carta de Brasília

Recordação da casa dos vivos

Ao longo de seus dezesseis anos como deputado, o autor sempre acordou no dia do aniversário com um telefonema de Paulo Maluf a lhe desejar felicidades

Fernando Gabeira
“O novo ocupante do gabinete onde trabalhei na Câmara mandou um assessor examinar a futura disposição dos móveis. Alguém me pediu uma assinatura para algo meio absurdo, e achei conveniente mencionar: ‘Olha, já sou um ex-deputado’”
“O novo ocupante do gabinete onde trabalhei na Câmara mandou um assessor examinar a futura disposição dos móveis. Alguém me pediu uma assinatura para algo meio absurdo, e achei conveniente mencionar: ‘Olha, já sou um ex-deputado’” FOTO: MARCOS SÁ CORRÊA

“Declaro encerrada a sessão”, disse o presidente em exercício Inocêncio de Oliveira. É a frase que encerra os trabalhos e que, às vezes, em noites muito confusas, você recebe com alegria.

De certa forma, minha última sessão na Câmara dos Deputados, no dia 22 de dezembro passado, depois de dezesseis anos como parlamentar em Brasília, foi idêntica à primeira. Em 1994, logo após a eleição de Luís Eduardo Magalhães para a presidência, questionei a ideia de que entraríamos em recesso antes mesmo de começar os trabalhos. Pura inexperiência. É tradição da Casa eleger o presidente e sair de férias por algumas semanas. Luís Eduardo sorriu com tolerância e disse: “Vou encerrar a sessão.” Não era necessário deixar de fora todas as esperanças, como na entrada do inferno. Mas era preciso descartar as mais ingênuas.

Foram dois mandatos no tempo de Fernando Henrique Cardoso (1995–2003) e dois no tempo de Lula (2003–2011). Neste país o presidente da República é tão importante que sua sombra define o exercício parlamentar. O Congresso brasileiro não tem o mesmo peso na balança dos poderes que o americano.

Antes de me tornar deputado, conhecia o Congresso como jornalista. Muitas vezes passei por lá. Mas eram situações especiais que atraíam repórteres de fora de Brasília, por um curto período. “Sempre nos encontramos aqui nos momentos wagnerianos”, disse-me, certa vez, o jornalista Murilo Melo Filho, que também viera do Rio para cobrir uma das grandes crises em Brasília.

Eleito pela primeira vez em 1994, eu não estava mais ali apenas pelos momentos wagnerianos, mas pelos kafkianos, dantescos – enfim, agora era para o que desse e viesse.

No meu primeiro mandato, funcionários da Câmara ainda eram despachados para os estados para orientar os recém-eleitos. No meu caso, dois deles instalaram-se num hotel do Leblon e foi lá que, ao lado das instruções burocráticas, recebi a carteira preta com letras douradas e o brasão da República também dourado, em relevo. Com o tempo, o suor vai desbotando o dourado, embora o brasão metálico continue brilhando para dizer, mesmo a uma certa distância, que o portador é autoridade.

Antes mesmo da posse, aprendi que havia dois tipos de gabinete: um com banheiro, outro sem. Como acabara de chegar, fiquei no Anexo III, sem banheiro no gabinete. Ali se concentram alguns dos deputados mais combativos da Câmara – um setor também chamado de Vietnã.

De um modo geral, os funcionários são muito corteses com os deputados; alguns nos chamavam de Excelência. Você acredita ou não, mas é sadio duvidar se estão falando com a pessoa certa. Na porta, há sempre o assédio de algumas famílias pobres, recém-chegadas a Brasília. Nos corredores, há o cerco de freelancers que trabalham colhendo assinaturas para deputados. Muitas propostas dependem de apoio e eles ganham por assinatura. A tática mais comum é assinar logo para se livrar deles. Mas é preciso cuidado, pois alguns jornalistas simulam propostas absurdas e, de repente, sua assinatura aparece respaldando, por exemplo, uma redução do salário mínimo. Por que assinamos quase tudo? Assinar significa apenas deixar que a discussão aconteça. Não há compromisso em votar a favor. E livrar-se de um chato no corredor não tem preço.

Quando deixei o Congresso, naquela quarta-feira de dezembro, já havia novos deputados nos corredores, tomando contato com a atmosfera, para assumirem agora em fevereiro. O novo ocupante do gabinete onde trabalhei mandou um assessor examinar a futura disposição dos móveis. Alguém me pediu uma assinatura para algo que me pareceu meio absurdo, e achei conveniente mencionar: “Olha, já sou um ex-deputado.”

Mas sei, porque tenho amigos lá dentro e outros que acabam de chegar, que sempre haverá uma minoria para se acionar. Por menor que seja, a pressão da opinião pública vai potenciá-la.

A adaptação a tudo aquilo parece difícil no início. Onde morar, por exemplo? A Câmara paga hotel ou cede um dos apartamentos funcionais, que são muito grandes e tristes para uma só pessoa. Muitos optam por neles morar porque trazem a família, ou hospedam prefeitos e cabos eleitorais em incursões à capital.

Para quem chega, a situação espacial em Brasília é um pouco desconcertante. Cidade planejada, não tem esquinas nem o tumulto das metrópoles brasileiras. Qual a diferença de morar no norte ou no sul, qual a diferença entre uma quadra e outra? Existe um setor comercial específico para se comprar um cortador de unha? Optei por um hotel, o Bonaparte.

Brasília, no fim do expediente normal, me lembrava um pouco Estocolmo, no princípio das noites de verão – ninguém nas ruas. Creio que isso influenciou uma alucinação que me perseguiu durante muito tempo, e aparece, discretamente, em algumas crônicas que escrevi à época: no futuro, as ruas seriam ocupadas apenas por entregadores de pizza.

Só no final do terceiro mandato acho que comecei a entender como a cidade funcionava. Percebi o quanto a vida foi mais forte e coloriu com suas manifestações inesperadas vários ângulos de sua precisa geometria.

Aquilo era o Brasil, a riqueza de tipos, mestiços de todas as gradações, mas, de uma certa forma, um Brasil bem-comportado. Nas capitais administrativas as pessoas usam roupas discretas. Daí, talvez, a impressão inicial de que você está alguns lances no passado, em relação às metrópoles. Ilusão. Um travesti, por exemplo, trabalhava normalmente pelos corredores da Casa, depois de 32 operações. Neto de um senador de um estado central, sempre trabalhou ali. Entre projetos, relatórios, atas e memorandos, foi se transformando numa bela mulher, com roupas ousadas e um andar decidido. Quando vai ao Senado, o que faz raramente, é quase necessário acionar o serviço médico para um plantão especial.

Lendo minhas crônicas do período, observo que muitas eram sobre prostitutas de Brasília. Eu ia e vinha do hotel de bicicleta e as encontrava no topo da última colina. Às vezes, parava e tomava fôlego. Elas gritavam: “Força, deputado.”

Para mim, as prostitutas e travestis que povoam a região dos hotéis são um fenômeno, pois guardam entre as pernas energia capaz de eletrizar o coração da capital. E ainda me animavam na subida. Falei, nessas crônicas, dos prefeitos do interior, da necessidade de um manual para que distinguissem travestis. Entre divertido e desolado revelei o que via naquelas noites.

Mas só posso descrever as noites de Brasília imaginando-as. Jamais tive coragem de me aventurar nelas. Aceito críticas pela falta de iniciativa. Mas a partir de certa idade, os cálculos de custo-benefício são muito rigorosos, pelo tempo escasso.

 

Vitórias e derrotas políticas estavam por acontecer, pois é esse o jogo. O que torna o mandato mais ameno, contudo, são as relações com as pessoas. Podíamos ter posições diferentes, em alguns casos com rejeição frontal. Mas as regras da convivência vão moldando um cenário complexo, onde as lutas se acirram e uma certa cordialidade sobrevive.

Exceto nas prisões no período da ditadura, eu não tinha experiência de conviver diariamente com 512 pessoas que eu não tinha escolhido. Era inédito no meu trabalho circular a todo instante por corredores onde transitam mais de 2 mil indivíduos. A sensação era de estar sempre em cena. Ou de atuar numa atmosfera de abrigo para guerra nuclear, pela ausência de luz natural.

Apesar de fazer oposição ao governo, Luís Eduardo Magalhães sempre fez questão de me dar a palavra, mesmo sendo eu o único deputado do Partido Verde. “Como o senhor orienta sua bancada?”, perguntava ele no início das votações. Todos sorriam. Um dia, respondi: “Como sou uma pessoa muito dividida, vou liberar a bancada para votar como quiser.”

Ao longo desses anos todos como deputado, sempre acordei, no dia do meu aniversário, com uma pessoa do outro lado do telefone: “Aqui é o Paulo Maluf, desejando muitas felicidades.” A experiência que tenho dentro do burburinho da cadeia, ou mesmo de um Congresso, é que interessa apenas o momento partilhado. Muito ou pouco votados, gente com inquérito ou sem inquérito, nada disso importa no momento em que se toma um café, quando nos entreolhamos no elevador, cansados de uma arrastada votação. A frase mais comum é esta: ali não tem bobo. Era como se dissessem: não importa o que dizem os jornais ou mesmo os seus adversários, quem é você aqui, agora, nos dias que, fatalmente, teremos de compartilhar? Havia deputados que andavam de nariz em pé, mas eram minoria e tratados com frieza.

Além do nariz em pé, há outras tendências que não prosperam. Quem dá a impressão de saber muito é logo apelidado de professor de Deus. Não que ninguém vá ouvi-lo. Todos desenvolvem uma reação profissional, tipo piloto automático: as palavras entram por um ouvido, saem pelo outro, e a vida continua com um sorriso nos lábios.

Pelo meu caderno de notas vejo que um dos temas que mais me ocuparam, ainda no primeiro mandato de FHC, foi o Sivam, o Sistema de Vigilância da Amazônia. Objeto de disputa entre franceses e americanos, o negócio representou 1,4 bilhão de dólares e daria ao Brasil, além da vigilância militar sobre a Amazônia, conhecimentos vitais sobre a diversidade da floresta tropical.

Minhas críticas não eram tanto contra a racionalidade da montagem do Sivam, mas quanto aos caminhos meio tortuosos pelos quais o negócio foi concluído. Na época eu era aliado do PT, havia apoiado Lula e viajado com ele na Caravana da Cidadania que percorreu o sul do estado.

Hoje, olhando para trás, vejo que se aclarou pouco dessas dúvidas. Nunca se apuraram as denúncias do Parlamento Europeu de que a Raytheon teria usado a espionagem norte-americana para concluir o negócio, derrotando a Thomson francesa. Nunca ficou absolutamente claro se a Raytheon, que desenvolvera vários projetos de espionagem militar, não teria acesso aos dados amazônicos. Nunca ficou claro se a capacidade brasileira de sensoriamento remoto poderia realizar um projeto nacional de monitoramento ambiental ou, ao menos, participar do Sivam. Nunca ficou claro também se o Sivam iria proteger ambientalmente a Amazônia, pois a técnica de detectar desmatamento, via satélite, já era desenvolvida, e bem, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe.

Como houve um ou dois escândalos, solucionados com o remanejamento de um diplomata e do ministro da Aeronáutica, as audiências públicas se concentraram nisso. A energia da cobertura da imprensa também se esgotou.

Algumas votações da era FHC me afastaram dos aliados na esquerda, do PT sobretudo. Entre elas, houve desde a responsabilidade fiscal até a quebra do monopólio da Petrobras, passando pela reeleição do presidente. Mas a que realmente repercutiu foi a privatização das empresas telefônicas.

De certa forma, foi tranquilo navegar numa certa hostilidade por defender algo oposto ao que esperavam de mim. Eu tinha a experiência de jornalista, cobrira o fim do império soviético nos países bálticos, sabia da ruína que eram as comunicações estatizadas. Além disso, via pela aceitação dos pagers que o telefone celular iria representar uma ferramenta extraordinária na mão dos que trabalham, sobretudo os prestadores de serviços e freelancers. Os sem telefone, naquele momento, eram milhões.

Eu já havia feito alguns discursos sobre o momento histórico. Já havia escrito livros abrindo uma janela de crítica à visão convencional de esquerda. Mas todas as idas e vindas, sobretudo a queda do Muro de Berlim, não conseguiram quebrar uma espécie de princípio entre nós: progredir é estatizar. Era preciso sobreviver a esta regra de ferro e distanciar-se do dogma simetricamente oposto: progredir é privatizar. É um tema recorrente, que se instalou até na última grande votação de interesse: como explorar as reservas do pré-sal.

Os grandes processos políticos ocuparam um rápido espaço no imaginário popular, mas se dissiparam com rapidez. Ao acionar o telefone celular, o usuário quer apenas linha, não quer mais saber do drama histórico que inundou o país com os pequenos aparelhos.

Na semana em que passou a lei privatizando as teles, senti, talvez pela primeira vez, a consequência de um voto. No voo habitual de quinta-feira para o Rio, uma mulher de meia-idade, talvez uma professora, uma socióloga, não sei, parou no meio do corredor, olhou para mim e disse em voz alta: “Traidor.” Não havia nada a fazer, exceto mergulhar no livro, o companheiro de viagem.

Essa história do telefone me perseguiu outras vezes. O PT fez uma convenção no Hotel Glória e Lula me convidou para participar. Quando entrei, ele já havia dito no microfone que gostava de mim, um sinal para pegarem leve. Ainda assim, houve vaias e os militantes gritavam: “E o meu telefone?”

O deputado recém-chegado compreende logo que as emendas parlamentares a que tem direito dependem da liberação do governo. Sabe que sua região não o perdoará se não trouxer melhorias concretas. E que não o condenará se aprovar projetos do governo para garantir a ponte, a quadra esportiva, o posto médico. O que fazer, nesse caso: votar sempre com a consciência ou garantir novos mandatos para seguir trazendo obras para a região?

Os escândalos envolvendo lobistas eram previsíveis. Começavam com a aparição de uma caderneta de anotações, terminavam com discursos indignados e uma recomendação para se aprovar uma lei do senador Marco Maciel, que regula o lobby, como nos Estados Unidos. O senador Marco Maciel está se aposentando, a lei nunca foi aprovada e, certamente, será mencionada de novo num caso semelhante.

Foi no meu primeiro mandato que me meti num grande escândalo. Importei alguns quilos de semente de cânhamo da Hungria e eles foram apreendidos pela Polícia Federal. Suspeitavam que fosse maconha. Cânhamo e maconha não se distinguem, exceto pelo teor de THC. Mandaram as sementes para serem examinadas nos Estados Unidos e o resultado nunca apareceu. A opinião pública jamais foi informada e quase perdi as eleições seguintes. Jamais pude explicar que a importação foi precedida de uma troca de cartas com um pesquisador da Embrapa e que ele sonhava em usar o cânhamo para rivalizar com a maconha, com inúmeras aplicações industriais.

Mas, de um ponto de vista parlamentar, a política de drogas no Brasil avançou e o governo Fernando Henrique desempenhou um papel meritório. O ministro da Justiça, Nelson Jobim, chamou três deputados para uma reunião: Elias Murad (PSDB-MG), Eduardo Jorge (PT-SP) e eu. O governo reconhecia o anacronismo da lei existente, mas não queria entrar em bola dividida. Era preciso abrir o debate nacional.

Murad era um proibicionista que fazia palestras, escrevia livros e colocara a questão das drogas no centro de seu mandato. Excelente figura humana, era um prazer ir aos lugares discutir com ele. Às vezes, usávamos o saguão de um shopping center para debater. Tanto debatemos que, no final, já conhecíamos de cor os argumentos do outro: se um de nós ficasse doente, o outro saberia representá-lo.

Quando estourou o escândalo das sementes, Murad bateu forte na minha escolha. Só que no Congresso existem inúmeras gradações quando você é atacado. O tema era o centro de seu mandato, logo era razoável que se manifestasse. São coisas muito respeitadas: reclamar, quando tocam no tema central de sua luta parlamentar, e protestar quando se perde uma votação. Esse último caso é o consagrado direito de espernear. Todos olham com uma certa complacência para o choro do perdedor.

Com todas as dificuldades típicas de temas como esse, chegamos a uma lei das drogas que não é ideal, mas representou um avanço: os usuários não seriam mais presos, seriam multados. A lei não se resume a isso, mas foi a novidade consensual.

Com o tempo, aprendi a evitar debates muito tarde da noite, perto do fim da sessão. Como ia direto para casa, tinha dificuldade em dormir logo. Mentalmente, acrescentamos argumentos, arrasamos outros, prolongamos o debate madrugada adentro. E não há mais debate, apenas um quarto escuro, e você precisa dormir.

Fiz minha primeira viagem parlamentar a bordo do avião presidencial em 2002, no final do meu segundo mandato. Deputados e senadores viajam no fundo e o presidente às vezes sai de sua cabine para cumprimentá-los. Em alguns momentos, somos chamados para uma rápida conversa cordial, com direito a um drinque. Todos são chamados a seu tempo, a ordem de chamada é ditada pela hierarquia – senadores, depois deputados, como se estivéssemos na casa do presidente, numa sala de espera voadora.

Naquela viagem fomos à África do Sul e em determinado dia Fernando Henrique convidou os parlamentares para conhecerem Nelson Mandela. Fiquei surpreso ao constatar que boa parte deles preferiu fazer compras.

Por conta dessas histórias de compras, tenho lembrança de uma noite particularmente desagradável na Câmara. O episódio ocorreu em maio de 2007, no rastro da instalação do Parlamento do Mercosul em Montevidéu – algo simbólico em torno de um parlamento futuro. A Câmara
lotou um avião e o Senado outro. Funcionários de nossa embaixada telefonaram alertando para o tamanho da delegação brasileira, gerando um aumento das despesas normais. Um jornal de São Paulo fotografou um deputado, cantor sertanejo, com sacolas de compra. A expedição resultou numa verdadeira blitz no estoque de casacos de couro do Uruguai.

Tentei protestar contra o episódio, minha palavra foi cassada e a maioria do plenário me vaiou estrepitosamente. Saí um tanto derrotado. A vantagem é que no dia seguinte a maioria de nós se comporta como se nada tivesse acontecido na véspera. Todos acreditam que olhar fixo no retrovisor leva a desastres.

O uso do dinheiro público continuará sendo um grande tema. O último escândalo desse mandato aconteceu exatamente aí: a farra das passagens aéreas. Para mim, ele aconteceu assim: eu estava no enterro de meu irmão Paulo Sérgio, em Juiz de Fora, quando alguém me disse que se falava de um escândalo de passagens no Congresso.

Alguns deputados tinham viajado muitas vezes para o exterior, outros levaram as mulheres, enfim, a expressão “farra das passagens” emplacara. Os casos se sucediam, as acusações eram cada vez mais embaraçosas e não havia sinal de resposta do Congresso. Mesmo sabendo estar dando um salto no escuro – que, de qualquer modo, me pareceu melhor do que a imobilidade –, telefonei para o jornalista Josias de Souza e o informei de que a prática era comum na Câmara e que eu iria combatê-la. Só que antes, para enfrentar a situação, precisava confessar que eu mesmo tinha dado uma passagem para a minha filha.

Foi um momento difícil. Viajei para Brasília com antecedência e amanheci na casa do presidente da Câmara, Michel Temer.Ele também usara passagens e estava constrangido. Apresentei um conjunto de normas que poderia ser o ponto de partida para corrigir os problemas. Acrescentei que, se não achasse uma saída, não teria outro caminho senão renunciar ao meu mandato. Completei minha atuação no caso devolvendo o dinheiro da passagem e mais 83 mil reais em créditos acumulados das viagens.

Recebi críticas pesadas e leves. Aprendi que, num momento em que todos parecem estar contra, você tem que estar a seu favor. É uma condição para concluir o trabalho, não naufragar. Vejo as críticas um pouco como um nadador. Nos primeiros 20 metros você fica zangado, nos 100 já acha que o crítico tem uma ponta de razão, nos 400 você conclui: isto até vai me ajudar.

 

Quando Lula assumiu, fui eleito pela terceira vez. Tinha mais experiência e muita esperança. Apoiei sua candidatura em 1994 e 98. Eu tinha entrado no PT porque achava que estávamos diante de uma grande experiência histórica, mas logo nos primeiros meses ficou claro que eu me afastaria do partido e, consequentemente, da base de apoio do governo. Passei alguns dias inquieto, sabendo que saltaria no escuro. Mas era um salto inevitável. Fiz um discurso de despedida que não foi objeto de qualquer debate na Câmara. O plenário apenas registrou o fato. Foi tudo. Ficou a frase: “Sonhei o sonho errado”, querendo expressar minha decepção pela falta de mudanças no campo político.

O episódio do mensalão, talvez o mais discutido escândalo da era Lula, iria mudar o ritmo do Congresso e nos jogar numa longa crise que ameaçou a própria sobrevivência institucional.

Mesmo sem ter sido indicado para ela, acompanhei de perto as sessões da CPI. Aquele momento de crise intensa era um pouco diferente dos outros. Havia cobertura de tevê ao vivo, milhões de pessoas tiveram a oportunidade de conhecer os acusados, analisar suas reações. Não se tratava mais de um texto dizendo: o acusado declarou. Você viu o que ele disse? Sua expressão não me convenceu – eram frases que indicavam audiência compartilhada, comentários sobre o desempenho.

Em termos jurídicos, o mensalão resultou num processo com 190 volumes e 70 mil páginas. Os acusados foram descritos como uma organização criminosa. Alguns dos que restaram na Casa tornaram-se fantasmas, pelo menos nos primeiros meses. Fantasmas são parlamentares que circulam pelos corredores, marcam presença, mas perdem a capacidade de participar ativamente do processo.

Cruzei com José Dirceu algumas vezes. Sempre trocamos algumas palavras cordiais e nos despedimos. Como vizinhos que se encontram, falam da ameaça de chuva e seguem seu rumo, um para o supermercado, outro para o passeio matinal. Nunca mais o vi depois que ele entrou no seu inferno astral, foi destituído da Casa Civil e perdeu o mandato de deputado federal.

Para mim e alguns deputados que pensávamos numa Câmara mais próxima da opinião pública, foi um baque. A partir daquela época iniciamos reuniões noturnas para discutir a situação e buscar uma saída. Éramos mais ou menos trinta deputados e, em certas circunstâncias, apareciam também três ou quatro senadores.

Não seria possível, com apenas trinta deputados, mudar radicalmente a situação. Mas éramos todos políticos e sabíamos que o peso da opinião pública, a favor de algumas bandeiras, atenuaria nossa inferioridade numérica. Tínhamos como objetivo preservar a importância estratégica do Congresso para a democracia; um fisiologismo anárquico iria devorá-lo como os cupins devoram a madeira.

Uma eleição no Congresso costuma ser algo bastante animado. Trata-se de uma eleição de gente que, na sua maioria, gosta de eleição. É como se fosse uma partida de futebol entre jogadores, num campo recreativo. Os candidatos a todos os cargos fazem campanha. Os corredores, às vezes, ficam inundados de cartazes e slogans. Você acorda com uma ligação do candidato a terceiro-secretário e termina o dia com um apelo do segundo-vice.

Como o prédio construído por Niemeyer não tem muitos espaços de recolhimento, ângulos adequados para o conchavo, as reuniões se fazem nas salas de comissão e liderança. Um candidato expõe sua plataforma para um grupo, corre para discutir com o líder de partido, faz uma série de visitas individuais. Com a recente aliança dos dois maiores partidos, PT e PMDB, esse processo tende a ser mais calmo. Com o campo do imprevisível bastante reduzido, os dois partidos se sucedem na presidência, indicando o vencedor.

 

Depois de dezesseis anos na Casa, minha última sessão não foi solene. Na manhã de 15 de dezembro de 2010 os deputados aumentaram seus salários em 61,83%, de 16  512 reais para 27 723,13 reais mensais. Conseguiram, por fim, o que era um constante objeto de desejo: ganhar o mesmo que um ministro do Supremo Tribunal Federal. A sessão terminou abruptamente, no momento em que tomei um dos microfones do plenário para protestar. Sete de nós, com as mãos levantadas, manifestaram o voto contrário; alguns minutos antes, 35 haviam registrado seu voto rejeitando a urgência para discussão do salário. Nesse mesmo dia, o deputado Tiririca, eleito com uma estrondosa votação, visitou o Congresso e, erguendo um sapato, declarou: “O aumento veio num bom dia, estou com sorte.”

Deixei o Congresso com o microfone desligado na mão, sem poder fazer o último discurso. Não iria apenas censurar o aumento salarial. Diria também que o problema ali não era falta de recursos, mas de importância: o tédio e não a pobreza nos ameaçava. Se pudéssemos realmente discutir os temas nacionais, com uma agenda própria do Congresso, o mandato seria mais interessante, haveria menos demanda de consumo. Para os mais cínicos, este argumento soa como conto de Natal. Sem hipocrisia, eu estava exatamente realizando isto na vida. Não buscava apenas refazer uma vida profissional. Estava trocando de front.

Espero voltar a visitar a Casa, não necessariamente num momento wagneriano. O balanço geral dos últimos anos de abertura é muito positivo. O país conseguiu estabilizar a democracia, impulsionar o crescimento econômico, ampliar e aprofundar a rede de proteção social. Essas conquistas não conseguem por si resolver o problema político. Mas desprendem uma poderosa energia que, aproveitada, vai levar o país para os rumos desejados por um grande número de brasileiros.

A Lei da Ficha Limpa, com suas imperfeições jurídicas, é um exemplo disto: veio de baixo e, dentro dos limites, significou uma depuração do processo eleitoral. Quase todos votaram a favor, em votação aberta. Quem se oporia a ela, às vésperas das eleições?

Nada de pessoal. São grandes forças históricas que, postas em movimento, acabaram arrastando todos os obstáculos. Nesses momentos, os deputados saberão analisar os dados e acabarão cedendo.

Afinal, ninguém ali é bobo.

Fernando Gabeira

Fernando Gabeira é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Publicou Manual dos Sobreviventes, pela Ibep Nacional, em 2010.

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