poesia

Robinson Crusoé e seus amigos

Um velho exemplar que ainda guardo comigo

Leonardo Gandolfi
CRÉDITO: GIORGIA MASSETANI

Minha avó
trabalha na casa
de uma das irmãs
de Clarice Lispector

Minha mãe
ainda jovem
frequenta o lugar
e como adora livros
é convidada
por Clarice a cuidar
da sua biblioteca
uma vez por semana

Depois que minha mãe
limpa os livros
com flanela
e coloca tudo em ordem
na estante
Clarice entrega a ela
com o punho cerrado
algumas notas e diz

isto aqui Rita é para os seus supérfluos



#

Ao completar
50 anos
minha mãe
descobriu na cabeça
o aneurisma
que a tiraria de cena

Na época
mexendo em suas coisas
descobri o carimbo
que ela usava no trabalho
para assinar
relatórios e memorandos

Prestes a perdê-la
usei o carimbo
para colocar seu nome
na folha de rosto
dos livros que lia para ela
durante o coma

Depois de anos
me mudando
de casas e cidades
perdi o carimbo
e os livros que marquei
com seu nome
à exceção do velho exemplar
de Robinson Crusoé
que ainda guardo comigo

#

Entre as coisas
que minha mãe deixou
está uma série de folhas secas
que ela recolhia
de jardins e parques
quando viajava

Em cada uma das folhas
estão anotados
com tinta azul de caneta
lugar e dia
em que foram recolhidas

Sem saber muito bem
o que fazer
com essa coleção
fiz o mesmo que minha mãe
e guardei uma a uma
as folhas secas
entre as páginas
dos livros na estante

Sobraram poucas
mas mesmo assim
acabo não lembrando
onde cada uma está

Por isso às vezes
sou pego de surpresa
quando ao abrir um livro
encontro folhas secas
com a letra dela

#

Com o que sobra
do naufrágio
Robinson Crusoé
monta uma coleção
de itens indispensáveis
como pólvora
rum e o cachimbo
que ele acende agora
enquanto espera
seu fiel escudeiro
Sexta-Feira

Da minha parte
anotar todas as vezes
em que a palavra
supérfluo
aparece nos livros
de Clarice
e fazer um inventário

#

Estou há algum tempo
tentando escrever
estas memórias

Até que
madrugada passada
ao ninar Rosa
minha filha
as peças soltas
ameaçaram se juntar

Não lembro quem
mas alguém disse
que à noite
todos os poemas são cinza

Nem todos
tanto que chegou a hora
de dedicar este
a Rosa

Se estou aqui
é só para esperar
a próxima vez
em que você vai chorar
a próxima vez
em que você vai sorrir

Enquanto nem uma coisa
nem outra acontece
presto atenção
nos menores detalhes
a minha mão
junto da sua

#

Ao limpar
e ordenar os livros na estante
minha mãe
acende um ou outro cigarro
já Clarice
nunca apaga os dela

Sabe Rita
não tem nada
que me faça dispensar
os meus cigarros

Sabe Rita
gosto de fumar
até durante as refeições

Sabe Rita
agora estou treinando
fumar e dormir
ao mesmo tempo
– dizia isso rindo –
não é fumar enquanto se espera
o sono chegar
mas sim fumar e dormir
de uma só vez
nem que para isso
eu entre em combustão

Leonardo Gandolfi

É poeta e professor de literatura portuguesa na Universidade Federal de São Paulo. Publicou A Morte de Tony Bennett, pela editora Lumme

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