questões médicas

Sexo, drogas e mais drogas

A pílula das mulheres e a dos homens

Thomas Hager
Centenas de milhares de mulheres já tomavam a pílula em 1960, quando ela foi finalmente aprovada nos Estados Unidos para o controle de natalidade. O uso da droga disparou o mundo
Centenas de milhares de mulheres já tomavam a pílula em 1960, quando ela foi finalmente aprovada nos Estados Unidos para o controle de natalidade. O uso da droga disparou o mundo FOTO: BETTMANN_GETTY IMAGES

Existem milhares de drogas disponíveis, mas só uma é conhecida universalmente como “a pílula”. É uma droga estranha: não alivia sintomas, como os analgésicos, nem salva vidas, como os antibióticos. O seu desenvolvimento tem raízes tanto na pesquisa médica como no ativismo social, e sua importância para a saúde não é nada perto do seu enorme impacto cultural. A pílula revolucionou os hábitos sexuais, abriu uma vasta gama de oportunidades para as mulheres e – como praticamente nenhum outro remédio conseguiu fazer – mudou o nosso mundo.

Antes da pílula, os prazeres do sexo eram quase inevitavelmente ligados à concepção. A criação da vida ainda era vista por muitas pessoas como algo relacionado tanto à esfera divina quanto à medicina. Isso não impediu que, ao longo da história, pessoas tentassem romper a ligação entre fazer sexo e ter filhos. Na China antiga, as mulheres bebiam soluções de chumbo e mercúrio para tentar impedir a gravidez. Na Grécia clássica, sementes de romã eram usadas como anticoncepcional (prática associada à deusa Perséfone, que comeu uma semente de romã quando estava aprisionada no submundo, o que a obrigou a retornar ao Hades durante seis meses por ano, gerando os meses inférteis do inverno). Mulheres europeias na Idade Média penduravam testículos de doninha nas coxas, usavam grinaldas de ervas, amuletos de ossos de gatos; experimentavam infusões e uguentos misturados com sangue menstrual; caminhavam três vezes ao redor de um lugar onde uma loba grávida houvesse urinado – tudo na esperança de impedir a gravidez. Não apenas porque a gravidez e o parto fossem as principais causas de lesões e morte entre as jovens, ou porque a gravidez fora do casamento fosse um pecado. Engravidar significava o fim da independência, uma restrição de oportunidades e o começo da responsabilidade doméstica que duraria a vida toda. Tudo que pudesse evitar isso, não importa quão absurdo, valia a pena.

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Thomas Hager

É um escritor de não ficção especializado em temas científicos

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