diário

Se não melhorar, talvez eu vá dirigir um táxi

Há dois anos e meio, o cineasta carioca CHARLY BRAUN só pensa numa coisa: concluir seu primeiro longa-metragem.

Charly Braun
Passei um ano editando meu filme numa velha cadeira de vime. Acho que tenho tudo para ser um excelente diretor. Não sei fazer outras coisas na vida, e poucas me dão tanto prazer
Passei um ano editando meu filme numa velha cadeira de vime. Acho que tenho tudo para ser um excelente diretor. Não sei fazer outras coisas na vida, e poucas me dão tanto prazer FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Há dois anos e meio, o cineasta carioca CHARLY BRAUN só pensa numa coisa: concluir seu primeiro longa-metragem. Aos 30 anos, ele quase desapareceu no labirinto da burocracia estatal, do marketing privado e dos direitos musicais internacionais. A ansiedade extravasa em noitadas de muita cerveja e cigarro, o que lhe valeu uma doença no pulmão. Ele espera lançar o filme no próximo ano – com pouco dinheiro, muita vontade e nenhum pistolão

SEGUNDA-FEIRA, 1º de fevereiro de 2010_Estou finalizando o filme. Essa etapa inclui a edição das imagens e do som, a feitura da trilha sonora, a correção de cor e luz, dublagens, a transferência de imagens de digital para película e outra série de procedimentos técnicos. No final do ano, a duras penas, consegui captar algum dinheiro por meio das leis de incentivo, e temos o suficiente para pagar os custos para se chegar a uma cópia do filme em 35 milímetros. Estou animado com a perspectiva de concluir meu primeiro longa-metragem.

TERÇA-FEIRA_Passei o dia com o diretor e montador Fernando Coster, com quem dividi o árduo e longo (quase um ano!) processo de edição. Revisamos todo o filme e conversamos exaustivamente sobre as últimas mudanças feitas no corte. Agora seria a última chance de mudar alguma coisa, mas julgamos não ser mais necessário. Certa vez li que um filme não se termina, se abandona. Decidimos que esse momento chegou.

QUARTA-FEIRA_Preenchi os formulários para enviar uma cópia do filme ao Festival de Cinema de Tribeca, em Nova York. Foi lá que participei pela última vez de um festival, com meu curta Do Mundo Não Se Leva Nada, em 2007. Chove em São Paulo, pelo 43º dia consecutivo. Mas a chuva não refresca, e dormir num apartamento de último andar, sem ar-condicionado, é uma tortura.

QUINTA-FEIRA_Correndo atrás de direitos musicais. No filme, uso dezesseis músicas, e para quase todas existem dois direitos: os editoriais, que dizem respeito ao compositor, e os fonográficos, que geralmente pertencem a uma gravadora. Quanto mais conhecido o artista, e maior a gravadora, mais difícil é que deem atenção a um filme minúsculo, de baixo orçamento, e ainda por cima brasileiro-uruguaio. Ao longo da montagem já troquei cinco músicas por não conseguir sequer obter resposta dos detentores dos direitos.

SEXTA-FEIRA_Estamos inscrevendo o filme no Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA, um novo mecanismo de financiamento criado pelo governo. A ideia é boa: o estado financia parte da obra e em troca torna-se sócio, recebendo percentual sobre a renda. Como ainda precisamos captar mais da metade do nosso orçamento, acho que o FSA talvez venha a ser a nossa última esperança. Embora o filme não seja exatamente comercial, e ainda não tenha distribuidora, acho que pode interessar ao Fundo, por seus méritos artísticos. E também por não ser um “miúra”, a gíria de cinema para os filmes destinados a meia dúzia de cinéfilos. Pelo 45º dia consecutivo, São Paulo é assolada por um dilúvio. Levo quarenta minutos para chegar em casa, num trajeto que não leva mais do que dez. À noite, vou a um divertido baile de pré-Carnaval.

SÁBADO_Sou violenta e precocemente acordado ao meio-dia por um telefonema de minha mãe. Ela diz que as lojas estão em liquidação, e pede que eu vá escolher uma cadeira que ela me dará de presente de aniversário, embora faltem quase dois meses. Passei um ano editando o filme numa velha e incômoda cadeira de vime, em frente a uma mesa baixa para os meus 1,90 metro. Em casa, com o mundo caindo lá fora, escrevo mais algumas coisas para o edital do FSA. Deve ser o sexto edital em que inscrevemos o filme. Depois vou com uma turma ao CineSesc ver o filme palestino O Que Resta do Tempo. O ritmo lento, aliado à minha ressaca, logo me leva ao sono profundo. Às vezes não há nada melhor do que se deixar vencer pelo cansaço numa sala de cinema escura.

SEGUNDA-FEIRA_Vou buscar Esteban Feune de Colombi no aeroporto. Ator e escritor argentino, ele é o protagonista do filme e veio dublar as suas cenas. Deixei-o em casa descansando e fui à produtora. Consegui localizar os detentores dos direitos de uma belíssima música de cordas do Kronos Quartet. Foi uma luta já que o compositor, dos anos 30, Moondog, era um mendigo. E, sabe-se lá por quê, os direitos dele pertencem a uma velhinha alemã. Passo a tarde resolvendo pendências de produção e à noite levo Esteban para jantar.

TERÇA-FEIRA_Repasso com Esteban as cenas que irá dublar. Estou um pouco apreensivo: só temos uma diária e não sei se será o suficiente. A dublagem serve para corrigir problemas de captação de som, mas também permite melhorar a interpretação, por meio da fala. Esteban (talvez por não ser um ator profissional) não é exatamente um ás na dublagem. A maioria de suas falas sai dura, falsa. Interajo com ele sem script para que responda com naturalidade, e aos poucos sua dublagem vai ficando mais orgânica.

QUARTA-FEIRA_A caminho do aeroporto, levo Esteban para conhecer o centro de São Paulo. É impressionante como estrangeiros sempre adoram a região central. Visitamos um amigo de minha mãe que mora na cobertura de um prédio antigo e elegante na praça da República. Ele nos mostra todos os detalhes do apartamento que, segundo ele, fora escolhido por Henry Ford (financiador do prédio) para servir de residência caso a Segunda Guerra chegasse aos Estados Unidos. Fico fascinado com a quantidade de objetos que ele coleciona, e com a paixão que dedica a eles. Daria um ótimo personagem para um filme meu.

SEXTA-FEIRA_Recebi um laudo médico: “Bronquiolite causada por tabagismo.” Fiquei assustado. Decido contratar um assistente neste último mês de finalização. Não estou dando conta de tudo sozinho. À tarde, vou para casa editar um vídeo de um minuto para mandar para o Talent Campus do Bafici, festival de cinema de Buenos Aires. Depois de duas horas, faço o envio pela internet.

QUARTA-FEIRA_Carnaval no Rio. Experiência antropológica no baile do Copacabana Palace, banho de mar na Ilha Grande e almoço com meu amigo Michel Melamed. Discutimos se o filme deveria ser inscrito em festivais brasileiros. Acho difícil, por não ser falado em português. O que define a nacionalidade de uma obra? Assim como o filme, tampouco me identifico como sendo de algum lugar específico. Nasci no Rio, cresci em São Paulo, morei cinco anos no exterior, fui alfabetizado em inglês, três dos meus quatro avós eram estrangeiros e meu pai é argentino. Acho que a nacionalidade do filme é Mercosul, o que o torna brasileiro.

QUINTA-FEIRA_Tenho reunião no departamento de marketing de uma grande marca de bebidas. Como o meu filme foi feito sem concessões, jamais pensei em coisas como merchandising. Acontece que um dos personagens, um velho trovador gaúcho de 100 anos, defensor das tradições, bebe da garrafa da tal marca. Passei oito meses tentando entrar em contato com a empresa, e só consegui porque fui ajudado por uma empresária do ramo.

Empresas desse porte fazem ações de marketing gigantescas e massivas. Duvido que se interessem por algo como meu pequeno filme. Ela promete “não enrolar”, mas informa que meu caso terá de passar por todo o departamento de marketing. Mais uma vez, estou envolto em meandros corporativos.

SEXTA-FEIRA_Reviso todas as pendências musicais. Passo umas três horas ao telefone fazendo pesquisas sobre mixagem de som. Mais meia hora enviando um vídeo para um dos cantores que ainda não aprovou a sua música na trilha. Mando um DVD do filme para Ilda Santiago. Ela é diretora do Festival do Rio, no qual ganhei o primeiro prêmio importante da minha carreira como cineasta (com Quero Ser Jack White, melhor curta segundo o júri oficial). Ilda passa parte do ano indo aos festivais mais importantes. Gostaria que ela visse o filme e desse palpites. Os festivais de cinema, na maioria, têm um certo “perfil” para filmes, e se faz lobby para participar deles (o que não acontece com os curtas).

No fim do dia, faço um teste de elenco como ator para uma peça publicitária. O cachê é razoável, mas saio irritado. O assistente de direção é um bocó que acha que está dirigindo Shakespeare num comercial de bolachas! O texto é uma bobagem, fico impressionado como redatores que ganham uma fortuna podem ter ideias tão frouxas.

SÁBADO_Decidi não trabalhar hoje. Vou ao cinema ver Um Homem Sério, dos irmãos Coen. O filme é uma pequena joia. Às vezes, quando vejo uma grande obra, fico até deprimido, pensando que nunca farei nada à altura. E então me lembrei do poema “Desiderata”, do americano Max Ehrmann: “Nunca se compare com os outros, você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém superior e alguém inferior a você.”

SEGUNDA-FEIRA_Passo o dia no estúdio de som. Milagrosamente, as falas de todos os coadjuvantes estão em bom estado. Seria impossível dublar todas as pessoas do filme. Encontrei muitas delas pelo caminho, enquanto filmava. Durante toda a tarde, tenho a maçante tarefa de escolher a melhor tomada para a quase centena de falas dubladas pelo casal protagonista. Em muitas delas, apesar da quantidade, não há uma em que a interpretação me agrade. Espero que passem despercebidas. Um irritante e quase imperceptível som agudo acompanha a dublagem de Esteban. Isso me deixa preocupado.

QUARTA-FEIRA_Hoje é o último dia de correção de cor. Passo oito horas revendo o filme – nessa etapa trabalha-se sem som. Olho para as imagens satisfeito. Estou feliz com os acertos e também com os erros. O filme está bonito, o que já é um mérito. No final das contas, fizemos poucos ajustes de enquadramento, apenas um efeito especial (apagar a produtora que aparecia no meio do quadro em uma cena) e nenhum ajuste radical de cor e luz.

QUINTA-FEIRA_Passo o dia todo no estúdio de som, revisando o rolo número 1. Filmes de longa-metragem são divididos por rolos. Ao ver um filme no cinema, a cada vinte minutos, mais ou menos, uma bolinha salta no canto superior direito da tela, às vezes com um pulo na imagem. Isso quer dizer que o filme passou de um rolo para o outro.

Jantar na casa do artista Fernando Zarif. Aproveito para pesquisar novas músicas no computador dele, pois a minha trilha ainda corre perigos. Depois vou à inauguração de uma boate de outros três amigos, no centro da cidade. O céu desaba em São Paulo. A avenida Brigadeiro Luis Antônio parece uma corredeira e entrar no táxi vira uma aventura.

SEXTA-FEIRA_Curando a ressaca na feira da rua de baixo: dois pastéis, um litro de água de coco e um copo de caldo de cana. Passo o dia inteiro no estúdio de som, vendo os ambientes e efeitos. Como se trata de um filme quase documental, o som é bastante simples e, por isso, difícil. Um latido de cachorro, por exemplo, fica muito evidente, mesmo que inserido como som de fundo e baixinho.

Acho uma gravação antiga de um “peru selvagem”, conhecido como taxan. É um pássaro pouco comum, mas que abunda na região que eu frequentava no Uruguai, onde se passa o filme. Lembro que, quando saíamos a cavalo pelos pampas, minha mãe sempre pedia silêncio ao nos aproximarmos de algum lagoão, para não espantar o taxan e ouvir seus gritos.

SÁBADO_Daniel, meu assistente, um jovem com carreira promissora no cinema, estuda para entrar no Instituto Rio Branco e tornar-se diplomata. O que leva um jovem cineasta, filho de diretor, a decidir dar uma guinada dessa, deixando o cinema de lado? Estou fadado a uma vida de incertezas, apertos financeiros e lutas para contar histórias nas telas?

No meio do dia, um e-mail me anima: Ed O’Brien, guitarrista do Radiohead, viu o filme, gostou e autorizou o uso da canção por um valor simbólico. Depois de oito meses de perseguição, conseguir essa música da minha banda favorita é uma vitória pessoal. O’Brien dissipa (por ora) minhas dúvidas.

SEGUNDA-FEIRA, 1º de março_Dia tenso. Preciso decidir se adio a finalização do filme. Vou ao estúdio de som ouvir as dublagens que me incomodam. Acontece algo surpreendente: meu assistente e eu ouvimos claramente o irritante chiado agudo nas falas de Esteban, e os colegas da equipe não o escutam. Por mais que o barulho seja imperceptível para a maioria, não consigo prestar atenção em mais nada quando o ouço!

Janto com o roteirista Felipe Sholl, que me ajudou a escrever o argumento do filme. Aproveito para revisar com ele as traduções das legendas. Como é falado em espanhol e inglês (além de meia dúzia de falas em francês), é preciso ter as traduções exatas na mão.

TERÇA-FEIRA_Peço dinheiro emprestado a minha irmã para pagar o condomínio. Devo meses de aluguel à minha santa locatária, e não consigo receber parte do meu cachê por causa da dificuldade dos contadores em atender à demanda de documentos imposta pela Agência Nacional de Cinema, a Ancine – ou pelos meus coprodutores, que administram os fundos do filme, sei lá. São umas certidões negativas que não acabam mais. E minha conta cada vez mais no vermelho.

QUARTA-FEIRA_Escrevo aos patrocinadores do filme: eles prometeram no final do ano um adicional para nosso orçamento. À tarde, seguimos avançando no som. O trabalho flui cada vez melhor. Ilda Santiago finalmente me retorna. Falamos rapidamente e sinto que ela gostou do filme. Quer mostrá-lo à curadoria da Semana da Crítica do Festival de Cannes porque acha que o longa se encaixa no perfil. Que ótima notícia.

QUINTA-FEIRA_Nunca tive resposta sobre o patrocínio da marca de bebidas. Tampouco da montadora de carros que procurei no final do ano passado. Quando filmamos, achei que o carro que eu tinha na época, uma charmosa perua com dez anos de uso, cabia àquele personagem. Além disso, era o carro que tinha disponível para filmar. Resolvi procurar a montadora argumentando que o personagem poderia ter um carro mais novo, ou mais caro. Nunca recebi resposta. Fico impressionado com o descaso das pessoas, que simplesmente nem respondem.

Hoje vou ao bairro do Limão para uma reunião numa grande empresa de roupas populares. Sou bem recebido, mas sinto que será mais um “não” no meu périplo pelo mundo corporativo. O desânimo se instaura novamente. Penso que, depois desse primeiro filme, se as coisas não ficarem um pouco mais fáceis, talvez eu vá dirigir outra coisa. Um táxi, quem sabe.

SEXTA-FEIRA_Estive com o Vitor, amigo do meu irmão caçula, que produz música eletrônica. Quero que faça a trilha para uma das cenas. Passamos duas horas ouvindo algumas coisas e acho que ele entendeu o que eu quero.

À noite, outra reunião de trilha, dessa vez na produtora de um colega de escola. Ele me garantiu que podemos pegar algumas músicas – que já escolhi – e “refazê-las” com mudanças. Em música, a troca de poucos compassos e uma ou duas notas na harmonia já fazem com que não seja plágio. Decidimos fazer algo em cima de uma música de Mark Davis (pseudônimo de Fábio Jr., quando cantava em inglês, no início da carreira).

SÁBADO_Vejo um filme em cópia pirata pela primeira vez na vida: Guerra ao Terror. Um amigo me emprestou e resolvi cometer esse ato que, de certa maneira, mina minha própria carreira.

DOMINGO_Acordo com uma péssima notícia: meu filme foi recusado no Festival de Tribeca. Começo a me desesperar. Será que o filme não tem valor? Acredito nele, mas a validação de festivais é fundamental para filmes pequenos e independentes. Onde vou estrear? À noite, me distraio assistindo à entrega do Oscar. Fico feliz pela vitória de Guerra ao Terror, e triste porque o melhor filme da disputa, na minha modesta opinião, Um Homem Sério, dos irmãos Coen, saiu de mãos abanando.

QUARTA-FEIRA_Tenho dormido pouco e mal, voltei a fumar um maço por dia e minha ansiedade cresce diariamente. O filme está acabando, e com ele o longo processo de gestação, que já dura dois anos e meio. Hoje estou me sentindo um pouco combalido. Lembro-me de meu último encontro com o diretor americano Jonathan Nossiter, que se naturalizou brasileiro. Ele disse a mim e a Paulo Machline, colega cineasta: “Vocês ainda estão fazendo cinema? Claro, são jovens, eu estou ficando velho demais para isso!” Penso que nós (Jonathan, Paulo, eu e tantos outros), que fazemos esse tipo de filmes, somos como uma seita secreta de lunáticos que vivem como se não houvesse nada mais importante do que o nosso cinema.

SEXTA-FEIRA_Acordo com uma ressaca das bravas. Meu pulmão arde. Estou repetindo o comportamento que me levou ao hospital no final do ano: trabalho em excesso + preocupações financeiras + saídas regadas a álcool e tabaco. Almoço na casa da minha vizinha. Vou para o estúdio de som e a ressaca some. Estamos já na fase de mixagem, revisando todo o som com os foleys (nome que se dá aos sons que estão na tela, mas não se ouvem tão claramente, como cachorro se sacudindo, passos, barulho de roupas etc.). Exausto, à noite fico quieto em casa.

SÁBADO_Acordo depois de dez horas e meia de sono profundo e sem sonhos. Acho que a ameaça de gripe foi embora, mas tentarei não fumar. À noite, vou à Sala São Paulo ver Nelson Freire tocar Chopin, a convite de minha mãe. Saio de lá e vou jantar na casa da minha “madrinha artística”, Monique Gardenberg, que me dirigiu no espetáculo Os Sete Afluentes do Rio Ota. Duas festas e incontáveis cigarros depois, vou dormir às cinco da manhã.

DOMINGO_Ressaca de novo. Se conseguisse largar o cigarro, não passaria tão mal no dia seguinte. Encontro Gustavo Galvão, diretor que conheci na época em que íamos com nossos curtas a festivais. Está fazendo o seu primeiro longa nos mesmos moldes do meu: equipe pequena e quase nada de dinheiro. Ele quer que eu faça uma participação como ator, na pele de um cafetão argentino. Acho divertido, a iniciativa dele admirável – e topo fazer o filme.

TERÇA-FEIRA_Conseguimos pagar metade dos direitos de músicas e hoje, finalmente, recebo parte do cachê que me é devido. Havia pedido ao banco que ampliasse o limite do meu cheque especial de 2 mil para 5 mil reais. Vou ao escritório para endossar o cheque e, ao depositá-lo, me deparo com uma triste realidade: a sobra será suficiente apenas para pagar o condomínio e zerar minha dívida no banco. Só poderei receber o que falta do cachê depois que o filme estiver pronto e com todas as despesas pagas.

QUARTA-FEIRA_Passo mais algumas horas na pré-mixagem de som e à tarde reviso os documentos que a produtora Movi&Art e eu enviaremos ao edital do Ministério da Cultura, o MinC, para filmes de baixo orçamento. É um projeto antigo, anterior ao atual filme, que nunca consegui viabilizar. Um roteiro sensível sobre a chegada à vida adulta (e a São Paulo) de um jovem do interior. Penso se, passados quatro anos desde o início do projeto, aquela história ainda me move. A verdade é que gosto muito dela, tenho o filme todo na cabeça e quero fazê-lo.

À noite, começo a preparar a lista de créditos do filme. Minha maior preocupação é a falta de um bom título. O original é em espanhol, idioma predominante nos diálogos: Por el Camino. Não acho tão ruim, embora pouco original. Mas quando inscrevemos o projeto na Ancine, ela exigiu de imediato um título em português. Como havia urgência, optei pelo péssimo nome Na Estrada. Quero mudar tanto o original quanto o traduzido. Mais um fator de ansiedade.

SEXTA-FEIRA_Li a última coluna do Arnaldo Jabor. Ele escreve sobre cinema e lista os dois sentimentos mais constantes na vida de um cineasta (e que motivaram sua mudança de carreira): ansiedade e frustração. Depois diz que voltou a filmar porque a política em excesso também corrói a alma, ou algo assim. Acho que tenho tudo para ser um excelente diretor. Não sei fazer muitas outras coisas na vida, e poucas me dão tanto prazer. Mas Jabor tem toda razão: quando fazemos cinema, ansiedade e frustração vêm em pequenas doses diárias.

SÁBADO_Filmo como ator no longa do Gustavo Galvão. Como quase sempre acontece, a equipe atrasa. Tenho dificuldade em me concentrar porque uma tempestade de raios está sobre nós. Tenho pavor de raios. Rodamos a cena sete vezes, num único plano. Gustavo é muito gentil e acho que ele gosta dos cacos que adiciono ao texto. Eu me sinto um pouco “duro”, mas consegui dar características minhas ao personagem, fazê-lo de um jeito único.

DOMINGO_Acordo tarde e com preguiça. Queria ter um domingo igual ao de todo mundo, mas tenho muito trabalho a fazer. Vou comer um sanduíche com a atriz Martha Nowill, que mora no bairro. Falamos de um novo projeto que temos juntos. Depois vou à casa de um amigo, o artista Erich Baptista. Como ele também tem muito trabalho e entende de computadores infinitamente melhor do que eu, levo a minha ilha de edição para lá. Tenho que comprimir e enviar arquivos com trechos do filme para músicos na Islândia e no Rio, fazer o design dos créditos do filme e mandar uma penca de e-mails. Chego às oito da noite e saio às quatro da manhã. Ele me convence de que o título do filme deve sair do início e só aparecer no fim. Experimento e… bingo! Até o nome infeliz melhora.

TERÇA-FEIRA_Hoje completo trinta primaveras. Não estava pensando muito no assunto, mas as ligações e os lembretes no Facebook não me deixam esquecer. Sempre achei estranho o conceito de comemorar o dia em que constatamos que nos resta um ano a menos de vida. Resolvo chamar os amigos que telefonam para comemorar em uma festinha na casa da minha mãe. Meu amigo Felipe doou 100 garrafas de cerveja. Às onze e meia da noite, poucos haviam chegado. Penso que vai ser um fracasso. Mas a festa enche. Os últimos vão embora às quatro da manhã.

QUARTA-FEIRA_Na produtora, feliz e sem ressaca, checo as pendências musicais e tenho boas notícias: o pessoal da Islândia, da banda Sigur Rós, vai liberar os direitos da música. Telefono para Dalgas Frisch. Ele é um grande conhecedor de aves e preciso que ele libere o direito de uso do grito do taxan. Apenas Dalgas tem essa gravação, e ele é conhecido no cinema por processar (e ganhar) de cineastas que não o consultam (e não pagam) pelo uso de suas gravações aviárias. Muito amável, ele libera em troca de 100 reais.

À noite, encontro a produtora Sara Silveira numa estreia teatral. Conto a ela que mandei o filme para várias mostras do festival de Cannes, e recebi a resposta negativa exatos sete dias depois de ter colocado o DVD no correio. Ela me diz que, sem uma indicação, é provável que vejam apenas cinco minutos do filme. Como não tenho pistolão algum, isso me deixa seriamente preocupado.

QUINTA-FEIRA_Embarco para o Uruguai, onde mora meu pai. Consegui uma passagem barata (penso que ele me dará de presente) e não titubeei. Estou realmente estressado, não tenho parado de tossir.

DOMINGO_A viagem foi maravilhosa. Consegui dublar Hugo Arias, um ator cujas cenas estavam com o som péssimo. Editei o vídeo com meu pai. Dormi muitas horas, revi amigos da Argentina e do Uruguai e voltei cheio de gás.

TERÇA-FEIRA_Reviso as dublagens que fiz no Uruguai. A interpretação de Hugo em geral está muito boa. Mas a qualidade do som está sofrível. Culpa do precário estúdio onde gravei, numa cidade do interior. Na produtora, me estresso um pouco com a dificuldade que estamos tendo em pagar à gravadora cubana pelo uso de uma canção de Bola de Nieve. Por causa do embargo americano, o envio do dinheiro é muito mais complexo e, no nosso caso, ainda sem solução.

QUARTA-FEIRA_Acordo tarde e cansado. Estou a ponto de entrar no vermelho mais uma vez. À tarde, levo novamente minha ilha de edição para a casa de Erich, meu amigo, para finalizar os créditos do filme. Começo às quatro da tarde e saio à meia-noite. Insiro nos créditos finais o vídeo que editei no Uruguai. Fica muito bonito. Erich me aconselha a não colocá-lo no final da música, e sim no meio dos letreiros. Preferia no final, por conta da instrumentação da canção. Mas chego à conclusão, após ver dos dois jeitos, de que ele tem razão.

QUINTA-FEIRA, 1º de abril_O Fundo Setorial do Audiovisual desqualifica nosso projeto, argumentando que não pode dar dinheiro para um filme que já foi filmado. Ora, estamos conseguindo finalizar a duras penas, mas fica um lastro de dívidas. É absolutamente normal, no cinema brasileiro, que os produtores invistam, muitas vezes abrindo mão de seus cachês, para se pagarem em etapas posteriores.

DOMINGO_Decidimos não usar a música de Fábio Jr. A Universal ignorou meus pedidos de uso, e o Fábio não me atendeu para regravarmos a canção com a voz dele. Então, compusemos uma canção curta, com letra em espanhol, e eu mesmo canto. Como cantor frustrado que sou, saio felicíssimo, com tudo pronto para a mixagem final.

QUINTA-FEIRA_Último dia da mixagem. Conseguimos terminar um pouco antes do previsto. Tivemos que deixar uma cena mixada em duas versões, pois ainda não sei se o Sigur Rós vai aprovar a música – gostaram da cena, mas querem ver o filme inteiro para aprovar.

TERÇA-FEIRA_Uma amiga produtora me conta que uma colega “do meio” soube que meu filme foi vetado em outro edital de finalização porque alguém da Secretaria da Cultura tem uma rixa com meus coprodutores. Enfim, são rumores. Mas me chateia descobrir o quanto de politicagem existe até no mundo do cinema. Quando fazia meus curtas jamais tive esses problemas. Ganhei uma série de editais e prêmios sem fazer nenhum lobby. O mundo dos longas envolve mais de tudo: dinheiro, egos, interesses.

QUINTA-FEIRA_Passo a tarde inteira refazendo os créditos. Tenho que decidir o tamanho, a ordem e o tempo de duração das cartelas. Em geral, me guio pela música para saber os tempos. Para definir a ordem, dou prioridade ao “tempo de filme”, ou seja, a entrada dos nomes vem de acordo com a quantidade de tempo das pessoas no projeto, além, é claro, da importância de suas funções etc. Anunciaram hoje a seleção de Cannes. Já sabia que não havia entrado. Fico feliz com a inclusão do longa A Alegria, de uma dupla de jovens diretores do Rio.

SEXTA-FEIRA_A banda islandesa Sigur Rós viu o filme, adorou e, assim como o Radiohead, vai liberar o uso da canção por um valor simbólico. Outra boa notícia: finalmente recebo outra parcela do meu cachê. Pago duas pessoas da equipe para quem ainda devia e os meses de aluguel atrasados. Respiro aliviado. Pela primeira vez em meses não tenho que me preocupar com o fim de mês. Terei um breve sossego para concluir este filme e começar a pensar no próximo.

Charly Braun

Charly Braun é cineasta carioca

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