questões manuscritas

Saída à francesa

Ninguém merece morrer no mesmo dia que Steve Jobs, Kennedy ou Stálin. Por isso, presta-se aqui uma homenagem pós-póstuma às celebridades mal morridas

Dorrit Harazim
Schuttlesworth, ao contrário de Prokofiev, pelo menos teve direito a flores de verdade
Schuttlesworth, ao contrário de Prokofiev, pelo menos teve direito a flores de verdade FOTO: GLENN HARTONG/ THE CINCINNATI ENQUIRER

O romeno Constantin Brancusi é, na opinião de muitos, o maior escultor depois de Auguste Rodin. Tornou-se amigo do casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade quando estes passaram uma longa temporada em Paris em 1923, no início de seu romance. Foram apresentados por Blaise Cendrars que também os apresentou a Fernand Léger e Pablo Picasso. Tarsila e Oswald não eram um casal comum, mesmo no ambiente extremamente cosmopolita da Paris dos anos 20. A crise de 1929 ainda não havia reduzido a fortuna de Oswald a pó e a beleza “exótica” de Tarsila – talvez em seu auge naquele momento – atraía para o casal todos os olhares. A fama de endinheirados e simpáticos lhes abriram naquele ano quase todas as portas do mundo literário e artístico parisiense.

Brancusi tinha reputação de ermitão, vivia no seu próprio ateliê numa ruela do 15º distrito cercado de ferramentas de trabalho e esculturas prontas, que vendia ainda com alguma dificuldade. Corria o boato de que raramente tomava banho, o que sua barba hirsuta e seu aspecto desleixado tendiam a confirmar. Mas nada disso afetava a enorme admiração que sua obra já suscitava entre os principais especialistas e alguns colecionadores mais esclarecidos.Tarsila escreveu a seu respeito que Brancusi era " um apóstolo rumaico que vive retirado do mundo criando milagres escultóricos"

A amizade com Brancusi foi reatada na segunda temporada do casal em Paris três anos mais tarde, nos meses que antecederam o casamento oficial de Tarsila e Oswald , anunciado em outubro de 1926. Nessa época, Brancusi já havia realizado algumas de suas mais famosas esculturas, entre as quais figura “O Beijo”, espécie de grande paralelepípedo de pedra sobre o qual esculpiu os contornos esboçados de um casal que se beija. Muitas das novas obras estavam destinadas a uma grande exposição que o escultor romeno faria na galeria Brummer de Nova York em novembro de 1926. Aparentemente,ao receber a participação de casamento do casal brasileiro Brancusi ressentiu-se do fato de terem deixado Paris sem se despedir dele e resolveu brincar a respeito ao enviar-lhes o catálogo da exposição cuja preparaçao Tarsila e Oswald haviam acompanhado nos meses anteriores.

Assim, no exemplar do catálogo mandado a Tarsila e que leva hoje sua assinatura no canto direito superior, Brancusi resolve homenagear o casal – não sem perder a oportunidade de cobrá-los pela falta de despedida. Brancusi, que raramente fazia desenhos em dedicatórias ou álbuns, quebra sua regra e desenha a caneta o esboço de sua famosa escultura, identificando o casal que se beija como Tarsila e Oswald. Mas não deixa de mencionar na dedicatória: “Aos recém casados que deixaram Paris como grosseirões”.

Que aquele que é talvez o maior escultor do século XX tenha querido identificar, ainda que somente neste desenho, sua mais famosa escultura ao casal brasileiro que impressionara Paris naqueles anos é um testemunho não apenas do seu afeto, como também um pequeno tributo, hoje fascinante, ao melhor momento do amor de Tarsila e Oswald. Tarsila conservou preciosamente este memento de uma de suas mais ilustres amizades e seus descendentes o venderam há vinte anos para o atual detentor.
 

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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