melodrama histórico

Sardanapalo

Babilônios cabotinos contracenarão com garbosas falanges assírias?

Zuca Sardan
IMAGEM: PEDRO DE ANDRADE ALVIM

(SARDANAPALO) – Haja paciência!… Quanto tempo faz, que, por impróvidos problemas de Estado, não podemos mais fruir, eu e minhas três dondocas, de nossos conjugais folguedos no frondoso jardim suspenso da Vovó!…

(MANDRA) – Eis que adentra em nosso luxuoso salão o General Xamor.

(SARDANAPALO, bocejão) – Que ventos te embalam, Xamor?…

(NAZDA, surdina) – Nosso crocodilo Raxar o bocou pelo pé… Qua-Qua-Quaaaa…



(XAMOR) – Ai! Meu pé, ai!, Grão Sardanapalo, Glória da Mesopotâmia, AAAI!!!

(SARDANAPALO) – Rara invocação, Xamor… Diz-me, pois, a que vens, afinal?

(XAMOR, passo um sapo pro Raxar, que sossega) – Oh, gralhas infaustas! Oh, inexorável Fatalidade!…
Nabopolassar se aproxima, com seu poderoso batalhão.

(SARDANAPALO) – Esses babilônios, vãos cabotinos!… Não podem contracenar com as nossas garbosas falanges assírias, que a teu indômito comando, General Xamor, e pra minha glória supina, conquistaram Egito, Babilônia e

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Palestina!…

(XAMOR, pigarrinho) – Bons tempos aqueles, Sardanapalo, em que luzíamos nos Médio e Próximo Orientes!… Mas, de há tantos anos bajulados pela Fortuna, nossos soldados se tornaram desleixados, devassos, beberrões…

(SARDANAPALO) – Uma vergonha, Xamor!… Oh, decadência!…

(XAMOR) – Querem te imitar, Sardanapalo!… Mas sem aquela tua elegância…

(SARDANAPALO) – Só o Rei tem direito a ser tirânico e devasso. Aos súditos, cabe o dever de se mostrarem sempre fiéis, cordatos, obedientes e… trabalhadores.

(XAMOR, suspirão) – Entretanto… enquanto conversamos, Nabopolassar…

(SARDANAPALO) – Ouço lá uma bulha… Enfim, aos soldados cabe a sagrada missão de se manterem ferozes, heróicos, e de, no fim, morrer pelo Rei.

(XAMOR) – Assim foi. Os poucos que sobraram… fugiram. E Nabopolassar…

(BARULHOS) – BRONG! BROOOOOOOOOOOOOONNNG!…

(SARDANAPALO) – O Castelo está desmoronando… Passa-me a taça, Nazda…

(XAMOR, pigarrinho) – Os persas estão forçando a porta do salão, Majestade…

(SULEIMA) – Caem paredes… CRASH!! POFF!! PAFF!!!

(SARDANAPALO) – Verte-me do tinto persa, Nazda. Belo púrpura…

(XAMOR) – A porta ainda resiste, mas os lustres desabam, os móveis dançam, as paredes racham… adensa-se a fumaceira de incêndio. Que faremos?…

(SARDANAPALO, ergo a taça) – Que nos venha o Pintor Delavigne…

(DELAVIGNE, entro com pincéis, palheta, tela, cavalete) – Salve, Sardanapalo!…

(SARDANAPALO) – Delavigne, pinta agora a minha morte nas chamas…

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(DELAVIGNE, aprumo a tela, esgrimo o pincel) – Às minhas costas, a porta da sala que o Público assedia. Ao centro da composição, tu, Rei Sardanapalo, em pose airada…

(SARDANAPALO) – Muito bem. Morrerei bebendo vinho. Mas ninguém comerá minhas viúvas. Tu, Xamor, pega a Sulaima pelo pescoço, fecha a carranca e alça o punhal.

(XAMOR, pego Sulaima, que esperneia) – Corto-lhe a cabeça, Majestade?

(SARDANAPALO) – Ainda não, deixa o Delavigne fixar o flagrante.

(NAZDA e MANDRA, corremos à volta, esbaforidas) – SOCORRO!! SOCORRO!!

(SARDANAPALO, admiro o quadro) – Excelente, Delavigne… e o Público?…

(DELAVIGNE) – O Público contempla o quadro, mas do lado de fora da tela.

(SARDANAPALO) – Ledo engano… a porta rachou, o Público já irrompe pela tela, e o teto… desaba… CAPOOOONGAAAAAAAAA… Baixa a cortina, Mandra…

Zuca Sardan

Zuca Sardan é escritor, poeta e desenhista. Publicou a comédia farsesca Babylon: Mystérios de Ishtar, pela Companhia das Letras

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