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    Joan Sutherland tinha pouca paciência para as frivolidades das divas, mesmo sendo uma delas FOTO: LA FILLE DU REGIMENT_1966_ERICH AVERBACH_HULTON ARCHIVE_GETTY IMAGES

despedida

Técnica e disciplina divinas

Media 1,76 metro, pesava quase 100 quilos, usava um corte de cabelo que saiu de moda no início dos anos 70. Abria a boca e virava A Estupenda

Homero Velho | Edição 50, Novembro 2010

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Logo nas suas primeiras aparições em público, a soprano Joan Sutherland recebeu na imprensa o apelido de A Estupenda. Nenhum profissional do canto lírico – em um ambiente controlado tiranicamente por toda sorte de prima-donas – protestou. Ao morrer, no mês passado, aos 83 anos, o apodo hiperbólico adquirira força substantiva. E, pelo menos dessa vez, o velho clichê foi verdadeiro: a morte da australiana Joan Sutherland marca o fim de uma era da ópera.

Embora não tivesse o apelo popular de um Pavarotti – a quem muito ajudou no início de carreira –, a importância histórica de Joan Sutherland para o canto lírico só encontra paralelo, no século passado, em Maria Callas. Ao lado de La Callas, Sutherland foi responsável pela redescoberta do bel canto – o canto bonito, gênero operístico no qual a voz reina suprema. Nele, a voz vale mais que qualquer atributo físico ou cênico. Isso fez com que as grandes divas fossem julgadas tão somente pelo som que emanava de seus pulmões. Não importava se eram obesas ou feias. Ou se o diretor imaginara tal ou qual cenário, figurinos opulentos ou minimalistas. No bel canto o drama cênico se apoia na melodia vocal, a veracidade da ação cai no palco para um plano secundário.

Se as óperas do gênero são permeadas por cenas de ataques de loucura e outras improbabilidades reais, a intenção era proposital. Os devaneios serviam de pretexto para o compositor inventar melodias elaboradas, cheias de notas agudas, escalas impossíveis, e arpejos improváveis – só para serem executados pela prima-dona. Se Callas foi responsável por resgatar as peças do bel canto, e por mostrar que elas poderiam ser dramaticamente convincentes, foi Joan Sutherland quem estabeleceu o padrão de como deveriam ser cantadas.

 

O mundo a descobriu em 1959, quando interpretou um dos papéis-título mais difíceis do repertório italiano, a Lucia de Lammermoor, de Donizetti. Ao final, foi ovacionada por quase meia hora pela severa plateia do Royal Opera House de Londres. Dois anos depois, fez seu début em Nova York, onde alcançou a fama definitiva.

No início da carreira, Sutherland pensava em se tornar uma soprano wagneriana. Dotada de uma voz de muita potência, teria facilidade em se destacar entre os sons da orquestra – mais altos e densos do que os executados nas óperas italianas.

Foi o maestro Richard Bonynge, seu professor, pianista e futuro marido, quem percebeu a sua enorme facilidade em executar todas as appoggiature, acciaccature, trilli, mordenti e outros nomes italianos para coisas dificílimas de se fazer com a voz. “Você tem duas escolhas”, disse-lhe Bonynge, “ser uma cantora wagneriana comum, ou tornar-se a maior soprano coloratura que já existiu.”

Ela escolheu a segunda opção e a ópera mudou para sempre. Mudou inclusive o passado da arte lírica. Rossini, Donizetti e Bellini ascenderam ao panteão dos grandes compositores, e têm hoje lugar na programação das casas de ópera, porque Joan Sutherland os trouxe para a modernidade. Sem uma cantora de seu nível, o repertório deles poderia ter sido relegado à condição de curiosidade histórica. Na voz d’A Estupenda, eles entram para o cânone da arte lírica.

Ouvir Sutherland pela primeira vez é uma experiência única. É quase irreal imaginar que aquele som seja produzido pelo corpo humano. Sua voz é forte, mas aveludada. Ela tem a precisão do ataque, a pureza do som, a clareza das notas rápidas,  a intensidade nas lentas, e um tamanho descomunal, capaz de ir da nota mais grave até a estratosfera vocal em um átimo de segundo. É o resultado de uma genética milagrosa, aliada a anos de estudo disciplinado.

 

Como tudo que, em arte, abala o estabelecido, o talento de Sutherland também foi contestado. Conservadores acusavam-na de ter uma dicção obscura e indistinta. De fato, a soprano às vezes sacrificava vogais, mas não porque não conseguisse pronunciá-las. Ela buscava outra coisa, um efeito: atingir uma continuidade sonora sem interrupção entre as vogais que, muitas vezes, também eram modificadas para alcançar um timbre mais homogêneo.

Outra restrição comum dizia respeito a sua postura aparentemente fria e indiferente no palco. Comparada a Callas, que era em cena um maremoto de emoções, Sutherland tinha algo de contido e, talvez, de mecânico. De sangue escocês, criada na rigidez da igreja presbiteriana, nunca escondeu que o que a interessava era a simplicidade. Para ela, cantar – e cantar muito bem – já compreendia todo o drama intrínseco à música. Não fazia parte de sua personalidade se exaurir no palco como as heroínas que representava.

Curiosamente, muitos consideram a técnica esplêndida e sua frieza cênica como as responsáveis por uma das carreiras mais longevas da história da música lírica recente. Foram elas que teriam permitido que sua voz funcionasse com precisão por tanto tempo. Foram mais de quarenta anos de glória.

Parte da emoção de ser ver uma ópera é conferir se os cantores honrarão as notas e os timbres de seus papéis. Com Sutherland, essa equação era inversa: ver uma de suas récitas era saber de antemão que ela superaria as dificuldades de qualquer papel; a beleza era ver como ela faria a superação.

Ela raramente decepcionava seu público. Foi uma profissional com pouca paciência para as frivolidades das divas, mesmo sendo certamente uma das principais delas. Não saía em colunas sociais ou revistas de fofoca, não frequentava festas pós-récitas, tratava bem os fãs, era gentil com os colegas. Para quem foi uma superstar em uma época em que cantores de ópera – com La Callas à frente – apareciam na televisão, mandavam na programação dos teatros, humilhavam colegas e exibiam em público uma vida privada tumultuada, Sutherland foi, estranhamente, estranha.

Hoje, quando divas que posam de vestido decotado, aparecem em anúncios de perfume, fazem poses sensuais para capas de revistas especializadas e soltam a voz de qualquer jeito em estádios,Sutherland continuaria a parecer estranha. Ela media 1,76 metro, pesava quase 100 quilos, exibia um prognatismo gritante e insistia em usar um corte de cabelo que saiu de moda no início dos anos 70. Ao cantar, virava diva.