ficção II

Recheio

Tinha que ser o Capeta colocando sonhos imundos em sua mente

Jarid Arraes
Depois do culto, ela ficou pensando se as pessoas imaginavam coisas impróprias, se tinham sonhos eróticos com desconhecidos ou gostavam de fantasiar com pastores, com padres, com todos
Depois do culto, ela ficou pensando se as pessoas imaginavam coisas impróprias, se tinham sonhos eróticos com desconhecidos ou gostavam de fantasiar com pastores, com padres, com todos CREDITO: BÁRBARA QUINTINO_2021

O som do salto baixo martelava contra o chão e se espalhava pela rua vazia. Parecia um cavalo manco com o trote vacilando, desengonçado. Ela caminhava devagar, evitando a inconveniência de chegar cedo demais. Detestava esperar, dava espaço para que a mente pensasse no que não devia.

Olhou para o lado e viu um casal entre estalos de beijos e gemidos abafados, com os cabelos bagunçados e os reflexos afoitos de quem, ao mesmo tempo, teme e deseja ser pego. Desviou o rosto e apertou a Bíblia nas duas mãos. Não era certo encarar aquilo. Apressou o passo, misericórdia, falou com Jesus. Não demorou e viu a porta da igreja aberta e o irmão Martins lhe sorrindo de longe.

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Jarid Arraes

É escritora, cordelista e poeta. Publicou Redemoinho em Dia Quente (Alfaguara), vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional e do Prêmio APCA de Literatura na categoria Contos.

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