua grande história, cheia de lances feéricos, fracassos retumbantes e passagens delirantes começou no casarão do Cosme Velho, entre Laranjeiras e a subida do Corcovado, imóvel que sua família agora busca transformar em centro cultural.

Na mansão, ele lembra, seu pai “era idolatrado como um Deus pela minha mãe”. O caçula Athayde não chegou a tanto. Mas fala do velho como se ele fosse Machado de Assis, não exatamente pela maestria de Austregésilo – jornalista dos Diários Associados, colunista de O Cruzeiro – com a língua escrita. “Sentia-me massacrado pelo seu imenso talento de orador, dom que positivamente não herdei”, diz. Ainda hoje, ele vê no pai um homem adorável, conciliador, magnânimo, venerável, liberal e, sobretudo, prático. Lembra bem do conselho paterno que não seguiu: “Roberto, meu filho, a inteligência não vale nada, o que vale é o bom-senso”. Ah, se ele escutasse o que papai dizia… Mas não, a grandiosidade que via em Austregésilo só fez despertar a vocação megalômana do filho. “Com relação à obra de meu pai, desde criança me sinto superior”, afirma, sem modéstia.

 

Aos 11 anos, batizou seu cachorro com o nome de Quincas Borba, em homenagem ao personagem de Machado de Assis. “Já tinha lido Dante antes e não havia gostado”, lembra. Preferia Bernard Shaw, a quem descobriu depois de ver três vezes a montagem de My Fair Lady, com Bibi Ferreira e Paulo Autran. Nem é preciso dizer por que os colegas não freqüentavam seu quintal. Athayde lembra de brincar só com o neto da babá. Um tédio. Ele próprio preferia a casa da tia Ana Amélia Carneiro de Mendonça, mãe da crítica de teatro Barbara Heliodora, onde a fleuma dos Athayde dava lugar à exaltação, em saraus e debates apaixonados. Ele acha que vem daí sua atração pelo teatro. A prima-irmã que virou teatróloga não gosta dessa responsabilidade. Quando leu um dos textos inéditos do filho do tio Austregésilo, a crítica foi de uma sinceridade atroz : “Ela detestou a peça, me disse que aquilo não era nada, que eu estava doido por querer montar tal espetáculo”.

Barbara Heliodora não quer falar sobre o primo agora: “Você me desculpe, ele é meu parente, prefiro não dizer nada”. Elegância absolutamente dispensável, pois Roberto Athayde é PhD em espinafração. Destaque especial para o day after da estréia de Apareceu a Margarida em São Francisco, com direção do autor. Como se não bastasse ser lembrada sempre como aquela-atriz-com-nome-de-homem-que-fazia-a-mãe-Waltons do-seriado-de-TV, a protagonista da peça ganhou a seguinte legenda, num jornal: “Michael Learned, depois de obter as piores críticas desde Judas Iscariotes”. Athayde não perdeu a fleuma: “Apenas torci muito para que o Variety não criticasse a peça”. Não deu. “A publicação de maior credibilidade no mundo americano dos espetáculos arrasou a montagem.”

O jovem autor, felizmente, estava noutra. “Eu era mais ou menos hippie, tinha o cabelo pela cintura, estava ganhando dinheiro com o espetáculo, em cartaz no Rio, em Paris e Buenos Aires, morava numa mansão com seis empregados”, ele diz. “Fui picado pela mosca azul da globalização cultural.” Ficou em Roma um tempo, para acompanhar a montagem de Giorgio Albertazzi, com Anna Proclemer, e depois voltou. “Ele era um delirante, deitou nas glórias da Margarida, e não era para menos”, avalia Aderbal. Marília Pêra ainda estava no palco, no Rio, e ele já falava nas montagens que faria em Paris e Nova York. “O cara desmoralizou a megalomania”, avalia Nelson Motta, que, casado com Marília, estreou na produção teatral com Apareceu a Margarida.

Além disso, Athayde estava podendo. Só estreou em língua inglesa quando pôde impor sua tradução e a direção dele próprio, condições que todos os produtores sérios consideravam um disparate. A estréia se deu em 1976, quando um milionário escocês, interessado em se lançar no mundo artístico, bancou a montagem de sua peça em Toronto – que, no entanto, recebeu sua Margarida sem nenhum entusiasmo.

 

No Brasil, Apareceu a Margarida foi um acontecimento. “A virulência do humor revelado pelo jovem autor não encontra paralelo nos palcos da época”, definiu o crítico Yan Michalski na Pequena enciclopédia do teatro brasileiro. “O clima do absurdo que caracteriza o delírio autoritário da protagonista confere à peça um real fascínio.” Dona Margarida era a repressão em cena aberta. Só estreou sem cortes graças a uma artimanha do velho Athayde. “No dia do ensaio geral para a Censura, meu pai reuniu na platéia meia dúzia de imortais, dos mais veneráveis e caquéticos.” Constrangidos com a recepção, os censores aprovaram a montagem, e até baixaram a classificação etária de 18 para 14 anos.

Mas a repercussão do espetáculo na imprensa foi tão grandiloqüente que, duas semanas depois da estréia, a mesma censura tirou-a de cartaz. “Uma das glórias da minha vida foi a charge política que o Jornal do Brasil publicou à época, com uma foice ceifando uma margarida”, diz o autor.

Coube a Nelson Motta negociar alguns cortes, em Brasília, para reabrir o pano. O problema era muito mais de carapuça do regime militar que de recurso metafórico do autor. “Roberto Atahyde nunca foi um cara de esquerda, não escreveu uma peça contra a ditadura, era um louco dono de um texto vigoroso, violento, divertido, inteligente”, diz Aderbal Freire Filho. Meio por acaso, sobrou para a ditadura. O mais provável é que o autor tenha se inspirado em sua própria vida escolar, para lá de problemática, para construir o demônio em forma de professora. Roberto Athayde prefere uma versão mais erudita e literária para sua personagem: “Você pode dizer que a dona Margarida é a anti-Gretchen do Fausto”. O certo é que não escreveu uma peça política, até porque tem horror a qualquer tipo de militância. Acha meio ridículo Arnaldo Jabor “em conflito com suas utopias” nas coisas que diz e escreve na imprensa.

“Nunca simpatizei com extremismos”, ele diz. Aprendeu com o pai, que jamais escondeu a amizade com os militares golpistas. E que camaradagem! “Certa vez, o Castelo Branco ligou lá pra casa para dizer que cassou o Antonio Houaiss só por causa da tradução que ele fez do Ulysses, do Joyce.” Athayde achava tudo isso divertido quando, aos 17 anos, foi para os Estados Unidos, atrás do fio da meada de sua educação tresloucada.

 

Não se pode dizer que tenha exatamente encontrado um caminho. Depois de uma escala-relâmpago na high school de Michigan, pousou num cursinho de literatura francesa na Sorbonne. Por acaso, novamente, estava em Paris em maio de 1968. Logo voltou aos Estados Unidos e, valendo-se de anos de estudos de piano em casa, se matriculou no curso de música da Universidade de Michigan. Queria ser pianista, mas logo descobriu que, suando nas mãos daquele jeito, ao lado de meninos de ouvido absoluto, jamais seria um profissional mediano. Como também não tinha talento para estudar composição, em maio de 1969 desistiu de vez da educação convencional.

Estava completamente perdido, mas “feliz por viver longe da influência do meu pai”. Que ninguém se iluda: o seu amor pela figura paterna foi sempre maior do que a imensa vontade de sair da sombra de Austregésilo. Entre eles, jamais rolou qualquer tipo de conflito. “Fiz tudo o que quis na vida, fui criado num ambiente inteiramente liberal, apesar de uma certa recusa de meus pais à intimidade”, ele diz. Nunca houve qualquer conversa sobre sexo, drogas e rock’n roll na mansão do Cosme Velho. “Minha opção sexual não era questão para meu pai.”

Fora da escola de vez, desandou a escrever contos. Em inglês. Foi morar em Nova York e sobreviveu graças à ajuda familiar até que uma viagem às Bahamas o fez novamente alterar a rota. Entrou em cena um ex-político inglês que, ao perder sua cadeira no Parlamento, retornara à vida de médico volante naquelas ilhas. O brasileiro e o britânico se conheceram no Caribe e Athayde virou uma espécie de “secretário”, digamos assim, com aspas, do tal ex-político. Conta que foi contratado para datilografar um livro do médico, protagonista dessa fase de sua vida. Aproveitou o embalo e, nos seis anos que morou no paraíso, escreveu um romance.

De volta a Nova York, tentou encontrar uma editora para o seu primeiro esforço literário. Negativo: o romance está às vésperas de completar 40 anos de ineditismo. Athayde comprou passagem de volta para o Rio. Chegou no Natal de 1970, época braba, do Brasil ame-o ou deixe-o. Com 21 anos, internou-se mais uma vez na torre de marfim do Cosme Velho. Começou a escrever freneticamente para teatro, até que Apareceu a Margarida – a quarta de suas peças – foi bancada por Marília Pêra e Aderbal Filho. E como é que o texto de um desconhecido foi parar em tão boas mãos?

É uma longa história. Para não pedir ajuda a alguém diretamente da família – pode ter sido Deus que tirou a prima Heliodora de seu caminho – o estreante procurou Paschoal Carlos Magno, autor, diretor, produtor, crítico de teatro e, principalmente, chefe do fã clube que elegeu a tia Ana Amélia Carneiro de Mendonça, no longínquo ano de 1929, Rainha dos Estudantes. Pascoal, um tremendo pistolão na área teatral, não teve o mesmo empenho com o texto de Athayde. “Ele nem leu”, diz o autor. Mas passou a peça para Luís de Lima, diretor, ator e mímico, que não só leu, como queria ele próprio fazer a Margarida. Um acidente, antes de começarem os ensaios, a bordo do carro de Tarcísio Meira, tirou Lima de cena por longo tempo.

O texto passou, então, pelas mãos de Tereza Rachel e Leila Diniz, até enfeitiçar Marília Pêra e Aderbal. O espetáculo ficou seis meses em cartaz, em 1973, mas voltou ao teatro cinco anos depois, com grande sucesso. Nos anos 80, quando a peça se consagrava pela terceira vez em nova turnê de Marília, Athayde deu outra grande tacada teatral, e encheu a burra de dinheiro. Dessa vez, sem escrever nada. Foi ele quem liberou os direitos, em Nova York, e adaptou O Mistério de Irma Vap para a montagem brasileira com Marco Nanini e Ney Latorraca. Comprou, inclusive, o apartamento de três quartos onde mora, no Leblon, com uma parte do percentual que lhe coube na bilheteria do megassucesso. Em boa hora.

Athayde passou seis anos sem escrever uma linha depois que virou cidadão do mundo na garupa da Margarida. De repente, às vésperas de completar 30 anos, se deu conta que ficara deslumbrado, e não conseguira dar continuidade à carreira no Brasil – e muito menos em Paris ou em Nova York. De suas 26 peças, nove foram montadas, só que, como ele reconhece, “ninguém sabe, ninguém viu”. Pior: quem viu não gostou. O próprio Aderbal Freire Filho lembra que, depois de Apareceu a Margarida, dirigiu três legítimos fiascos de Athayde.

 

O maior deles foi Os Desinibidos, de 1982, cuja sinopse oficial reza o seguinte: “O professor Frustrafreud, o mais célebre dos lacanianos brasileiros, está de partida para o Havaí, onde tentará resolver o problema do incesto entre seus filhos e, por isso, é obrigado a cancelar consulta de um cliente importante. Mas sua esposa, dona Proteína, assume seu lugar para analisar o presidente do Flamengo”. Fácil ver que não era um besteirol qualquer. “Era a estréia de Vera Fischer no teatro, e seu figurino deixava um peito de fora o tempo todo”, lembra Aderbal.

O diretor assume a culpa pelo fracasso: “Éramos todos muito loucos naquela época”. Ele desconfia, no entanto, que o sucesso colossal da estréia atrapalhou e ainda atrapalha o autor. Já Roberto Athayde tem certeza: “Depois da Margarida, montar uma peça minha significa ser comparado com Marília e Aderbal, uma covardia”. Modéstia do autor. “Apareceu a Margarida é um clássico, uma obra de gênio”, diz Marília Pêra. O que, supõe, complicou a carreira de Athayde: “Ele começou pelo máximo”.

De vez em quando, ele tem vontade de trucidar sua galinha dos ovos de ouro. “A Margarida sou eu aos 21 anos, e já estou com 57, tenho outras 26 peças para mostrar.” Quando percebeu que ninguém queria montá-las, Athayde resolveu se divertir com outro projeto mirabolante. “Criei o personagem do comissário de bordo Vladimir, da Braniff”, informa. O comissário foi pensado para aparecer em cinco livros, dois deles já publicados (um pela Record, outro pela Top Tape). Os romances são ambientados nos Estados Unidos, porque Vladimir era deslumbrado pelo exterior, sonhava deixar o Brasil para sempre. O projeto, mais uma vez, não foi adiante. “A total falta de resultado nas vendas me fez desistir no terceiro livro, que se passaria na Ásia”, diz o escritor.

Como já tinha iniciado as pesquisas para o romance, Athayde não perdeu a viagem a Bali. Ele foi pioneiro no ramo de importação informal de cangas: fez treze viagens ao Oriente nos anos 80. “A Regina Casé faz uma imitação primorosa do meu desempenho como mercador balinês”, conta.

 

Sem sucesso na literatura, ele investiu, nos últimos anos, uma pequena fortuna em televisão. “Comecei a produzir por desespero”, diz. Seu trabalho é tão extemporâneo que, numa noite dessas, estreou no programa Clássicos da Tela, do Canal Brasil, seu curta-metragem (Areias Sagradas), que rodou com Marília Pêra e Jonas Torres há nada menos que 23 anos. Trata-se de uma “parábola Rajneesh”. Quem viu, viu. Honrando a sua megalomania, produziu do próprio bolso a minissérie A Brasilianista, em seis capítulos, exibida altas horas da madrugada na TV Cultura. “Não ficou excelente, mas para primeiro trabalho…”, opina. Quem viu, viu. E quem viu o documentário que ele produziu sobre Bali? E o programa de 52 minutos com Dinorah Marzullo, mãe de Marília Pêra? “Nem eu vi”, diz a atriz. E aquele outro que ele fez com a cantora Clara Sandrone, sua sobrinha?

O paroxismo do fracasso foi atingido quando Athayde produziu, sozinho, Selva do Meu Desejo, um longa-metragem misto de ficção e realidade, meio filme etnográfico, meio road movie, rodado sem roteiro entre Pernambuco e o Acre, a bordo do Fiat Palio do diretor. Sinopse: antropóloga americana descola um guia nordestino para atravessar a Transamazônica, em busca de manifestações religiosas dos povos da floresta, no caminho que leva ao Santo Daime. A epopéia durou dois meses e quase levou à loucura o ator João Velho, que era pós-graduado em doidices graças à convivência com o pai, Paulo César Pereio.

Durante as filmagens, a câmera, operada por Athayde, representava o olhar da antropóloga, cuja voz foi depois dublada por Estelle Parsons, a atriz que fez Margarida em Nova York. João Velho, no papel de guia, conversa o tempo todo em inglês com o diretor-protagonista de sua história. “Não tínhamos nada a ver um com o outro, eu gosto de rap e ele é o cara mais erudito do mundo”, conta o ator. No dia em que se perderam, e acabou a gasolina no meio da floresta, se houvesse alguma onça por perto, ela fugiria assustada com a gritaria, de tanto que os dois brigavam. No final do filme, o mal-estar entre os dois é palpável. “Nós estávamos tensos mesmo”, diz João Velho.

Rejeitado por vários festivais de cinema, milagrosamente, Selva do Meu Desejo ganhou, agora em julho, o Prêmio da Nova Crítica de um júri de alunos da Oficina de Crítica Cinematográfica no Cine Esquema Novo, de Porto Alegre. Athayde vibrou como um iniciante com o galardão. “Tem horas que ele parece ter saído de uma lâmpada que alguém esfregou”, conta Tessy Callado, amiga desde os tempos de sucesso. Ela vê em Roberto Athayde um certo quê de Oscar Wilde, nobre e selvagem ao mesmo tempo. “Tudo nele é grandioso, trágico, cheio de significados.”

Sabe Deus o que significa Roberto Atahyde! Para Marília Pêra, é “um artista de temperamento iconoclasta e muito, muito talentoso”. Ela ainda aposta no futuro do autor: “Pode ser que, daqui a 40 anos, o descubram pelo conjunto da obra”. Que se lembrem dele, pelo menos, como protagonista de uma história que parece escrita de trás pra frente: a grande revelação do teatro brasileiro dos anos 70, aquele a quem Nelson Rodrigues chamou de “meu rival”, o autor que ficou milionário com Margarida e enriqueceu outra vez com Irma Vap, vive hoje do aluguel do apartamento que herdou do pai.

Alfredo Ribeiro

Alfredo Ribeiro é jornalista carioca.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Maria Vai Com as Outras #3: Quero ser mãe, não quero ser mãe

Uma editora e uma advogada e escritora falam sobre os desdobramentos na vida de uma mulher quando ela decide ter ou não ter filhos

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

O maestro e sua orquestra – andamento lento e músicos desafinados

Governo se julga no direito de “filtrar” projetos incentivados com verba pública, mas filtrar é eufemismo para censurar

Quando a violência vem de quem deveria proteger

Quatro meninas são estupradas por hora, a maior parte dentro de casa, e 17 pessoas são mortas pela polícia por dia, revelam dados do Anuário de Segurança Pública

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

Mais textos
1

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

2

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

3

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

4

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

6

A guerra contra o termômetro

Quando chegam más notícias sobre o desmatamento, os governos atacam o emissário

9

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

10

Sem SUS, sem saída, sem vida

Sem dinheiro para pagar dívidas médicas nos Estados Unidos, idoso mata mulher e se suicida; tragédia amplia debate sobre acesso a sistema público de saúde