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Sabino vale por Sacks

Os negócios da China no troca-troca de livros em São Paulo

Fábio Fujita
ANDRÉS SANDOVAL_2011

“De quem é o 1808?”, alguém perguntou em voz alta, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista. O best-seller de Laurentino Gomes era mais um volume perdido na miscelânea de livros espalhados pelo chão. O frio de 14 graus não impediu que uma boa centena de leitores se deslocasse até o museu, carregando caixas e mochilas para participar da primeira troca pública de livros realizada em São Paulo. Para muitos, era a ocasião ideal para desovar aquela cópia intocada de O Caçador de Pipas ou o Lair Ribeiro recebido do amigo secreto da firma.

A feira foi organizada, via Facebook, por uma confraria de amigos, inspirada em iniciativas similares realizadas no exterior. A única regra do evento era não envolver dinheiro: os livros só podiam ser trocados.

A estudante Ana Julia Mezzadri, de 15 anos, estampava um sorriso de 200 dentes após concluir uma permuta. Exibia, orgulhosa, um exemplar da biografia de Tim Maia, escrita por Nelson Motta. Estava tão contente com o escambo que nem sequer conseguia se recordar qual livro oferecera em troca. A amiga que a acompanhava tentou ajudar: “Era um livro fininho, de capa preta.” Diante da dica pouco conclusiva, Ana Julia decretou: “Se eu não lembro, então acho que me dei bem.”

Os volumes trazidos pelo estudante Pedro Colucci Ribeiro, de 19 anos, não tardaram a chamar a atenção de uma das organizadoras, Luisa Cardoso, de 15. Poucos minutos de negociação bastaram para que chegassem a um consenso: Luisa levou Deixe o Alfredo Falar!, coletânea de crônicas de Fernando Sabino, e cedeu em troca Vendo Vozes, do neurologista Oliver Sacks.

Sinal de paridade dos títulos envolvidos? Nem tanto, a julgar pela avaliação de Colucci, que atribuiu a celeridade da transação à sua índole de negociante. “Tem que ter a manha”, explicou. Sua lábia não bastou, no entanto, para denunciar os limites de sua bagagem literária. O estudante tentou justificar por que decidira passar adiante seu exemplar de Deixe o Alfredo Falar!: “Não vou lê-lo tantas vezes”, desconversou. Criticado veladamente pelo desapego que manifestou em relação às crônicas de Sabino, ele ainda hesitou alguns segundos antes de admitir: “O.k., vou falar a verdade: não li o livro.”

Luisa Cardoso, por sua vez, saiu saltitante com o negócio. Garantiu que o livro obtido era um objeto de desejo desde que lera uma outra obra do escritor mineiro. Diferentemente de Colucci, ela não blefou sobre o título que ofereceu em troca. “Vendo Vozes é um ótimo livro, que fala da realidade do mundo dos surdos, tema bem relevante”, justificou. “Mas não vou ler de novo. É o tipo de livro que é até bom que circule.”

Para ela, o troca-troca serviu também como rito de passagem para a literatura adulta. Não foi sem um aperto no coração que ela abriu mão de cinco títulos da coleção infanto-juvenil Desventuras em Série. “Eu os relia todo ano”, contou, reprimindo – mas não muito – uma pontinha de emoção. “Mas acho que agora já deu. É hora de seguir em frente.”

 

As ofertas mais cobiçadas da feira de permutas literárias vieram da mochila de Paula Sposito, 18 anos, estudante como a maioria dos presentes. O evento já estava em andamento quando ela estendeu um pano branco no chão de paralelepípedos e dispôs sobre ele os livros que trouxera de casa. Bastou que ela abrisse sua banca para que os amantes da literatura clássica se acotovelassem diante do respeitável acervo, como abelhas em torno de um copo de refrigerante.

Os entusiastas do romantismo francês puderam arrematar uma edição, em estado honesto, de Os Miseráveis, de Victor Hugo. Aos admiradores da prosa americana, a pedida era Moby Dick, de Herman Melville. Quem estivesse atrás de autores modernistas brasileiros podia sair dali com um exemplar do São Bernardo de Graciliano Ramos. E se o leitor não abrisse mão de poesia, que voltasse para casa com Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

A delegada de polícia aposentada Dalva Ferreira, de 59 anos, logo tomou nas mãos e embalou no colo três daquelas preciosidades, como faria com um neto recém-nascido. Escolheu dois volumes do Nobel colombiano Gabriel García Márquez – o romance O Outono do Patriarca e os contos de Olhos de Cão Azul – e as narrativas breves de Sagarana, do iconoclasta da língua portuguesa, Guimarães Rosa.

O assombro de Dalva foi ainda maior quando soube que Paula toparia receber apenas dois livros em troca dessa trinca: o contemporâneo Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom, e a compilação de resenhas Notas Musicais, do crítico Arthur Nestrovski. “Acho que a menina saiu perdendo”, cochichou Dalva, tratando de esconder na bolsa o seu butim, como se temesse que a colega a qualquer momento percebesse a insanidade cometida.

Paula, por sua vez, também imaginou ter feito um negócio da China. Como pretende cursar história, alegou, seus interesses estão mais ligados à filosofia, à sociologia e à temática das guerras. “Não gosto de literatura, por isso estou me livrando desses livros”, contou, com mais inocência do que blasfêmia pragmática – pouco contou para ela que O Outono do Patriarca fosse uma parábola sobre abuso de poder, militarismo, nepotismo e outros objetos pontiagudos das ditaduras latino-americanas.

Por coincidência, a troca de livros aconteceu no mesmo dia, horário e local da Marcha da Liberdade, organizada para protestar contra o ataque da polícia à Marcha da Maconha no sábado anterior. Em contraste com o sossego dos que só queriam diversificar suas bibliotecas, os participantes do evento concorrente demonstravam um espírito pra lá de belicoso. Mas que não acusassem os trocadores de livros de alienação. Como se tivessem dado ouvido aos críticos apocalípticos da internet, eles haviam saído do Facebook e estavam ali para ler livros, dividindo com os marchantes pela liberdade o mesmo chão frio do vão livre do museu.

Fábio Fujita

Fábio Fujita é jornalista baseado em São Paulo.

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