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Rio emergente

A irreprimível ação humana na paisagem carioca

Claudia Jaguaribe
A favela da Rocinha, à esquerda, encontra com a do Vidigal, na Zona Sul. Ao fundo, as antigas referências, diminuídas: o Corcovado, a Lagoa, Ipanema e o Pão de Açúcar
A favela da Rocinha, à esquerda, encontra com a do Vidigal, na Zona Sul. Ao fundo, as antigas referências, diminuídas: o Corcovado, a Lagoa, Ipanema e o Pão de Açúcar FOTO: CLAUDIA JAGUARIBE

O que aconteceu no Rio de Janeiro nos últimos cinquenta anos, e continua a se reproduzir todos os dias, é tão formidável que quase não se vê.

Diante da mudança violenta e acelerada, as fotografias da paisagem carioca tenderam a oscilar entre três polos. Primeiro, no registro enaltecedor de uma população brejeira em meio a uma paisagem cálida, balneária, luxuriante. Depois, nas fotos que acumulam contrastes – entre ricos e pobres, matas e avenidas, favelas e mansões, automóveis e areia, atraso e progresso, trabalho e festa – sem superação à vista. E, por fim, há as que reduzem o Rio tão somente à decadência, à desolação, dando-lhe uma expressão dark.

A artista plástica Claudia Jaguaribe escapou dos três estereótipos. À primeira vista, as suas fotos têm algo de cartão-postal e parecem lidar com os conflitos cariocas de sempre. Mas nelas a grandiosidade não está na natureza, e sim no construído. E as velhas oposições dão lugar a uma situação na qual a cultura e o trabalho triunfaram, definitivamente. Nesse novo Rio o humano derrotou o natural; o tecido social tapou quase tudo; um povo emergiu. Civilização ou barbárie?

A nitidez impressionante, que está no todo e nos detalhes, capta a força imensa da trama urbana. O hiper-realismo põe o observador em várias partes: ele vê, simultaneamente, perto e longe, dentro e fora, de cima e na encosta dos morros. O Rio dessas fotos não existe em estado natural. Ele é uma construção. Claudia Jaguaribe tirou centenas de fotos, de helicóptero e do alto de favelas. Depois, as combinou e remontou no computador. Ela se amoldou ao seu objeto e deu-lhe um sentido.

Esse sentido é histórico, necessariamente ambíguo e semovente. As velhas referências visuais – o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Dois Irmãos, a Lagoa – estão lá, mas foram deslocadas para o fundo do quadro, diminuíram.

O Rio de meados do século passado foi destruído. Pandeiros festivos, barracões pertinho do céu, a princesinha do mar e garotas de Ipanema pertencem ao passado. Mas as fotos de Claudia Jaguaribe não reconhecem a decadência ou se conformam com a ausência de perspectivas. Não são dark, soturnas ou pessimistas: há crianças em primeiro plano, no alto.

O tema dessas fotos é épico. O que se dá a ver, com recuo crítico, é a emergência de um povo que avança mata adentro e morro acima. Que ocupa o que não é seu e o toma para si. Que ergue paredes, constrói uma laje em cima e vive dentro. É um povo pobre, vê-se, que vive na precariedade. Mas que se adensa e se espalha, soberano.

Claudia Jaguaribe

Claudia Jaguaribe, artista plástica e fotógrafa, publicou O Corpo da Cidade, pela editora Beĩ, e Aeroporto, pela Conex. Sua série de fotos do Rio de Janeiro foi publicada em livro e exposta em Madri, São Paulo e na cidade que lhe serviu de modelo.

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