não ficção

Reflexões sobre uma autobiografia abandonada

Não consigo escrever sobre mim mesma como escrevo a respeito das pessoas sobre as quais escrevi enquanto jornalista

Janet Malcolm
FOTO: ALESSANDRO LUPI_ANTIEGO MIRROR

Enquanto redijo esta autobiografia, me dou conta de um sentimento de tédio em relação ao projeto. Meus esforços para tornar interessante o que escrevo parecem lamentáveis. Minhas mãos estão atadas, é o que sinto. Não consigo escrever sobre mim mesma como escrevo a respeito das pessoas sobre as quais escrevi enquanto jornalista. Para essas pessoas, fui uma espécie de amanuense: eles me ditaram suas histórias e eu as recontei. Eles posaram para mim e eu desenhei seus retratos. Ninguém está ditando ou posando para mim agora.

A memória não é uma ferramenta de jornalista. A memória tem lampejos e pistas, mas não mostra nada com nitidez ou clareza. A memória não narra ou representa personagens. A memória não tem nenhuma consideração com o leitor. Para que uma autobiografia seja minimamente legível, o autor deve intervir e subjugar o que se poderia chamar de autismo da memória, essa paixão pelo tedioso. Ele não deve ter medo de inventar. Acima de tudo, deve inventar a si mesmo. Tal como Rousseau, que escreveu (no início de suas Confissões romanescas) que “não sou da mesma massa daqueles com quem lidei; ouso crer que não sou feito como os outros”, ele deve sustentar, apesar de todas as evidências em contrário, a ilusão de ser incrivelmente extraordinário.

MATÉRIA FECHADA PARA ASSINANTES
Para acessar, assine a piauí

Janet Malcolm

Janet Malcolm é jornalista e escritora americana, autora de Psicanálise – A Profissão Impossível,da Relume Dumará, e O Jornalista e o Assassino.

Leia também

Últimas Mais Lidas

Atiaia, a onça no caminho de Bolsonaro

Governo federal apoia reabertura de estrada que corta Parque do Iguaçu, declarado patrimônio da Humanidade e refúgio de onças-pintadas

Foro de Teresina #65: O sequestro do ônibus, o aparelhamento bolsonarista e a desigualdade brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Nunca fui santa

Às vésperas da canonização de Irmã Dulce, quase 80% dos santos reconhecidos pela Igreja Católica ainda são homens

Cabeças a prêmio – naufrágio do cinema

Por idiossincrasia de Bolsonaro, mas também por nossa incapacidade de reformular a Ancine, estamos por afundar

Os podcasts que eles ouvem

Quais os programas queridinhos dos participantes do evento

Fogo na Amazônia apaga o Sol no Sul

Fumaça de queimadas combinadas em Rondônia, Bolívia e Paraguai cobre o Sol no norte do Paraná, a mais de 2 mil km de distância

Maria Vai Com as Outras #1: Poder

A prefeita Márcia Lucena e a delegada Cristiana Bento contam como exercem o poder em profissões quase sempre ocupadas por homens

Foro de Teresina especial: aguarde

O programa, que contou com a participação da jornalista Maria Cristina Fernandes, foi gravado ao vivo durante o evento que reuniu os melhores podcasters do país

Mais textos
1

Fogo na Amazônia apaga o Sol no Sul

Fumaça de queimadas combinadas em Rondônia, Bolívia e Paraguai cobre o Sol no norte do Paraná, a mais de 2 mil km de distância

2

A vovó fashion

Uma influencer e seus looks ousados

4

Atiaia, a onça no caminho de Bolsonaro

Governo federal apoia reabertura de estrada que corta Parque do Iguaçu, declarado patrimônio da Humanidade e refúgio de onças-pintadas

6

Nunca fui santa

Às vésperas da canonização de Irmã Dulce, quase 80% dos santos reconhecidos pela Igreja Católica ainda são homens

7

O pit bull do papai

Os tormentos e as brigas de Carlos Bolsonaro, o filho mais próximo do presidente

8

A hora dos descontentes

Por medo da diversidade, o Leste Europeu deixou de ver o liberalismo como modelo

10

A imprevidência chilena

Elogiado por Bolsonaro e Guedes, regime de capitalização implantado no Chile tem aposentadoria média inferior ao salário mínimo