não ficção

Reflexões sobre uma autobiografia abandonada

Não consigo escrever sobre mim mesma como escrevo a respeito das pessoas sobre as quais escrevi enquanto jornalista

Janet Malcolm
FOTO: ALESSANDRO LUPI_ANTIEGO MIRROR

Enquanto redijo esta autobiografia, me dou conta de um sentimento de tédio em relação ao projeto. Meus esforços para tornar interessante o que escrevo parecem lamentáveis. Minhas mãos estão atadas, é o que sinto. Não consigo escrever sobre mim mesma como escrevo a respeito das pessoas sobre as quais escrevi enquanto jornalista. Para essas pessoas, fui uma espécie de amanuense: eles me ditaram suas histórias e eu as recontei. Eles posaram para mim e eu desenhei seus retratos. Ninguém está ditando ou posando para mim agora.

A memória não é uma ferramenta de jornalista. A memória tem lampejos e pistas, mas não mostra nada com nitidez ou clareza. A memória não narra ou representa personagens. A memória não tem nenhuma consideração com o leitor. Para que uma autobiografia seja minimamente legível, o autor deve intervir e subjugar o que se poderia chamar de autismo da memória, essa paixão pelo tedioso. Ele não deve ter medo de inventar. Acima de tudo, deve inventar a si mesmo. Tal como Rousseau, que escreveu (no início de suas Confissões romanescas) que “não sou da mesma massa daqueles com quem lidei; ouso crer que não sou feito como os outros”, ele deve sustentar, apesar de todas as evidências em contrário, a ilusão de ser incrivelmente extraordinário.

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Janet Malcolm

Janet Malcolm é jornalista e escritora americana, autora de Psicanálise – A Profissão Impossível,da Relume Dumará, e O Jornalista e o Assassino.

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