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Roma africana

Um passeio pela arquitetura italiana preservada em Asmará, na Eritréia

J. R. Duran
O Cine Roma foi restaurado recentemente, na tentativa (fracassada) de tornar Asmara herança cultural da humanidade.
O Cine Roma foi restaurado recentemente, na tentativa (fracassada) de tornar Asmara herança cultural da humanidade.

Da janela do apartamento número 2008 do Albergo Italia, se vê, do outro lado da rua, a Farmacia Centrale. A cor das paredes, a proporção das janelas e o tamanho da calçada dão ao viajante a sensação de ter acordado na Itália. Mas a ausência de carros e o vaivém das pessoas na rua indicam que algo está errado. A Farmacia Centrale na verdade fica na África. Ela está em Asmara, a capital da Eritréia, pequeno país à beira do Mar Vermelho espremido entre a Etiópia, o Sudão e Djibuti.

A algumas centenas de metros, há um posto de gasolina. Na parte mais alta está escrito Tagliero Fiat. Desenhado, em 1938, pelo arquiteto Giuseppe Pettazzi, o posto tem uma torre central arredondada que parece a cabine de comando de um avião. Reforçando a impressão, dois planos de concreto, suspensos como asas de 15 metros de extensão, se estendem dos lados da torre.

Diz a história, repetida em qualquer café de Asmara, que, no dia da inauguração do posto, operários se recusaram a retirar as últimas escoras das asas de concreto. Pettazzi era um homem decidido. Sacou o revólver do coldre, encostou o cano na cabeça do mestre de obras e prometeu que estouraria os miolos do homem se ele não obedecesse a suas ordens. O gesto foi convincente. Os trabalhadores retiraram os postes e, mais de setenta anos depois, as asas continuam lá, firmes.

A Eritréia tornou-se colônia italiana em 1890. Mas foi no século passado, quando Benito Mussolini decidiu que Asmara deveria ser a piccola Roma, a capital da África Oriental Italiana, que a presença italiana se tornou confronto, morticínio e ocupação, inclusive com o lançamento de gás de mostarda sobre os nativos.

Mais de 60 mil italianos embarcaram rumo à Eritréia para tornar palpáveis os sonhos do Duce. Mesmo em outros impérios europeus, a empreitada foi saudada. O romancista inglês Evelyn Waugh escreveu que “a ocupação italiana é a expansão de uma raça. A melhor comparação que se pode fazer, na história recente, é com a grande marcha dos povos americanos para o Oeste”. O resultado imediato foi que metade das terras dos nativos foi transferida para o nome dos colonizadores. No fim dos anos 30, a colônia teve 50 mil automóveis, todos na mão de italianos.

Arquitetos ansiosos para mostrar o que tinham aprendido nas escolas de Milão e Roma se sentiram livres para difundir na África os conceitos da vanguarda futurista. Mais de 500 projetos foram desenhados e construídos entre 1936 e 1941. Ergueram-se fábricas, casas de apartamentos, prédios oficiais e até bordéis (o melhor deles ficava na antiga via Lungiana e também servia como cassino; hoje abriga o Ministério do Solo, Água e Meio Ambiente).

Com a derrota da Itália na Segunda Guerra Mundial, em 1941, a Eritréia virou colônia inglesa. Cinquenta anos depois, o país ficou independente. Mas até hoje, no fim da tarde na Harnet avenue, que um dia já foi a viale Mussolini, os asmarinos se dedicam a andar lentamente de uma ponta a outra da avenida. Praticam o que os italianos chamam de passeggiata, o exercício de vaidade de ver e ser visto.

A primeira e mais antiga farmácia de Asmara vista do apartamento 2008 do Albergo Italia

Dos escritórios da Alfa Romeo restou apenas o logotipo

Para celebrar a velocidade dos tempos modernos, um prédio futurista foi feito com as formas de um avião

Interior do cinema Roma, que pode receber 1 200 espectadores. A moça sentada na cadeira ensaiava um discurso a ser proferido no Dia da Independência

A cafeteria do Cinema Odeon, em art déco

O cinema Impero, o mais luxuoso de Asmara, tem lugar para 1 800 pessoas. Escadas de mármore ligam os dois andares

Escritório do Banco Mundial em uma vila modernista

A principal avenida da cidade, palco da passeggiata

A escadaria na entrada da Prefeitura, projetada para oradores falarem às massas

Bairro italiano, onde os nativos eram impedidos de morar

J. R. Duran

J. R. Duran é fotógrafo brasileiro nascido na Espanha. Publicou os romances Lisboa e Santos, pela editora Francis

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