poesia

Se queres desaparecer, por que não desapareces?

Pedro Mexia
ILUSTRAÇÃO: ADRIANA KOMURA_2019

SEVEN DIALS

Eu jogado em 7 até não haver eu mas 7.
7 caminhos, abstracções, vidas
onde viverei contente ou esquecido.

Uma coluna fez-se pequeno deus,
comovente como as coisas inertes,
como se tivesse vozes, autoridade, intenção,
como se existisse igual aos homens
que duram menos que a fama de uma cidade.

Vás aonde fores não vais a lado nenhum,
transvaze a prazo, ínfima probabilidade
a que chamamos esperança.
Vais lírico e chuvoso em Londres,
por mundos de jovem
que em jovem não te acudiram,



admirável engano sem o qual valíamos menos
do que o chão que pisamos,
último fôlego, coragem hipotética,
alguém que se julga jogador
porque comprou uma ficha para jogar.

Topografia, mitologia, mistificação,
Seven Dials esmoreceu como cartão velho à chuva.
Porque quiseste recomeçar?, perguntas,
se queres desaparecer, porque não desapareces?

E de uma epifania, invenção, queda do cavalo,
ficou o facto de uma ideia, a tragédia e o entardecer,
a cabeça cheia de imagens quebradas
a caminho dos teatros.

 

TURNER

Turner amarrado à tempestade,
atado em cordas a um navio,
assim a minha juventude.

Como conhecer o vento se não me visse
engolido como uma vítima,
com a justeza pictórica da vítima
e a fusão da vítima com o seu algoz?

Temporária provação, quando
levantei a cabeça não havia ventos,
tempestades, não havia cordas sequer,
o próprio navio talvez fosse fantasia.

 

O AMOR

O amor, falácia patética: imaginarmos
o espírito do acaso, o alto destino dos átomos,
a vontade de transcendência, a estratégia da espécie.
Imaginarmos um sentido, um caminho, intenções.
Para que isto tudo não pareça tão pouco.

 

INTER MIRIFICA

Entre as maravilhas do mundo,
engenho de um engenho,

uns olhos intersticiais,
verde sálvia, verde água, verde bandeira,
velados, dadivosos enganos

onde uns põem a esperança
e outros um amor daltónico.

 

VOZES
[Kaváfis]

Vozes imaginadas, vozes amadas
dos nossos mortos, ou daqueles que perdemos
como se fossem mortos.
Às vezes falam-nos em sonhos;
às vezes ouve-as o pensamento.
E voltam por momentos
outros sons, a primeira poesia,
como a música à noite, distante, fugaz.

 

PAI, PAI

Pai, pai, ausência obscura,
alta esperança, conjectura,
emboscada luz, bosque escuro
que é desamparo ou futuro.

 

AUTODOLORE

É um retrato de um velho que vimos em Roma.
O futurista Balla sem entusiasmo ou futuro.
Tem os olhos de um, o cabelo do outro,
as entradas de ambos, a boca fechada.
“E este título”, disse eu ao meu pai. E o meu pai a mim.

 

A NUVEM DE NÃO SABER

A nuvem de não saber do meu pai
de lado a lado desfaz o que sabia.
Antedilúvio, ante bellum, antenuvem.

Intransmissível o meu pai transmitiu
uma indubitável presença, um indubitável fim,
zonas de sombra que a nuvem desvenda
com o brilho metálico do Inverno,
luzes confusas como uma nuvem nos confunde,

como a nuvem de não saber do meu pai
e a vontade de que alguém (a nuvem?) saiba.


A grafia adotada nestes poemas respeita as regras ortográficas vigentes em Portugal.

 

Pedro Mexia

Poeta português, é crítico literário e cronista no jornal Expresso. É um dos diretores da revista Granta em língua portuguesa

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