esquina

Telecandidato de fé

Russomanno usa tevê como catapulta eleitoral

Plínio Fraga
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Nenhum concorrente à Prefeitura de São Paulo apareceu tanto na tevê aberta este ano quanto Celso Russomanno, pré-candidato pelo Partido Republicano Brasileiro. Só no primeiro trimestre, foram 201 minutos no ar. Segundo levantamento encomendado por piauí, seu tempo de exposição foi quase o dobro do que tiveram seus principais adversários – o tucano José Serra, que apareceu durante 122 minutos, e Fernando Haddad, do PT, 98 minutos. Do tempo de Russomanno na tevê, 92% correspondem a suas aparições na Record, emissora controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus, da qual o PRB de Russomanno é uma espécie de braço político.

O candidato comanda diariamente o “Patrulha do Consumidor”, quadro do programa Balanço Geral, transmitido no início da tarde pela Record. Apresenta ainda um programa semanal de entrevistas na CNT e está diariamente à frente de uma atração vespertina da pouco conhecida Rede Brasil, que transmite em UHF para mais de 500 municípios. A legislação permite que os candidatos que trabalham na tevê permaneçam livremente no ar até 7 de julho.

Na última pesquisa realizada pelo Datafolha, no início de março, o nome do PRB apareceu com 19% das intenções de voto, atrás apenas de Serra, com trinta pontos percentuais. A participação em pleitos anteriores ajudou a tornar Russomanno conhecido, mas é a grande exposição na tevê que o catapulta. Na prática, o apresentador-candidato faz campanha quando está nas ruas, de microfone na mão em cadeia nacional.

De câmera ligada, Russomanno entrou na estação Ana Rosa do metrô paulistano seguido por uma equipe da Record numa manhã de março. Trajava terno escuro, camisa azul com as iniciais bordadas e abotoaduras douradas no punho. A produção da “Patrulha do Consumidor” recebera a dica de que o elevador para acesso de deficientes não funcionava havia um mês. Já no subsolo, após ouvir o relato de uma cadeirante, ele afetou indignação enquanto brandia o Código de Defesa do Consumidor: “Isso é crime!” Ao vivo, ligou para a polícia. Quando, dez minutos depois, chegaram quatro policiais, disse: “Chamei vocês aqui para prender em flagrante o responsável por cometer crime contra o consumidor no metrô.”



Diante das câmeras, o assessor de imprensa do metrô tentou explicar que o elevador estava quebrado, na verdade, desde a noite anterior e que o conserto já havia começado. Russomanno o interrompeu bruscamente: “Tenho depoimento dessa cadeirante. Vocês compram elevador porcaria, fazem licitação vagabunda.” O funcionário tentou contestar, mas mal foi ouvido.

Feito o espetáculo, a polícia deixou o lugar depois que funcionários prometeram resolver o problema em até 24 horas. No ar, o apresentador deixou um número de celular com a deficiente e pediu que ligasse caso o elevador parasse de novo. Virou-se para a câmera e soltou seu bordão: “Está bom para ambas as partes? Por enquanto, está. Mas vou voltar aqui.”

O telepopulismo de Russomanno tem DNA malufista. Em 1977, aos 21 anos, entrou no serviço público. Em 1979, conseguiu um cargo comissionado no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, então ocupado por Paulo Maluf. Notado por seu trabalho no Detran, onde cuidava dos pedidos de políticos como o então vice-governador José Maria Marin, foi chamado para ser “assistente de direção na divisão de transporte da chefia de gabinete do governador”. Sua função, segundo ele, consistia em “fazer a parte de relacionamento da Casa Civil com a polícia, passaporte, licenciamentos e certidões”. O trabalho era menos pomposo na evocação de seu padrinho político: “Ele levava e trazia papel para lá e para cá, era office-boy do Calim Eid”, contou Maluf, referindo-se a um antigo aliado político. Russomanno e Maluf romperam relações depois da última eleição.

Graças a seus relacionamentos no Detran, Russomanno conheceu o ex-vice-presidente Aureliano Chaves, de quem foi assessor em duas ocasiões nos anos 80. No final daquela década, começava a se tornar uma personalidade pública. De dia, militava como presidente da Juventude do PFL. À noite, começava sua carreira na tevê como colunista social no Circuito Night and Day, da TV Gazeta. “Eu era concorrente do Amaury Jr. e do Otávio Mesquita”, rememorou.

Uma tragédia pessoal redefiniu o rumo de sua carreira em 1990. Numa noite de sexta, Adriana, sua mulher,começou a vomitar e sentir dores pelo corpo. Levada a um hospital particular, foi medicada e internada, mas piorou e foi para a unidade de tratamento intensivo com um quadro de infecção generalizada. Russomanno foi para casa e voltou ao hospital com uma câmera portátil.

Começou a filmar a agonia da mulher enquanto questionava a demora do atendimento e a falta de médico no hospital. Adriana morreu na noite de sábado. Uma semana depois, o Circuito Night and Day foi notícia em todos os jornais, quando Russomanno exibiu trechos de seu drama familiar. “O hospital pediu um acordo e pagou uma indenização dez anos depois”, disse.

A partir do registro da morte da mulher, Celso Russomanno virou paladino dos direitos do consumidor. Foi convidado por Silvio Santos a integrar a equipe do Aqui Agora e, três anos depois, disputou pelo PSDB sua primeira eleição. Foi o deputado federal mais votado do Brasil em 1994, com mais de 230 mil votos. Elegeu-se para a Câmara outras três vezes, mas foi derrotado na única vez em que concorreu a um cargo do Executivo – ao governo do estado, em 2010. Nessa ocasião, aliado do governo federal, fez um acordo informal com a candidatura petista de Aloizio Mercadante e passou a campanha atacando o tucano Geraldo Alckmin – o que tende a repetir agora, contra José Serra.

O pré-candidato não vê fundamento na alegação de que sua candidatura vive da exposição na Record. “Há muitos casos de pessoas que estavam na tevê e não foram eleitas”, disse. “Minha intenção de voto é retorno do meu trabalho.”

Plínio Fraga

Plínio Fraga foi jornalista de piauí entre 2011 e 2012.

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