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não ficção

Reflexões sobre uma autobiografia abandonada

Não consigo escrever sobre mim mesma como escrevo a respeito das pessoas sobre as quais escrevi enquanto jornalista

Janet Malcolm | Edição 112, Janeiro 2016

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Enquanto redijo esta autobiografia, me dou conta de um sentimento de tédio em relação ao projeto. Meus esforços para tornar interessante o que escrevo parecem lamentáveis. Minhas mãos estão atadas, é o que sinto. Não consigo escrever sobre mim mesma como escrevo a respeito das pessoas sobre as quais escrevi enquanto jornalista. Para essas pessoas, fui uma espécie de amanuense: eles me ditaram suas histórias e eu as recontei. Eles posaram para mim e eu desenhei seus retratos. Ninguém está ditando ou posando para mim agora.

A memória não é uma ferramenta de jornalista. A memória tem lampejos e pistas, mas não mostra nada com nitidez ou clareza. A memória não narra ou representa personagens. A memória não tem nenhuma consideração com o leitor. Para que uma autobiografia seja minimamente legível, o autor deve intervir e subjugar o que se poderia chamar de autismo da memória, essa paixão pelo tedioso. Ele não deve ter medo de inventar. Acima de tudo, deve inventar a si mesmo. Tal como Rousseau, que escreveu (no início de suas Confissões romanescas) que “não sou da mesma massa daqueles com quem lidei; ouso crer que não sou feito como os outros”, ele deve sustentar, apesar de todas as evidências em contrário, a ilusão de ser incrivelmente extraordinário.

Uma vez que um dos riscos profissionais do jornalismo é o atrofiamento (por falta de uso) dos poderes de invenção, o jornalista que se propõe a escrever uma autobiografia encara uma luta mais difícil do que outros praticantes do gênero. Quando quase todo o nosso trabalho é feito – como o meu tem sido por mais de um quarto de século – por uma sequência brilhante de colaboradores que se inventam diante de mim, não é fácil se ver subitamente sozinha na sala. É particularmente difícil para alguém que, com muita probabilidade, se tornou jornalista porque não queria se ver sozinha na sala.

Outro obstáculo no caminho do jornalista que se torna autobiógrafo é a postura de objetividade que os jornalistas costumam assumir quase mecanicamente quando escrevem. O “eu” do jornalismo é uma espécie de narrador ultraconfiável e uma pessoa incrivelmente racional e desinteressada, cuja relação com o assunto com muita frequência se assemelha à relação de um juiz que pronuncia a sentença de um réu culpado. Este “eu” é inadequado para autobiografia. A autobiografia é um exercício de perdoar a si mesmo. O “eu” observador da autobiografia não narra a história do “eu” observado – como o jornalista conta a história de seu entrevistado –, mas como uma mãe poderia contá-la. O narrador mais velho olha para seu eu mais jovem com ternura e compaixão, sente empatia por suas tristezas e aceita seus pecados. Percebo que meus hábitos de jornalista inibiram meu amor-próprio. Não somente fracassei em tornar meu jovem eu tão interessante quanto os estranhos sobre os quais escrevi, como retirei minha afeição. No que se segue, tentarei me ver com menos frieza, ter menos medo de escrever um texto de autoelogio. Mas pode ser tarde demais para mudar de pele.

Trecho do livro 41 Inícios Falsos, que a Companhia das Letras lança em fevereiro.