esquina

Saturday Night Fever

Aumenta o som que o prefeito vem aí

Luiz Maklouf Carvalho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

O cabo PM Joelias Paes de Andrade, um armário de 38 anos, não teria pejo algum em algemar e prender o prefeito da cidade paranaense de Cruzeiro do Oeste, 17 mil habitantes. Quase o fez na madrugada da Terça-Feira Gorda, mas o alcaide José Carlos Becker de Oliveira e Silva se comportou. “Se ele teimasse, eu algemava e levava, sem pensar duas vezes”, diz o cabo.

Não parece bazófia. Andrade é cioso da profissão e do cumprimento da lei – no caso, a que proíbe som alto em horário impróprio. O prefeito e vários amigos a transgrediram longamente. Madrugada alta, estacionaram seus carros na praça central da cidade e deixaram a música correr solta, numa farra geral. Era Carnaval, mas houve reclamações dos que queriam repouso. Andrade foi lá. “O primeiro carro me obedeceu e desligou. Quando fui no outro, o prefeito me perguntou se tinha mesmo que abaixar. Eu disse que era a lei. Se eles não abaixassem, eu estava no direito de prender. O prefeito entendeu e eles desligaram.”

O episódio ilustra um aspecto do jeito Zeca Dirceu de governar. Com a energia e o destemor dos seus 28 anos – muito patentes ao longo de 1,80m de altura -, o filho do ex-ministro José Dirceu é um festeiro contumaz. Cabelos louros, olhos verdes, solteiro e pai coruja de uma filha de 11 anos, Zeca nunca permitiu que seu cargo fosse obstáculo ao direito divino de se divertir. Faz seus folguedos na própria cidade ou em municípios vizinhos, sem maiores preocupações com o blablablá dos munícipes no dia seguinte.

Às vezes, não se trata apenas de atrapalhar o sono dos eleitores. Em fevereiro de 2005, no segundo mês de governo, Zeca dirigia o Astra oficial, num domingo à noite, quando, de repente, o carro perdeu o rumo e invadiu o canteiro do Posto Cruzeirão. “O prefeito estava bastante assustado e tremendo muito”, declarou na época o borracheiro Tião ao jornal Tribuna do Oeste. Segundo o jornal, Zeca voltava de uma festa em Tapejara, perto dali. O prefeito não fala sobre o acidente. Na ocasião, dada a boataria que tomou conta da cidade, a assessoria divulgou uma nota para explicar que, naquele final de domingo, ele retornava de Curitiba, a 570 quilômetros, onde estivera “a serviço do município”. O acidente foi atribuído à imprudência de um motorista de caminhão, que teria entrado erradamente na rodovia.



“O Zeca é jovem e tem todo o direito de se divertir”, defende seu chefe de gabinete, o atarracado subtenente da PM aposentado Iolando Honório Pereira. “Ora, se você faz a sua farra e eu faço as minhas, ele também pode fazer as dele”, argumenta, depois de ouvir uma fieira de histórias sobre as diversões do patrão.

Em março, mês em que o prefeito enfrentou um inédito dia de paralisação de professores, duas histórias de fevereiro continuavam a ocupar a cidade: a exoneração sem mais nem menos do amigo mais próximo do prefeito, Marcelo Alves, o Paranga, e um bate-boca entre Zeca e o ex-prefeito Antônio Alberto Scoparo, do PTB.

Primeiro, o bate-boca, que alguns dizem ter terminado em sopapos, com desvantagem para o atual prefeito. Era alta madrugada e 23 de fevereiro (fevereiro parece ser um mês particularmente agitado na vida do prefeito), três dias depois do episódio do cabo Andrade. Comemorava-se, no sítio do engenheiro Amílcar Cavalcanti Cabral, o regresso dos Estados Unidos do comerciante Wilson Nascimento. Nascimento foi um dos empresários de Cruzeiro do Oeste que se engajaram na candidatura do filho do então
ministro da Casa Civil. Achou que seria secretário da Indústria e Comércio do município, mas não levou.

“Era uma festa familiar, de homenagem ao Wilson”, conta Cabral. “Todos nós tínhamos bebido um pouco, e, de repente, o Zeca e o Scoparo se alteraram. Mas não foi o Zeca que provocou.” Scoparo silencia sobre a existência do pugilato e nega que tenha provocado o prefeito. Esclarece os seus motivos para o entrevero: “O Zeca acha que é um grande líder, mas não passa de um personalista que não preserva os amigos e quer tocar a coisa sozinho”, diz. Perguntado explicitamente sobre a briga, o prefeito Zeca não quis dar a sua versão.

Também se calou sobre a exoneração de Marcelo Paranga, 30 anos. Os dois eram amigos de longa data. Ainda não tinham quinze anos quando se conheceram. Freqüentavam o Cruzeiro Tênis Clube, que até hoje anima a cidade com festas às quais, sempre que pode, o prefeito não falta. Membro de família tradicional da cidade e filho de um ex-vereador de vários mandatos, Paranga não completou o segundo grau. “Eu mexo com informática e sei fazer política”, responde a propósito de sua ocupação profissional.

Com a segunda qualidade, colou-se a Zeca no dia-a-dia da campanha que o elegeria. “O Zeca é uma pessoa determinada, corre atrás das coisas, gosta de Cruzeiro do Oeste”, diz Paranga. “Tem uma certa dificuldade em ser uma pessoa espontânea, em dar um sorriso. E isso aí quem fazia bem era eu”, gaba-se.

Vencida a eleição, Zeca o nomeou para o cargo de confiança de assessor parlamentar, com salário líquido de 980 reais. Paranga os recebeu por 25 meses, até ser exonerado em 2 de fevereiro (fevereiro, fevereiro). Ele afirma que sua batata foi assada pelo chefe de gabinete Iolando Pereira, mas diz que não sabe o motivo.

“Quando vi o que estava acontecendo”, conta, “fui até o gabinete do prefeito e falei: ‘Zeca, você está percebendo que estão falando da minha exoneração?’. Ele falou: ‘Olha, Marcelo, eu estou percebendo, mas eu não vou me meter nisso não’. Dei as costas e saí. Ele ficou me ligando, mas eu não atendia. Um dia, atendi. O Zeca disse que estava magoado. Eu falei: ‘Peraí, você me dá dez facadas nas costas e vem me dizer que está magoado? Eu tive várias oportunidades na minha vida de demonstrar
que eu sou seu amigo e leal a você. Fiz ou não fiz isso?’. Ele confirmou: ‘Fez. Você é leal comigo, você é meu amigo’. Aí, desliguei o telefone e nunca mais conversei com ele.”

Iolando Pereira, o Iago da história, exibe ares de quem ganhou a parada, mas se cala a respeito das razões da desavença, contribuindo para jogar mais sombra sobre o mistério, quiçá o maior de todos, da história em curso em Cruzeiro do Oeste.

Sobre outros assuntos, não se cala. Faz a defesa, por exemplo, dos concursos públicos que a prefeitura promove. O problema é que os resultados são publicados na imprensa local apenas com o RG e o número de inscrição dos concursados, o que torna praticamente impossível saber a identidade de quem passou. “O resultado do concurso é cifrado, o que anula qualquer ética”, denuncia o vereador Nelson Toth, da oposição. Rastreando os RGs, ele descobriu que a secretária de Educação e o motorista do prefeito foram aprovados: “É uma farsa só”. Pereira não concorda: “Não vejo nada demais”.

Desde a campanha, em 2004, Zeca Dirceu não dá entrevistas a veículos da imprensa nacional. Continua a não abrir exceções. “Só estou te recebendo, brevemente, para dizer que não farei declarações”, avisou ao repórter na antesala de seu gabinete. “Não acredito que a imprensa nacional venha aqui por interesse jornalístico. Se vem, é por causa do meu pai”, declarou. “Já estou cansado desse terrorismo que só tem prejudicado a minha gestão e a minha cidade. Lá em Brasília, tem gente que tem medo até de me cumprimentar.”

Com alguma insistência, e sob a condição de não haver perguntas, aceita mostrar o gabinete. É de bom tamanho. Tem uma mesa de reunião com cadeiras de estofamento vermelho e quatro fotos: uma do sociólogo Betinho, morto em 1997, e as restantes do presidente Lula: Lula sozinho; Lula com Zé Dirceu, Zeca Dirceu e o vice-prefeito de Cruzeiro do Oeste; e Lula com Zeca Dirceu, a quem o presidente abraça e olha com carinho. “Quando foi feita essa foto?” Fiel a seu mutismo, o prefeito não responde: “A condição era não haver perguntas”.

Luiz Maklouf Carvalho

Luiz Maklouf Carvalho, jornalista, é autor de "O Coronel Rompe o Silêncio", da Objetiva, e coautor de "Vultos da República", da Companhia das Letras.

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