ficção

Senhoras e Senhores

O que se esconde por trás de uma preleção inusitada

Álvaro Abós
FOTO: FLICKR.COM/MATTHEW KIRKLAND

– Senhoras e senhores, estejam certos de que quem lhes fala hoje não é nenhum novato no assunto sobre o qual se discorrerá na presente conferência. Muito pelo contrário. Os senhores podem ter certeza de que, dentro de sua humildade. Excluir. Podem ter certeza de que, modéstia à parte, quem lhes fala conhece o assunto. E esse conhecimento não vem apenas de especulações teóricas ou de saberes adquiridos em outra parte que não seja a pura experiência. A experiência, senhores e senhoras, é a verdadeira mãe do saber. O saber é filho do estudo. O vício é o pai do ócio. Excluir tudo a partir de experiência. A experiência, senhores e senhoras, e o trabalho constante, e a aplicação e a responsabilidade são o que fundamenta o sucesso de nosso trabalho. E o nosso, apresso-me a dizer, com toda a ênfase que os senhores me permitirem, que se trata de um trabalho delicado, mais ainda, delicadíssimo. Nosso trabalho, senhores, tem um quê de cirúrgico. E digo isso pelo requinte, pela delicadeza, pelo toque preciso, pelo movimento perfeitamente coordenado, pela importância da tarefa bem executada. Nem todos veem essa atividade assim. Isso temos que reconhecer. Muitos, infelizmente, solapam nosso prestígio. E isso é lamentável. Por quê, senhores? E existe mais de um, sim, mais de um. Digo e repito. Excluir. Não devo me exaltar nem levantar a voz.

O homem tinha uma jarra de água e uma taça sobre a mesa. Com os olhos, percorreu um auditório imaginário e escrutinou o rosto do público-fantasma.

– Mais de um deles virou meu amigo, depois. Isso aconteceu com quem lhes fala. Ficou amigo. O que se entende por amigo? Não seria aquele por quem se sente algo? Um sentimento? Ódio? Não. Ódio não. De jeito nenhum. Isso seria erro. Ódio. Se os senhores me permitirem, tentarei explicar. Se me derem consentimento, me esforçarei a explicar. Prometo. Quando ele vem, ou melhor, quando o trazem, ele já está totalmente destruído, mesmo que não tenham encostado um dedo sequer nele. E os senhores sabem por que isso acontece? Porque tudo é uma questão mental. É puramente mental. E os senhores podem comparar, mesmo que não tenha muito a ver com o que é feito na acupuntura chinesa, essa ciência milenar. Nosso trabalho é parecido. Encontrar o ponto exato. O momento preciso. A situação adequada. O receptor bem maduro, para que ele reaja exatamente conforme o esperado. O estímulo é o que menos importa. Os chineses usam uma pequena agulhada. Nós… Bom, é mental. Senhores, se quiserem saber exatamente em que consiste nosso trabalho, imaginem que precisam ir ao dentista. O senhor, meu amigo, fecha os olhos, escuta a maquininha e, mesmo que o dentista encoste em suas gengivas uma pena de pombo, o senhor dá um salto que o leva ao teto. Por isso, senhores, quando o trazem, ele já chega destruído em função de tudo aquilo que pensou, tudo que lhe contaram, tudo que imaginou, e eu posso lhes assegurar que não estou inventando. Para ele, cada palavra, cada lembrança é como uma punhalada. Para ele, esse é o pior momento. Quando o trazem. É como quando os senhores vão fazer uma cirurgia. O que pensam antes da anestesia? E se não acordarem nunca mais? E se o cirurgião cometer algum erro? E se, durante a operação, tiverem uma parada cardíaca? Então, injetam-lhes a anestesia. A realidade vai se apagando, e esse é o pior momento. Isso, senhoras e senhores, isso é igual. Quando o trazem. Em um segundo, ele é capaz de viver tudo que lhe acontecerá nas próximas horas. E, então, enlouquece de medo. Os senhores sabem o que ele faz?

Uma sombra pareceu atormentar o rosto do homem e ele levou a mão crispada à testa. Depois, levantou os olhos e os cravou num ponto distante. Eu não podia deixar de olhá-lo, tamanha a fascinação.

– Ele se concentra, aperta os punhos e fica imóvel. Adota uma postura de durão. E aguenta. Lembrem-se, senhores, de que a coisa ainda nem começou. Estamos eu e ele. E ele é um bloco hermético, um couraçado humano, me olha de maneira fixa, mas não me vê. Está concentrado. Aperta os olhos para não me ver. Já resistindo. Nesse momento, se eu quiser, mando-o embora, deixo-o sair. Sem tê-lo tocado. Sem haver dito uma só palavra. Mesmo assim, ele sairia de lá destruído! Detonado. É que ele se autodestruiu. Imaginou tudo, as piores coisas. Viveu todas elas em sua própria cabeça. Mas, senhores, me desculpem porque às vezes as divagações me afastam do tema central desta apresentação mal alinhavada. Volto à situação que estava lhes relatando. Eu e ele, sozinhos. Dois estranhos. Ele, fechado, isolado, petrificado. Imaginem, senhores, que começo a falar. Quero lhe dar um cigarro. Nada. Conto-lhe a história de minha vida. Descrevo a morte de minha mãe. Como se estivesse falando com uma estátua. Posso lhe dar dinheiro. Posso fazer qualquer coisa, e nada. Eu não existo. E sabem por que eu não existo? Porque ele não me vê, não me ouve. Só vê e ouve o que ele mesmo imagina. Aquilo que pode lhe acontecer. Então eu começo a trabalhar. Trabalho. Da mesma maneira de sempre. Ele? Nada. Sofrimento? Dor? Senhores, permitam-me que lhes pergunte uma coisa: Nunca tiveram dor de estômago? Nunca tiveram cólicas? Nunca sofreram de dor de cabeça e disseram a suas mulheres que não aguentavam mais? Quantas vezes, jogando futebol, foram alvo de uma bolada no baixo-ventre? Quantas vezes martelaram o próprio dedo? A dor, a dor, senhores, o que é a dor? As coisas, queridos amigos, são muito relativas. Há muitas histórias exageradas, e eu, permitam-me novamente o atrevimento, já estou cansado das palavras, senhores. Dedico meu trabalho a ele. E ele, então, sai de sua couraça. Porque, nesse momento, ele para de pensar. Sua cabeça fica vazia. Melhor dizendo, começa a pensar em outra coisa– no instante em que tudo aquilo vai acabar, na hora em que eu direi “basta”. Mas tudo já é diferente. Agora eu já existo para ele. Já somos dois. Eu e ele. Ele já não pode mais ficar enclausurado. Tem que me ver, tem que me sentir, tem que me observar. Pensar em mim. Em sua cabeça, ele pensa: agora já vai terminar. Por mim, me entendem? Tudo por mim. Os senhores me entendem? Ele se ocupa comigo. Existe para mim. Me pede que acabe com tudo aquilo. Mesmo que não fale, mesmo que não use palavras. Ele me pede, me suplica em sua cabeça. É algo que ele não consegue ocultar. É como se desenhasse as palavras no ar. Antes eu não existia. Agora só eu existo para ele. E, nesse momento, termino. É como quando, de repente, o náufrago vê a fumaça de um navio no horizonte. Os senhores compreendem o que esse momento significa? De repente, o condenado à morte recebe a notícia do indulto. A vida, a esperança. Eu acabo meu trabalho e ele se dá conta. Os senhores sabem o que isso significa?

 

O homem fez uma pausa. Levantou a vista por uns instantes. Fechou os olhos como se buscasse inspiração. Com a mão, fez um gesto circular. Pôs água na taça e molhou os lábios.

– Os senhores talvez estejam pensando no estado em que ele se encontra. Não, senhores, isso não tem nenhuma importância. Seria suficiente que em seus olhos houvesse apenas uma pequena fagulha. Sim, vivi este momento, meus senhores, queridos amigos, que nesta tarde compartilham comigo esses momentos inesquecíveis. Excluir. Esse momento, amigos, é sublime. E perdoem-me que empregue palavras que nunca me agradaram muito. Nesse momento estamos tão próximos um do outro… Nesse momento sinto nele… agradecimento, carinho, emoção. No fim, não foi tão terrível. E acabou. Posso lhes assegurar que nesse momento eu, que sei o que é ser pai, me sinto como um pai para ele… mesmo que ele seja muito mais velho do que eu. Vejo esse olhar úmido, essa sensação quente, esse tremor. Tem vezes que quase não suporto porque eu, senhoras e senhores, me perdoem mais uma vez o atrevimento, sou muito sensível. Sim, sensível. Nesse momento, eu e ele somos amigos. Se lhe ofereço um cigarro, ele não me olhará como se não existisse. Se converso com ele, ele me escutará. Deixamos de ser estranhos. Somos dois seres próximos, dois, e repito – mesmo que isso surpreenda os senhores e as senhoras e os faça sorrir –, somos dois amigos. E posso lhes garantir uma coisa. Não sei se há muitas outras sensações como esta. Não. Não diria que sensações semelhantes a esta sejam numerosas. Não. Uma sensação assim, senhoras e senhores, não é comum. Eu garanto.

O homem desligou a aparelhagem. Levantou-se, inclinou-se para frente e, dobrando-se como um boneco mecânico, ensaiou uma reverência. Em seus ouvidos pareciam ressoar aplausos imaginários, uníssonos, densos como um trovão. O homem juntou suas anotações, secou o suor, ajeitou o relógio no punho, olhou para um lado e para o outro como se cumprimentasse alguém com leves acenos de cabeça e murmurou:

– Quando sou convidado para fazer uma conferência, gosto de ir bem preparado…

E, tendo dito isso, veio até mim, que o havia escutado o tempo todo, sentado naquela cadeira, com as mãos e os pés atados, a boca amordaçada. Ele e eu sozinhos naquele quarto, um de frente para o outro. Dirigiu-se para mim, acendeu a luz forte que caía diretamente sobre meus olhos, me cegando. E, tomando nas mãos um instrumento perfurante, aproximou-se de mim, aproximou-se, aproximou-se, enquanto eu o olhava com espanto.

Tradução de Cristina Tardáguila



Álvaro Abós

Álvaro Abós, escritor argentino, é autor de Kriminal Tango, publicado pela Alfaguara em 2010.

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