poesia

Retratos com erro

Eucanaã Ferraz
ILUSTRAÇÃO: EUCANAÃ FERRAZ

AUTOBIOGRAFIA

O tempo começa a ser contado em sua garganta
formam-se anéis entre sua biologia
e tudo o que vive fora dela.

§
Organismos antiquíssimos vêm à cena e nesta hora
o Grande Número antecedeu a todos na prática dos fogos
porque o sangue está adiante e acima de quaisquer metais
em qualidade posição importância.

§
Quando a mágica desceu sobre sua cabeça
pedras e bichos já não eram noivos
e ninguém sabia mais cantar os cantos dos campônios
que trouxeram as primeiras palavras
ainda no tempo dos cavalos.

§
Deixou a casa da infância para ir ao deserto
dançou na direção dos grandes pátios
mas o pó dos labirintos insistia nos sapatos
e seus cabelos pesavam cobertos de antepassados.

§
Mil vezes se embebedou de mel ruim.

§
Quase se fez homem mas parecia longe e triste ter de ir às guerras.
Quase foi mulher sonhava não pedir ou tomar nada ao mundo.
Não foi menina nem menino nem ao menos.
Quis mais que voltar a ser a avó paterna de seu pai
e viveu dias em que podia ver o mundo através do mundo.

§
Cumpridos os ritos da maioridade fugiu
com a gente ruidosa do teatro para não sentar à mesa
primitiva do primogênito.

§
Depois trocou tudo por espelhos.
Depois perdeu.
Depois vieram outros espelhos.
Depois se cortou.

§
Nunca foi como deve
ser um número uma série uma classe.

§
(Este romance não conta coisas ouve a voz delas
quando são imagens
e as sílabas servem para isso.)

 

LINHAS AÉREAS

Comer no avião é triste.

Só há um prato: ilusão.
A comida não existe.
Aceitamos. Mastigamos.
O som das batatas chips
quebrando-se contra os dentes
é o rádio que nos embala
com sua gordura e seu plástico.

Poucas coisas são mais tristes

do que comer no avião.
Diante da mesa retrátil
aguardamos enganados.
Tudo não passa de alpiste.
Somos pássaros de acrílico
e éramos tigres famintos
de banquetes improváveis.

Ter de comer no avião.

Pobres de nós – como é triste.
E se os mortos retornassem?
E se os deuses existissem
pisando o mesmo tapete?
O que diríamos nós
de tamanha humilhação
e do acanhado apetite?

Coca zero. Tudo zero.

Metendo o nariz nas nuvens
– nas tristes tripas de nuvem
das nuvens – comer é triste
e é nada se não comemos
estrelas ou pelo menos
um bife que se pareça
com elas – a luz! – quem dera.

FOTO

Eis o retrato sem nenhum retoque:
agora é o tempo da canção imóvel
sob a sombra do teu rosto assim quieto
o que era o sol agora é sono e tédio
o que vibrava agora é vidro opaco
agora é o tempo do verso estragado
pela ilusão de nos bastarmos nele
a madrugada se apagou na pele
o meu carinho agora é um gesto seco
é o teu silêncio que me diz é o tempo
de um céu deserto céu sem céu o certo
é fecharmos as portas esquecermos
a hora é grande agora e nos separa
por letras mortas como um dicionário
entre os teus dedos foram-se as cidades
e há muitas pedras nos meus olhos áridos.
Este o retrato sem nenhum retoque.

 

A SUA PESSOA

Minha mulher tem cabelos inabaláveis
estão cada dia mais longos são cabelos
que não param de crescer na extensão
de um giro completo de minha mulher sobre si mesma.
Irradiam-se do alto seguem pelos ombros vão nos calcanhares
e os seios se iluminam quando ela anda em modos de salgueiro.
Minha mulher cresce parece que leva uma fonte com ela.
Lavo perfumo escovo seus cabelos faço isso pacientemente
como um servo e posta sob a cabeleira radiosa assim
já não se vê o antigo rosto de minha dona é preciso adivinhar
ou recordá-lo. Essa mulher de cabelos escuros e tremendos
desde que a vi pela primeira vez nos casamos
e não paramos de avançar contra os cabeleireiros
contra o fogo contra os livros contra as leis que nos casaram.
Beijei seus cabelos quando escrevi o verso no qual começa o mundo
e será desse modo
até que o sangue me arraste para fora de suas franjas.
Cabelos de mulher. Durmo entre eles. Acordo.
Minha mulher seus cabelos e eu moramos na mesma casa.

 

JUNO

Passam helicópteros
passam automóveis
passam aviões
os refugiados
passam nas manchetes
as notícias passam
livros apodrecem
mudam-se as vontades
os relógios crescem
cortam-se os cabelos
e no entanto é junho
desde aquele dia
os lençóis da noite
retornaram brancos
já passou setembro
trinta carnavais
já lavei as mãos
um milhão de vezes
já troquei de pele
e no entanto os dias
permanecem junho
os jornais não sabem
dizem que na China
fabricou-se um tempo
em que não é junho
mas de que me servem
outubros de lata
cobertos de ouro
março abril e maio
vendem-se baratos
em caixas de vidro
nas lojas de Tóquio
entre cerejeiras
de flores perplexas
porque tudo é junho
desde aquele junho
marinheiros sabem
este é um mês escuro
os faróis se acendem
ondas trazem restos
de dezembros mortos
que não vão embora
que ficam nas praias
quebrando nas pedras
velhas ampulhetas
junho nos desertos
sempre é mais bonito
as dunas caminham
num silêncio reto
sem nenhum destino
sem saudade alguma
das chuvas caindo
sobre os calendários
nos jardins supérfluos
dos grandes palácios
ou nos vasos plásticos
dos supermercados
mesmo a flor-de-maio
converteu-se a junho
exibindo em ramos
corolas de cobre
abertas em fogo
numa primavera
que jamais se move
nunca é germinal
nunca é messidor
sempre é sempre junho
tudo está suspenso
desde aquele dia
quando o sol subia
no mais alto norte
línguas livros nada
sempre o mesmo verso
surpreendentemente
sempre o mesmo verso
deito durmo acordo
visto cem camisas
uma sobre a outra
uma igual à outra
deito durmo sonho
que me chamo junho
e que toda a vida
dura trinta dias
deito durmo acordo
sempre o mesmo susto
medo de que junho
logo chegue ao fim.

 

INCÊNDIO

Quando as luzes apagam os braços parecem imprestáveis
se em países distantes vivem os interruptores.
Os trens permanecem parados mesmo quando
movo os dedos e nas bibliotecas os filósofos se acenderam
quando Sócrates se envenenou de quem sou eu.
Pressinto ensinamentos por exemplo se o guarda-chuva
rompe ao contrário o náilon empurrado pelo vento.
Escrevo esse verso e de repente cai sílaba a sílaba
a mesma chuva de quando atravessei as montanhas
no verão passado. Coincidências me tomam de alegria
mas não sei o que significam e as enciclopédias
não explicam de onde vêm o que são
estes fósforos rápidos contra a parede-cega dos dias.
As barbas das bibliotecas crescem no silêncio
enquanto nas livrarias a fuligem acumula
nas túnicas dos melhores autores do mês passado.
Há quem leia os grandes romancistas russos
mas nem sempre estamos bem-dispostos.
A gripe é um estado de espírito do corpo.
Interruptores de hotel me irritam.
Filósofos me interruptam.
Sabedoria é um guarda-chuva que abre
ao contrário e só então o mundo funciona.
Os livros que não li talvez me compreendam
mas era preciso acordar cedo e fazer a barba
dos nomes que esqueci.
As lombadas desbotam à luz do sol.
Cigarros não deviam fazer mal.
Acontece que por vezes estamos cansados
ou temos preguiça e não queremos vestir
ou desvestir camisa alguma.
A roupa é um estado de corpo do espírito.
Os países parecem parados à noite no entanto os desertos
eu sei avançam assim como o descaso espalha seu veludo
e os grandes romancistas russos cansaram-se de mim.
Mas se não se pode fumar
pra que serve esta caixa de fósforos?

A MAIS DURA E BRILHANTE

Os diamantes desanimaram de nós.
Adeus civilizações natureza humana.
Desistiram desertaram cansaram de nosso desinteresse
de nossos interesses não suportam nosso amor-próprio não querem
outra ironia não engolem nossa negligência repugna-lhes a ideia
de sentarem-se ainda uma vez ao lado de nosso tédio
não se espantam mais com nossos desertos silenciam
frente à ineficácia de nossa exuberância desdenham nossa verborragia
dão de ombros para indecisões incêndios que lhes parecem agora
frios requintes não levam mais em conta espelhos triunfos
obras-primas cacaréus os diamantes é o que vos digo
estão fartos não se comovem mais com nossa crueldade
nossa estrela fatídica parece-lhes ridícula arrependimentos
não os convencem e ainda assim alardeamos volutas de excelência e boa vontade
mas os diamantes simplesmente desinteressaram-se
de nós nosso rancor não os adoça fuzis não os ferem
rimas soam no vazio inútil pintar de rosa nossa arrogância
cobrir de orquídeas o lixo danem-se as bibliotecas
os museus que se fodam.
Os diamantes saíram.

Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz, poeta e ensaísta carioca, lançou Sentimental pela Companhia das Letras, Prêmio Portugal Telecom de Poesia

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