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A solidão de Padre Cícero

Juazeiro do Norte fecha templos e proíbe romeiros

Felipe Azevedo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

Padre Cícero José da Silva retirou a pequena escultura em gesso de Nossa Senhora das Dores do altar a céu aberto e caminhou até o limite da Colina do Horto. Do ponto mais alto de Juazeiro do Norte, no Ceará, ergueu a imagem da padroeira do município e abençoou a população. O rito aconteceu perto de uma estátua muito maior, de 27 metros de altura, que representa o padre mais famoso do Nordeste, Cícero Romão Batista, “padrinho” e fundador da cidade.

Era 4 de abril, véspera do Domingo de Ramos e início de uma Semana Santa estranha em Juazeiro do Norte, uma das localidades com maior afluência de romeiros do país.

Cerca de 200 mil pessoas costumam visitar a cidade nessa época, segundo a igreja local. Os fiéis aproveitam a data para pagar promessa junto ao monumento a Padre Cícero e rezar em outros locais de culto. O Centro também fica cheio de gente vinda de diversos estados, que transita para lá e para cá entre centenas de vendedores ambulantes e pedintes.

Naquele dia, entretanto, cerca de quinze pessoas apenas, incluindo os religiosos e os músicos, acompanhavam a bênção na Colina do Horto.

 

Desde 23 de março, quando a prefeitura proibiu a entrada de romeiros em Juazeiro do Norte, por causa do novo coronavírus, os espaços religiosos ficaram desertos e as ruas perderam grande parte do movimento.

A decisão da prefeitura veio na sequência de um decreto do governo estadual que mandou fechar o comércio, restringir a circulação das pessoas e interditar hotéis no Ceará, um dos estados mais atingidos pela Covid-19. Até 29 de abril, havia 7 409 pessoas infectadas e 450 óbitos nas cidades cearenses.

Uma semana depois da proibição, comerciantes informais em Juazeiro do Norte tentaram voltar ao trabalho e montaram barracas nas calçadas, à espera dos romeiros, que não apareceram. Um veículo do Corpo de Bombeiros passou a percorrer a cidade, transmitindo mensagens que pediam às pessoas que ainda continuavam nas ruas para retornarem às suas casas. O município de 275 mil habitantes tinha, até 29 de abril, dez casos confirmados de contágio e vinte em investigação, conforme a Secretaria de Saúde.

A ausência dos romeiros coloca desafios à igreja e aos lugares de culto. No Horto do Padre Cícero, é a doação dos peregrinos que ajuda a pagar o salário dos 35 funcionários – seguranças, agentes de limpeza e guias, dentre outros. Com os portões fechados, a administração do local teme o pior. “Estamos reforçando a campanha para os nossos 4 mil afilhados, pessoas que fazem doações online em todo o Brasil ao longo do ano. É a nossa esperança durante o período de quarentena”, disse Francisca Maria Santana do Nascimento, gestora do Horto há dois anos. “O que mais entristece é que os romeiros não poderão pagar promessas, uma falta injustificável para muitos deles. Recebo ligações todos os dias de gente querendo saber até quando isso vai durar.”

Também não veio ninguém ao aniversário de Padre Cícero, em 24 de março, quando a cidade prepara um bolo de 100 metros de comprimento para ser oferecido durante a festa religiosa (neste ano, tudo foi cancelado). O religioso nasceu em 1844 e morreu em 1934. Foi sepultado na Capela de Nossa Senhora do Socorro, outro lugar de peregrinação dos romeiros, pessoas que são fáceis de serem identificadas no frenesi habitual das ruas: além de andarem em grupos, costumam portar um chapéu de palha – adereço que é marca registrada do “Padim Ciço”, que nunca largava o seu.

 

“É uma pena”, lamentou o padre Cícero José da Silva, reitor da Basílica Menor do Santuário de Nossa Senhora das Dores. “O que aconteceu vai ficar marcado na nossa mente para o resto da vida. Somos acostumados a ver a praça cheia.”

Silva, que tem 45 anos e usa lentes grossas, é chamado em Juazeiro do Norte de “vigário dos romeiros”. Como ele, ao longo do ano todos os padres são anfitriões dos 1,6 milhão de peregrinos (nos cálculos da Secretaria de Turismo e Romaria), nas várias festas religiosas, como as romarias de Nossa Senhora das Candeias – de 29 de janeiro a 3 de fevereiro – e de Finados – de 29 de outubro a 2 de novembro.

Após o decreto do governo estadual, o bispo da Diocese de Crato, dom Gilberto Pastana, divulgou uma nota em que orientava todas as igrejas a fecharem as portas e celebrarem missas sem a presença de fiéis. As celebrações agora são apenas quatro por dia, transmitidas pela internet. A confissão foi suspensa por tempo indeterminado, e as reuniões dos religiosos passaram a ser feitas por videoconferência.

“Basta fazermos o máximo para não nos tornamos transmissores da enfermidade que assola o mundo, a salvação se dá pela permanência em nossas casas”, disse Silva na homilia da Sexta-Feira Santa, no púlpito da basílica sem fiéis. Os bancos da igreja estavam cobertos com as bandeiras dos nove estados do Nordeste, representando os romeiros isolados em casa. Ele completou seu sermão de dez minutos lembrando o Padre Cícero: “O padrinho sempre respeitou a vida.”

A bênção na Colina do Horto foi um raro momento em que o padre Silva saiu à rua. Ele e mais quatro religiosos estão isolados na casa paroquial da basílica, erguida no mesmo local onde, há 145 anos, Padre Cícero mandou construir uma igrejinha. Naquela época, Juazeiro do Norte ainda se chamava Joaseiro e era uma pequena vila com 32 casas.

Outros padres que vivem no prédio anexo à basílica também estão em quarentena. Acostumados a rezar e comer juntos, eles agora fazem as refeições mantendo distância uns dos outros e passam a maior parte do tempo em seus quartos, sozinhos.

Felipe Azevedo

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