questões vitais

Sinais interiores de riqueza

No momento em que as lojas do varejo popular começam a vender portas blindadas e empresas de cartão de crédito se preparam para oferecer milhas na compra de proteção balística, a vanguarda do mercado de segurança são os quartos do pânico, um cofre-forte para o homem acuado 

Cristina Tardáguila
“A indústria da segurança está sempre um passo atrás da genialidade dos criminosos. Você blinda um quarto na sua casa, e eles te rendem na entrada da garagem.”
“A indústria da segurança está sempre um passo atrás da genialidade dos criminosos. Você blinda um quarto na sua casa, e eles te rendem na entrada da garagem.” ILUSTRAÇÃO: EML_6D

Três anos atrás, o curitibano Carlos Barbosa – um homem alto, louro e de cara rosada – abriu a porta de seu escritório, no 2º andar de uma fábrica em Santana do Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo, para atender um engenheiro que viera de Santa Catarina especialmente para encontrá-lo. O aperto de mão entre os dois foi curto e silencioso. O visitante pretendia ir direto ao assunto. “Estou construindo uma casa de dois andares em Blumenau, e meu cliente quer um quarto do pânico.”

Barbosa esfregou as mãos e, enquanto passava na máquina um café expresso, pôs-se a ouvir o cliente que desdobrava sobre a mesa de madeira à sua frente a planta de uma casa de seis quartos e 700 metros quadrados, projetada para sair do chão dali a poucos dias. O homem falava em nome de uma família abastada de uma cidade com fama de pacífica e ordeira. Buscava uma solução para um problema aparentemente insolúvel: o que fazer no caso de a casa ser invadida quando eles – pai, mãe e dois filhos – estivessem lá dentro. Seus nomes e o do engenheiro entram nesta história cobertos pelo sigilo, nos termos do contrato firmado horas depois.

Carlos Barbosa é fundador e presidente da Blindaço, empresa de setenta funcionários especializada no que o dono chama de “blindagem arquitetônica”. Naquela manhã, ele quis, antes de mais nada, certificar-se de que o interlocutor não buscava simplesmente uma porta reforçada para a nova mansão. “Não!”, respondeu o engenheiro. “Queremos um quarto totalmente blindado, para onde a família possa correr e se trancar se a casa for invadida.” Sem mexer um músculo da sua melhor expressão profissional, Barbosa sentiu o calor da adrenalina subir-lhe às veias. Sua empresa, na ocasião, ainda era nova, mas ele acertara o alvo: pela vigésima vez, estava diante da encomenda de um personal bunker. Hoje, já fez 50.

Por mais de três horas, a dupla discutiu os receios da família. E combinou que o cômodo mais propício a um legítimo cofre humano era no andar térreo, e, claro, o mais afastado possível da porta de entrada. Supondo que o ataque aconteceria pela frente, bastaria a família correr no sentido oposto. Não teria que subir nem descer escadas rumo à salvação.

Resolvido esse dilema estratégico, Barbosa e o engenheiro debruçaram-se sobre o grau de blindagem das paredes, janelas e da porta inviolável. Com a erudição de quem domina o assunto, o empresário explicou que, em 2005, a Associação Brasileira de Normas Técnicas e o Exército brasileiro estabeleceram regras para a utilização de blindagem em território nacional – a NBR 15 000. Esclareceu que a Blindaço só poderia oferecer aos clientes de Blumenau três níveis de proteção. “O mais simples, o nível II, resiste a até cinco tiros de pistola 9 milímetros ou Magnum 357 disparados contra uma área de 50 por 50 centímetros”, disse Barbosa, desenhando no ar o alvo geométrico com os dedos polegares e indicadores. “O nível III-A, que vem logo acima na escala de resistência, suportaria cinco tiros de Magnum 44, e o nível III aguentaria cinco projéteis de fuzil 7.62, sempre dentro desse mesmo espaço.”

O interlocutor ouviu atentamente. A coisa era menos simples do que imaginara, pois exigia fazer prognósticos a respeito do arsenal da bandidagem. “Existe um quarto padrão de blindagem, o nível IV”, acrescentou Barbosa, “mas esse só pode ser usado legalmente em obras das Forças Armadas. Resiste a cinco tiros consecutivos de fuzil .30.” Em sua sala, o empresário possui uma coleção de chapas e vidros submetidos a testes pelo Exército. Sobre um arquivo cinzento, expõe meia dúzia de fechaduras fortificadas, pedaços de trilhos maciços, por onde portas de mais de 100 quilos correriam com a leveza de uma pluma, e um arsenal de projéteis que ilustram suas advertências sobre os níveis de blindagem disponíveis para residências. Só com uma bala de fuzil .30 entre os dedos se pode entender de verdade por que o nível IV de blindagem é exclusivo das Forças Armadas. Trata-se de um pequeno obus.

O engenheiro optou pelo nível III. E passou às minúcias do projeto. A porta, semelhante à de um cofre de caixa-forte, seria em chapa de aço dupla, com mecanismo eletrônico de travas ativado por senha. Também disporia de uma tranca manual, para o caso de a tecnologia pifar. A senha teria que ser confiada a um amigo dos moradores; e uma cópia da chave, a outro. Pelo sim ou pelo não, melhor seria que esses dois amigos não se conhecessem. Uma vez trancado, o quarto do pânico só se deixaria abrir por fora na presença de ambos ou com as serras especiais da Blindaço.

Barbosa ainda quis saber se deveria furar as chapas de aço para a passagem de fios. O engenheiro respondeu que não. O sistema de câmeras que vigiaria a residência se conectaria aos monitores do quarto blindado por rede sem fio, coisa que invasor nenhum conseguiria cortar. Barbosa gostou: “Quanto menos buraco e emenda houver, melhor será o resultado do projeto.” Com o quarto do pânico, o venerando baluarte dos castelos medievais – aquele lugar inexpugnável para onde suseranos corriam para salvar a cabeça – chegou à era do Wi-Fi.

 

No Brasil, a novidade apareceu há pelo menos uma década. É, hoje, o ápice do portentoso mercado da proteção pessoal, acima dos exércitos de guarda-costas, dos quilômetros de grades eletrificadas, da curiosidade infatigável das câmeras de monitoramento e das frotas paquidérmicas de carros blindados. Serve, no frigir dos ovos, para a vítima de assalto ganhar tempo até seus seguranças ou a polícia poderem dizer a que vieram. E é o luxo mais discreto que o dinheiro pode comprar. Quem tem um tesouro desses enterrado em casa, trata de escondê-lo. Como sinal de afluência, parece ainda distante o dia em que os proprietários posarão para as revistas de celebridades em seus quartos do pânico, como posam nos banheiros.

As notícias sobre o assunto ainda são escassas. A exceção mais conhecida aconteceu na madrugada de 19 de novembro, quando a família do apresentador de televisão Silvio Santos usou os dois ambientes blindados de sua mansão no Morumbi. Pouco depois da meia-noite, o alarme de segurança da casa soou, empurrando o apresentador e sua mulher, Iris Abravanel, para um dos quartos do pânico. A filha foi para o outro e, de lá, discou para 190. Em minutos, acorreram 35 policiais, uma dezena de viaturas do Grupo de Operações Especiais e o helicóptero Águia da Polícia Militar de São Paulo. Não era nada, ou por outra, nada além de um ataque botânico: um galho caíra sobre a cerca, disparando o alarme. Não importa, os dois quartos do pânico funcionaram com perfeição.

 

No mês passado, Carlos Barbosa recebeu a piauí em seu escritório. “Aquele projeto de Santa Catarina deu trabalho”, comentou. “As paredes tiveram que ser reforçadas com concreto armado para sustentar as placas de aço. Hoje, cada uma tem 30 centímetros de espessura, um terço a mais do que as paredes comuns.”

Com a calculadora em punho, o empresário fez contas de engenheiro calculista para falar sobre o item mais complicado da obra, que acabou saindo por 300 mil reais – a instalação do teto blindado. “Cada metro quadrado do aço escolhido tinha 1,5 centímetro de espessura e pesava aproximadamente 120 quilos. O quarto tinha 6 metros de comprimento por 4 de largura. Multiplicando essa área pelo peso das chapas, descobrimos que a laje teria que suportar 2,8 toneladas.” A solução foi soldar uma dezena de colunas de ferro maciço no interior do cômodo, só para sustentar a tampa. A distância entre os pilares reduziu-se a 2 metros e, entrar ali é como ser jogado num paliteiro. “Não ficou muito bonito, mas a estabilidade da casa e a segurança do cliente estão garantidas.”

Na maior parte dos projetos do gênero, é preciso ter olhos treinados para identificar onde começa ou acaba a fortaleza. A blindagem está dissimulada nos cômodos – pode ser a suíte principal, o closet ou o banheiro dos donos da casa. Se alguém na família tiver problemas de locomoção, o quarto do pânico passa automaticamente a ser o seu.

O abrigo procura mimetizar o ambiente da residência. “As chapas de aço podem ser revestidas de qualquer cor ou papel de parede, e nós podemos até soldar preguinhos nelas para quem quiser pendurar quadros”, explica Barbosa. Num bunker que siga todos os preceitos da discrição, só se destaca mesmo o silêncio. A blindagem com vidros grossos e aço maciço abafa o ruído exterior em até 70%.

O preço de um quarto do pânico básico, capaz de pôr a salvo pelo menos uma pessoa por até três horas, tempo que as empresas do ramo consideram suficiente para a polícia de São Paulo chegar ao local de um crime, varia entre 50 mil e 500 mil reais. A diferença fica por conta da metragem a blindar, da resistência das placas e, principalmente, dos penduricalhos que prometem a cura da paranoia pelo banho de loja – loja de aparelhos de segurança, esclareça-se. Aí, não há limite para os gastos.

Pode-se embutir nas paredes sensores antiarrombamento que, ao menor abalo estrutural do prédio, acionam um alarme na central de vigilância. Ou investir num sistema eletrônico que, do regaço de seu bunker, dispara pela casa bombas de fumaça – um gás semelhante aos dos extintores de incêndio que atrapalha a visão. Para os que temem ataques químicos, nada como um sistema de ventilação movido a dois exaustores, um para empurrar ar fresco para dentro, outro para expelir o ar contaminado. Máscaras de oxigênio e sprays de pimenta são, no mínimo, bons passatempos para as três horas de confinamento, aguardando socorro. Os mais previdentes não dispensam nem tabletes de iodeto de potássio, contra riscos de radiação nuclear.

 

Em 2003, um homem casado, de aproximadamente 50 anos de idade, pai de dois filhos e dono de um terreno de 10 mil metros quadrados em Mogi das Cruzes, nos arredores da cidade de São Paulo, procurou Barbosa com planos espetaculares na cabeça. Queria garras de tigre na porteira de sua propriedade. Trata-se daquelas lâminas levadiças que, ao sair do chão, dilaceram os pneus dos carros que tentam furar sua barreira. E pagaria o que fosse preciso para ter em cada dependência da casa uma câmera speed dome, que grava o que acontece à sua volta em varreduras de 360 graus. Girando com as câmeras, armas. Tudo isso controlado do quarto do pânico por joysticks, como nos jogos de guerra virtuais. Por fim, sonhava também com um alçapão de 4 metros de profundidade no corredor, capaz de engolir três pessoas ao mesmo tempo. Antes que encomendasse “uns jacarés”, Carlos Barbosa convenceu-o a se contentar com o máximo possível – a blindagem convencional, nível III.

Para ser considerada legal, toda essa parafernália exige o registro da empresa na Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército Brasileiro, e do projeto no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura. Apesar do controle, não há estatísticas oficiais sobre a proliferação de quartos do pânico no Brasil. Nem mesmo a Associação Brasileira de Blindagem arrisca um palpite nesse número. No barato, estima-se que haja 500 bunkers só na cidade de São Paulo.

Ao contrário dos donos de carros blindados, que anunciam seus investimentos em couraças ambulantes com adesivos pregados nos para-brisas, os donos de quartos do pânico costumam escondê-los até dos vizinhos. Ainda relativamente raros, eles são um inconfundível atestado de opulência. Quem tem quarto do pânico tem dinheiro. E, se não dá para entesourar dentro dele tudo o que se possui, pelo menos as joias da família e alguns maços de dólar cabem sem grandes apertos. Disfarçar seu bunker é uma precaução extra para salvar os anéis depois de garantir os dedos.

Em Los Angeles, terra de mansões explicitamente cinematográficas, é praxe das imobiliárias só revelar ao comprador a existência e a localização do quarto-cofre depois que cai no banco o dinheiro da entrada, selando a transação. No Brasil, cláusulas de sigilo, redigidas como labirintos jurídicos por advogados de clientes e fornecedores, protegem informações vitais sobre esses contratos, sob pena de processo. Como, então, traduzir em números o sucesso da masmorra privada?

Ainda com a calculadora em punho, enquanto aguardava o segundo cafezinho da tarde, Carlos Barbosa não deixou por menos: “A blindagem arquitetônica é um mercado que ainda vai explodir no Brasil. Pode usar esse verbo, explodir.” Alegou que a Caixa Econômica Federal acabava de liberar empréstimos para casas lotéricas do país, facilitando-lhes a blindagem em 48 prestações. “Há pelo menos 5 mil lotéricas interessadas. Cada projeto custará, no mínimo, 30 mil reais. Só aí movimentaremos 150 milhões.”

Barbosa nunca estudou segurança. Formou-se em economia. Entrou no ramo da blindagem com um empurrãozinho do pai da namorada, que o contratou para trabalhar como gerente comercial de sua blindadora, assim que o candidato a genro se mudou, aos 23 anos, para São Paulo. O emprego durou até a lua de mel. Em Paris, Barbosa abraçou a mulher e contou-lhe que, assim que voltassem, largaria a firma do sogro para abrir sua própria empresa. Queria crescer, justificou-se. Assim nasceu a Blindaço, cujo faturamento passou em três anos de 300 mil para 12 milhões de reais. Em 2009, a firma virou referência nacional por ter blindado as vidraças do Palácio do Planalto. Carlos Barbosa quer mais. Joga todas as fichas no vigor econômico da insegurança nacional. O vento está soprando a seu favor. O Suplemento de Vitimização e Justiça da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2009 divulgado pelo IBGE revelou que um em cada cinco brasileiros se sente inseguro mesmo dentro de casa.

O empresário tem faro para levantar as pistas do medo coletivo. Na manhã de 22 de fevereiro do ano passado, depois de acessar o site de notícias G1 pelo computador de casa, pegou o telefone e discou às pressas para o escritório. “Deve ter muito pedido hoje. Caprichem no atendimento.” No alto de seu monitor, lia-se a manchete: “Quadrilha faz arrastão em prédio residencial de Higienópolis.” A intuição funcionou. Naquela segunda-feira, a Blindaço receberia 25 telefonemas, duas vezes mais que a média semanal. A maioria das ligações vinha de Higienópolis. “Os compradores de quartos do pânico se dividem entre aqueles que foram assaltados ontem e aqueles cujos vizinhos foram assaltados ontem. E o timing da venda tem que ser preciso. Não podemos deixar que o assunto saia da lista de investimentos prioritários.” Assim, sempre que recebe a encomenda de uma porta blindada, pergunta: “Mas, e a janela? E a porta dos fundos? Não adianta fazer só a entrada social.” Conversa vai, conversa vem, a Blindaço conquista mais uma casa.

 

Em 2003, o Instituto Futuro Brasil entrevistou 5 mil moradores da capital paulista para saber quantas famílias já haviam investido em equipamentos de segurança domiciliar, fossem eles grades, trancas especiais, sistemas de alarme, armas ou cães de guarda. A blindagem, secreta e rara, ficou fora da enquete. Mas, na amostra, uma em cada vinte residências já dispunha de algum tipo de proteção. Na classe A, a média chegava a uma em cada dez casas.

No fim do ano passado, de olho naquilo que enxerga como a popularização dos blindados, Barbosa acertou uma parceria com a firma de materiais de construção Leroy Merlin. A partir de 2011, venderá portas blindadas nas vinte lojas da rede. A princípio, elas terão medidas padronizadas – 70, 80 ou 90 centímetros de largura por 2,10 metros de altura – e serão resistentes a pistolas 9 milímetros e Magnum 357, o que corresponde ao nível II na escala da ABNT. Contarão com um dispositivo antiarrombamento, com onze pinos de aço que penetram mais de 3 centímetros no batente da porta, igualmente blindada. Suas dobradiças serão reforçadas, para que os gonzos não empenem. Virão com quatro acabamentos – dourado, cromado, branco ou acetinado. A porta pesará 100 quilos, mas terá molas para tornar seu movimento tão macio que até uma criança poderá abri-la e fechá-la. A instalação será feita por pessoal treinado pela Blindaço. No total, custará 4 200 reais, parcelados no cartão de crédito.

“Aqui na empresa, nós já parcelamos compra de projetos blindados de até 50 mil reais em dez vezes sem juros no cartão Visa. E, em breve, o American Express dará milhas a quem comprar conosco”, prometeu Barbosa, inclinando-se na cadeira diante da mesa de reunião. “A ideia é o cara comprar duas portas por dez paus, pagar em dez vezes de mil reais e, no fim do ano, ir esquiar em Portillo, no Chile, com passagem aérea de graça.”

O sonho da blindagem popular chegou em 2008, quando a multinacional DuPont lançou no mercado de São Paulo um produto que custa e pesa menos da metade do processo tradicional. Por 19 mil reais parcelados, a classe B pode revestir seus carros com uma malha idêntica à dos coletes à prova de bala. Sem nenhuma lâmina de aço, o sistema DuPont Armura pesa 90 quilos – o mesmo que colocar mais uma pessoa no carro – e não desgasta pastilhas de freios nem amortecedores. O produto tem apelo suficiente para que a DuPont o anuncie na tevê.

Vinícius de Luca, um paulistano de sotaque carregado que trabalha como diretor comercial da Vault, a principal concorrente da Blindaço, vê o futuro ainda mais perto. Em dezembro, sem erguer os olhos do computador à sua frente, disse que o quarto do pânico ainda é coisa para poucos. Mas a porta blindada – que, se for instalada num closet sem janelas, vira uma espécie de bunker popular – é como cozinha planejada. “Todo mundo quer ter uma.”

De Luca mora numa casa com duas portas blindadas. Conta que as instalou não só por vendê-las, mas para atender a mulher. Dentro de alguns meses, o casal se mudará para um condomínio cercado e vigiado. Mas as portas irão junto. “Minha mulher não abre mais mão delas. É que a blindagem se incorpora com muita facilidade ao comportamento humano. Quem tem não fica mais sem.”

Em 2007, a Vault, sediada numa silenciosa rua do bairro de Santo Amaro, na periferia de São Paulo, recebeu uma média de cinco pedidos de porta blindada por mês. Em 2008, o número pulou para dez. No ano seguinte, para vinte. No início de dezembro de 2010, já havia ultrapassado os 31 pedidos por mês. Criada por quatro sócios – De Luca e mais três engenheiros – a empresa tem o único placar disponível da disputa entre a blindagem arquitetônica e a violência urbana. Até hoje, nenhuma de suas portas blindadas ou quartos do pânico passou por uma prova de fogo. Como sabe disso? “Quando uma chapa ou um vidro blindado são alvejados, devem ser substituídos, seja por uma questão estética ou por uma questão balística”, disse De Luca. A Vault nunca trocou nenhuma peça.

 

Sentado numa sala VIP do Aeroporto de Congonhas, o consultor de segurança Nilton Migdal não se surpreendeu com a informação. Enquanto tirava do alto das costas uma pesada mochila de náilon, disse em tom de piada que a indústria da segurança está sempre um passo atrás da genialidade dos criminosos. “Você blinda um quarto na sua casa, e eles te rendem na entrada da garagem.” Com o dedo em riste, defendeu uma versão 2.0 dos quartos do pânico. “Como a maior parte dos arrastões em edifícios de São Paulo começa com a rendição do porteiro, precisamos transformar as guaritas em cockpits. Elas teriam cama, banheiro, alimentação e telefone.” Sua proposta é trancafiar os porteiros lá dentro por toda a jornada de trabalho, comunicando-se com o mundo exterior através de interfones e de guichês passa-documentos blindados. “Assim, não haveria rendição.”

Ele ainda acha que é possível ir além. Acrescentou que poderia implantar uma bateria de câmeras na porta das guaritas, para que toda vez que elas se abrissem a central de vigilância acompanhasse o movimento do porteiro. “Coibiríamos o conluio e diminuiríamos o tempo de ação.” Seus argumentos para defender essa ideia incluem um disparo contra o calcanhar de Aquiles dos quartos do pânico: eles são tão herméticos que nem mesmo os bombeiros conseguem invadi-los.

Em dezembro de 1999, dois homens armados com facas invadiram o apartamento do banqueiro Edmond Safra no principado de Mônaco. Brasileiro naturalizado, aos 68 anos de idade ele era dono de uma fortuna estimada em 2,5 bilhões de dólares. Quando o alarme soou, Safra refugiou-se no banheiro da suíte com a enfermeira Viviane Torrent. Era ali seu quarto do pânico. Para desalojar a família, os criminosos puseram fogo no apartamento. Os bombeiros levaram três horas para apagar o incêndio e chegar ao compartimento blindado. Safra e a enfermeira, a essa altura, estavam mortos, por asfixia. Trancadas num quarto comum, sua mulher, Lily, e a filha Adriana escaparam.



Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)