esquina

Sorriso corrompido

Cidade no interior paulista espalha homenagens ao empresário J. Hawilla

Allan de Abreu
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

A estátua de bronze, de cerca de 1,70 metro, mostra o empresário J. Hawilla já idoso e calvo, trajando um terno sem gravata e sorrindo. É um sorriso farto, que deixa ver seus dentes e produz um enxame de rugas na face, ampliando o aspecto kitsch, para não dizer sinistro, da estátua – o que levou alguns maldosos a compará-la à imagem do Coringa, o vilão das histórias de Batman.

A inauguração ocorreu em 11 de junho passado, na Praça J. Hawilla, construída em São José do Rio Preto (SP) pelos filhos do empresário – Stefano, Renata e Rafael. Quem retirou o pano azul-turquesa que cobria a escultura foi Eliani Menezes Hawilla, viúva do empresário, morto em 2018, após ser acusado de corromper dezenas de dirigentes ligados ao futebol pelo mundo e enfrentar um calvário nas mãos do FBI. Ao lado da família, o prefeito Edinho Araújo (MDB), ex-ministro no governo Dilma Rousseff, gravou um vídeo em que diz: “É o momento de se fazer justiça, de escrever na história e deixar para sempre o nome de um grande rio-pretense.”

Hawilla foi o protagonista da operação Fifagate, a maior investigação contra a corrupção no futebol da história. Com o escândalo, a família do empresário, acostumada a frequentar as colunas sociais paulistas, submergiu. Agora, tenta resgatar a influência, ao menos na cidade paulista de quase 500 mil habitantes, onde possui vultosos empreendimentos imobiliários – seu patrimônio chega a 500 milhões de dólares, na estimativa do próprio Hawilla à Justiça norte-americana.

José Hawilla ganhou o epíteto Jota quando trabalhava como radialista. Em 1980, comprou a Traffic, especializada em publicidade em pontos de ônibus em São Paulo, e a transformou em uma empresa de marketing esportivo. Na década seguinte, para obter contratos de publicidade e direitos de transmissão de torneios de futebol na tevê, aceitou pagar propinas milionárias a dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). Acabou estendendo o esquema corrupto para as Américas Central e do Norte.

Em 2013, foi preso pelo FBI em Miami e tornou-se delator. Confessou os crimes de extorsão, obstrução de Justiça, fraude eletrônica e lavagem de dinheiro, gravou cartolas às escondidas e aceitou pagar uma multa de 151 milhões de dólares. “Eu me arrependo muito e peço desculpas pelo que fiz”, disse no tribunal em Nova York, em 2014.

Debilitado por uma grave doença pulmonar, Hawilla foi autorizado pelo governo norte-americano a retornar ao Brasil em fevereiro de 2018, antes mesmo de seu julgamento. Morreu três meses depois, o que levou à extinção da ação penal que respondia nos Estados Unidos e eximiu a família de quitar a multa milionária. Dos 25 milhões de dólares pagos pelo empresário ao assinar o acordo de colaboração (uma espécie de garantia da multa de 151 milhões), 16 milhões retornaram às mãos de Eliani em 2020. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal acabaram arquivadas, pois as leis brasileiras não criminalizam atos de corrupção entre entidades privadas, como a Traffic e a CBF.

 

A estátua e a praça não são as únicas parcerias dos Hawilla com Araújo. Em abril do ano passado, o prefeito encaminhou à Câmara Municipal um projeto de lei batizando o anel viário do município, obra de 35 km de extensão e 55 milhões de reais, com o nome J. Hawilla. Segundo a assessoria de Araújo, a iniciativa partiu dele, e não da família.

Na justificativa para a escolha do nome, o prefeito exaltou a “trajetória profissional brilhante” de Hawilla, que “dedicou sua vida à sua família e ao trabalho, deixando um legado de desenvolvimento e realizações”. Logo que a Câmara aprovou o projeto, pórticos com o nome do homenageado foram instalados pelo anel viário. E outra vez os maldosos vieram a campo, nas redes sociais, para rebatizar a via como “Marginal J. Hawilla”.

Em agosto de 2020, uma reportagem de doze minutos no jornal do meio-dia da TV TEM, afiliada da Rede Globo controlada pelos Hawilla, tratou do anel viário. O prefeito apareceu falando por um minuto e entregando miniaturas do pórtico à família. Desde então, a emissora parou de fazer reportagens críticas à gestão de Araújo. “Com gestos assim, ele acabou cooptando tanto a tevê quanto a imprensa toda da cidade”, disse o vereador João Paulo Rillo (Psol-SP). A assessoria do prefeito nega que as homenagens prestadas a Hawilla tenham influenciado a cobertura jornalística de sua gestão. Procurada pela piauí, a família do empresário não quis se pronunciar.

 

Ao saber da escolha do nome de J. Hawilla para o anel viário, o estudante de direito rio-pretense Leonardo Lopes Rodrigues, 22 anos, ficou espantado. “Há dezenas de outras pessoas da cidade com um currículo exemplar que mereciam essa homenagem no lugar de um sujeito que enriqueceu à custa de muita corrupção no futebol”, afirmou. Em fevereiro passado, Rodrigues – que diz não ter filiação partidária – ingressou com uma ação judicial pedindo a retirada do nome e argumentando que a Lei Orgânica Municipal proíbe o batismo de bens públicos com o nome de condenados em crimes de corrupção: “Fica evidente que qualquer homenagem a esse senhor, especialmente a denominação de logradouro público, além de ilegal, afronta a moralidade administrativa.”

A Procuradoria-Geral do Município rebateu as acusações. Disse que a lei orgânica sofreu modificações e que “foi confessada [por Hawilla] a prática dos crimes de formação de quadrilha, extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça, mas não houve qualquer referência ao crime de corrupção”, como escreveu o procurador Ângelo Azevedo de Moraes. Num lapso, ele estica além da conta o rosário de crimes confessados por Hawilla: o empresário não admitiu o delito de formação de quadrilha.

Provocado pela Justiça a se pronunciar sobre o caso, o Ministério Público concordou com a procuradoria. “É relevante ponderar que o homenageado não teria praticado crimes contra servidores ou bens públicos, nacionais ou estrangeiros”, afirmou o promotor Sérgio Clementino, que é próximo de parte do secretariado do prefeito. À piauí, o promotor não quis se manifestar.

Em maio, o juiz da 1ª Vara da Fazenda Pública de São José do Rio Preto, Adilson Araki Ribeiro, negou o pedido do estudante, com o argumento de que o Judiciário não pode invadir as competências dos demais poderes. Além disso, conforme o magistrado, a retirada do nome de J. Hawilla do anel viário seria factível “somente se fosse algo esdrúxulo aos ‘olhos do homem médio’”, o que, segundo ele, não é o caso. Rodrigues prepara recurso ao Tribunal de Justiça.

Allan de Abreu

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: a Rota Caipira e Cabeça Branca, todos publicados pela editora Record

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