esquina

Sem palhaço para calçar

No Centro do Rio, um espanhol exerce um ofício em extinção

Felipe Sáles
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

As paredes empoeiradas da oficina de Ernesto Nieto são cobertas com velhos pôsteres do Flamengo, alguns do início da década retrasada. Sob um teto do qual ripas de madeira ameaçam saltar, espalham-se calçados de todos os tipos e tamanhos. O ambiente não lembra propriamente um picadeiro, mas vez por outra um palhaço pode ser visto adentrando o recinto – sempre disfarçado de cidadão comum.

Com mais de meio século de ofício, Ernesto Nieto é um dos mais antigos sapateiros de palhaço em atividade no Rio de Janeiro. Orgulha-se de ter confeccionado calçados usados nos mais reputados picadeiros do Brasil e até em circos dos Estados Unidos e da Europa, sem contar incontáveis bufões anônimos que atuam nos sinais de trânsito.

Seu Ernesto está instalado numa velha oficina na Praça da Bandeira, na região central da cidade. O saltimbanco que aparecer ali para encomendar um par de calçados vai encontrá-lo atrás do balcão, ilhado entre as montanhas de moldes de madeira pré-fabricados, provavelmente pregando um solado ou cortando uma tira de couro.

Para obter o tamanho exagerado característico de um típico sapato de palhaço, seu Ernesto primeiro mede o tamanho do pé do ladrão de mulher e depois acrescenta três dedos – ou dois números. “Corto o couro na forma determinada, cato uma espuma para enxertar no bico e costuro tudo à mão, ponto a ponto”, explicou. O toque final é uma sola de borracha com a espessura certa para permitir que o palhaço estale o calçado ruidosamente no palco.



Uma máquina de costura para o acabamento é a tecnologia mais avançada a que seu Ernesto recorre. A confecção de cada par pode ocupá-lo durante um dia inteiro. O espanhol vende por cerca de 400 reais os pares de sapato de palhaço que produz. “Cada modelo dura facilmente mais de três anos”, justificou. Desconfiado, preferiu não revelar os segredos do seu ofício. “A ciência do sapato de palhaço está no corte do couro”, sentenciou. “E mais não digo, afinal, em lagoa de sapo, mosquito não dá rasante.”

 

Ernesto Nieto nasceu em Santiago de Compostela, na Espanha, há 72 anos. Em 1956, estudava numa escola de padres quando foi expulso por assediar uma freira. Para fugir à reprovação da família, que sonhava em vê-lo de batina, foi morar escondido com a avó. Mas sua vida de fugitivo acabou durando pouco: encantado por um filme de Carmen Miranda, decidiu que queria viver no Brasil. Com a ajuda de franciscanos, solidários com suas boas notas e compreensivos com a sua vocação, juntou os trapos e cruzou o Atlântico.

O espanhol carregou muito saco no cais do porto do Rio até conseguir um serviço extra como aprendiz de sapateiro na Praça da Bandeira, onde está desde 1959. O antigo patrão, um português, voltou para a terrinha cinco anos depois e deixou tudo de herança para Ernesto.

Nas horas vagas, o espanhol gostava de copiar modelos de sapato inusitados que via nas revistas de moda. Sua carreira mudou de rumo em meados dos anos 70, no dia em que um cliente, ao resgatar o calçado que tinha deixado para consertar na oficina, viu um desses pares diferentes. O freguês era figurinista da Rede Globo. Na época, a adaptação para a tevê do Sítio do Picapau Amarelo fazia sucesso, e ele encomendou sapatos para todo o elenco.

“Daí foi um passo para começar a produzir também para o Carnaval, as turmas de teatro e do circo”, contou. Por muito tempo seu Ernesto foi o único a ocupar o seu nicho de mercado no Rio – “Até que descobriram o negócio na década de 90.” Ainda assim, a concorrência se conta nos dedos: “Tem um sapateiro de palhaço aqui na vizinhança e outros dois em Copacabana.”

Com a chegada dos concorrentes e o declínio da popularidade dos circos, a clientela para os calçados produzidos por seu Ernesto anda cada vez mais escassa. Em seu auge, na década de 70, chegou a produzir 120 pares por semana. Hoje, com sorte, fabrica quarenta por mês. Mas ele não perde a motivação com o ofício. “Embora os circos estejam rareando, tem toda a turma do teatro, que é muito grande”, afirmou. “Quando eles não têm dinheiro, nem me importo em dar um desconto.”

Ameaça maior, na avaliação do sapateiro, é a tendência dos clientes a buscar economia a qualquer custo. “As pessoas preferem pagar 60 reais por um sapato de plástico e papel que não dura nem um ano a investir num modelo sob medida e com material de qualidade”, lamentou. “Até marcas que apostam em produtos superiores estão acabando.”

Numa manhã recente, uma freguesa chegou para pegar o sapato que deixara para consertar o salto. A cliente questionou o serviço, reclamou da poeira, do preço, do tempo e do Flamengo. Tanto protestou que o sapateiro acabou baixando o preço de 40 para 10 reais. Nem assim adiantou. Só se convenceu depois que ele ameaçou quebrar o salto e deixá-lo como estava antes.

Felipe Sáles

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