séries em questão

Sem herdeiros

Obra-prima da tevê, Família Soprano influenciou pouco os seriados posteriores

Alejandro Chacoff
<i>Família Soprano</i> abriu uma porta para o experimentalismo televisivo. Porém, mal essa porta foi aberta, fecharam-na de novo. O olhar contemplativo foi substituído pelo ritmo “thrilleresco”; a distância analítica, pela imersão escapista
Família Soprano abriu uma porta para o experimentalismo televisivo. Porém, mal essa porta foi aberta, fecharam-na de novo. O olhar contemplativo foi substituído pelo ritmo “thrilleresco”; a distância analítica, pela imersão escapista FOTO: ENTERTAINMENT PICTURES/ALAMY STOCK PHOTO

A certa altura da primeira temporada de Família Soprano (The Sopranos), Christopher Moltisanti, o sobrinho[1] do mafioso Anthony (Tony) Soprano, protagonista da série de tevê, aparece sentado no sofá de sua sala, com um laptop aberto e um cigarro na mão. Com uma expressão de ansiedade no rosto, fita a tela do computador – no documento Word em aberto vê-se um diálogo banal entre dois mafiosos, escrito por Christopher num inglês gramaticalmente errado. Ele pede a opinião de sua futura noiva, Adriana, sobre o roteiro de um filme que está tentando escrever. Primeiro, ela o provoca, corrigindo a gramática dele, mas logo em seguida o elogia: “Sabe, nunca vi você se dedicar tanto a algo.” Christopher se anima e conta para Adriana sobre um conhecido dele que tem contato com uma assistente de Quentin Tarantino e disse que histórias da máfia sempre vendem bem. Depois, fala de sua paixão por filmes e salas de cinema: “Aquele cheiro de carpete e de balinhas me deixa chapado.” Certo fim de semana, ele e Adriana vão a uma boate e, depois de serem barrados pelo segurança na porta, veem Martin Scorsese chegar numa limusine – o diretor entra na boate sob os olhares deslumbrados do casal.

Essa autoconsciência de operar num gênero já desgastado é uma das qualidades fundamentais de Família Soprano. Tony Soprano às vezes reúne amigos para assistir a O Poderoso Chefão. Christopher cita os diálogos do filme errado; Silvio, o braço direito de Tony, faz uma imitação terrível de Al Pacino, mas que todos acham sublime. A vinheta de abertura da série mostra Tony dirigindo pela paisagem urbana arrasada de Nova Jersey: casas decrépitas, terrenos baldios, lojinhas e comércios cinzentos. A cena evoca não só uma desromantização do gênero, mas uma decadência mais generalizada. Tony usa uma correntinha de ouro cafona no pulso e tem um charuto na boca. O seu carro é um veículo utilitário esportivo (suv, na sigla em inglês) – espécie de caminhonete muito popular nos Estados Unidos na época em que a série foi filmada (entre 1999 e 2006) e que, devido ao seu alto gasto de combustível, tornou-se símbolo da frivolidade consumista e da presença militar do país no Oriente Médio.

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Alejandro Chacoff

Alejandro Chacoff, jornalista da piauí, trabalhou como analista político em Londres

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