esquina

Saudade da mina

Super Mario quer voltar para casa

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Com os sapatos pretos recobertos pela areia fina do deserto do Atacama, Mario Sepúlveda cruza o salão do restaurante El Legado, na acanhada cidade de Copiapó, no norte do Chile. Qual um político recém-eleito, ergue a mão esquerda e acena na direção daqueles que o aplaudem e gritam seu nome: “Viva Mario! Viva Mario!” Com a direita, saúda entusiasticamente outros comensais que, celulares em punho, lhe pedem que pose para uma foto.

Desde 13 de outubro de 2010, quando foi resgatado das profundezas da terra após passar 69 dias soterrado numa mina de cobre e ouro, Mario inspira e expira fama. Ele e seus 32 companheiros de confinamento estiveram com Bento XVI, Dalai Lama e Mickey Mouse. Também conheceram a Venezuela, a Inglaterra e a China. Mario até se vangloria de serem pés-quentes: o Manchester United, time que os recebeu em casa em 2010, naquele mesmo ano passou à frente do rival Liverpool, em número de campeonatos conquistados no futebol inglês.

Quase quatro anos depois da euforia de sobreviver a um drama acompanhado ao vivo, pela tevê, por quase 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, o homem que dormiu boa parte da infância num estábulo, junto aos animais que a família criava, anuncia uma nova guinada na vida – na verdade, uma marcha a ré: “Mi amor, vou emagrecer 8 quilos e voltar às minas.”

 

Mario Sepúlveda, com não mais que 1,60 metro de altura, casado, pai de três filhos, 43 anos, é um homem de contrastes. Exibe uma semicalva no topo da cabeça e um farto cavanhaque no queixo. Usa um relógio prateado, estilo cebolão, desses que reluzem à distância, e em suas unhas ainda se incrusta uma bela camada de terra preto-acinzentada. Quando se entusiasma, não fala alto, para fora; fala mais baixo, para dentro. E foi com voz cavernosa que, na segunda semana de fevereiro, enquanto esperávamos pelo almoço, ele contou que pretende voltar ao âmago da terra.



“Nos últimos meses, fui pedir trabalho em duas ou três mineradoras. É claro que eles me conhecem. Sou bem recebido, examinam meu currículo, mas no fim não me empregam. Dizem que estou acima do peso. Como morro de saudade da minha família mineira, praticamente não sei viver sem ela, vou fazer uma boa dieta e voltar lá para baixo.”

Um terço da produção mundial de cobre se concentra no Chile, cujas jazidas rendem anualmente 5,5 milhões de toneladas do minério e são responsáveis por mais da metade de toda a exportação do país. A região de Copiapó, a mais rica em cobre, é a mais pobre em desenvolvimento humano de todo o território chileno. Em suas ruas é quase impossível encontrar alguém que não ganhe a vida em alguma atividade relacionada à produção do minério. Há quem alugue cômodos aos mineiros, quem cozinhe para eles, quem os transporte e assim por diante.

Em agosto de 2010, quando um volume de terra equivalente a um Titanic se deslocou dentro da mina San José, selando todas as saídas, Mario estava de plantão como eletricista. Em poucas horas virou o líder do grupo. Foi ele, por exemplo, quem dividiu os colegas em equipes, determinando quem se encarregava de limpar o banheiro improvisado, quem saía em busca de novas fontes de água nas galerias que ainda estavam abertas. De hora em hora, promovia um buzinaço utilizando os veículos que por lá havia. Acreditava que poderiam ser ouvidos do lado de fora. Ledo engano: a superfície estava a nada menos do que 720 metros de distância. Para cima.

Mario não vacilou quando veio à tona. Poucas semanas depois de emergir, ainda exibindo uma silhueta 12 quilos mais esbelta, desenvolveu um site próprio. E nele passou a anunciar as palestras motivacionais que vende mundo afora e a colecionar de forma quase compulsiva as notícias que a imprensa mundial publica sobre ele.

Mas o mineiro foi além. Antenado com a expansão das redes sociais, contratou uma produtora americana para cuidar de seu Twitter – @supermariochile – e do seu Facebook. Em meados de fevereiro, ele tinha 3 299 seguidores no primeiro e mais de 10 500 no segundo. Seus últimos tuítes são dedicados à promoção do filme Los 33, no qual trabalha como coordenador de figurantes. O guapo Antonio Banderas interpretará o hoje roliço Mario.

“Logo percebi que eu precisava de gente do ramo para cuidar dessa parte de internet, e aqui no Chile não tem nenhum profissional que faça isso”, diz ele. “Hoje quem responde por mim nas redes é uma linda jornalista de Nova York, e eu fico tranquilíssimo. É gente que sabe o que faz. Pode conferir.”

 

Pelo alcance de visão e a evidente capacidade de liderança, o mineiro mais famoso do Chile já foi sondado para entrar de verdade na política. Não revela, no entanto, de que partido veio a proposta. “Já disse que não disputo eleição alguma enquanto o sistema de votação deste país não mudar.”

Mario é declaradamente contra o sistema herdado do ditador Augusto Pinochet, no qual cada um dos sessenta distritos eleitorais elege dois deputados a partir da votação em listas partidárias. O resultado é que desde a democratização, há 24 anos, as cadeiras do Congresso se dividem entre as duas principais coalizões do país: a Concertação, de esquerda, agora chamada de Nova Maioria, e a Aliança pelo Chile, de direita. O modelo praticamente impossibilita a entrada de um partido menor no Parlamento, e é por isso que o mineiro se aborrece. “Explica para mim: num cenário assim, como ficam as pessoas independentes como eu?”

Nesse momento o garçom nos interrompe para anunciar os pratos do dia. A primeira opção, diz ele, é peixe branco com salada verde e batatas apimentadas. A segunda, bife de chorizo com arroz e molho de camarão. Mario se vira na direção do jovem em pé à sua direita e lança, sem hesitar, seu pedido. “Para mim, o bife, é claro. Mas traz sem o arroz porque arroz engorda.”

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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