poesia

Tempo de cinco sentidos num só

Gostaria de ter ido também à França e ao Canadá, não tanto pelos destinos, tampouco pela mala, e sim para ter estado mais com ela

Leonardo Gandolfi
ILUSTRAÇÃO: RODRIGO VIEIRA RIBEIRO_2012

As rodinhas batendo nas pedras portuguesas
mal colocadas fazem a mala de mão que arrasto
tombar ora para um lado ora para outro na rua.
A mala é verde e já viajou para Argentina França Canadá
Ouro Preto. A mala agora não está abarrotada
mas pesada, isso aumenta o efeito da irregularidade
das pedras portuguesas mal colocadas pela última obra
que trocou, sabe-se, as tubulações de gás no bairro.
Dos quatro destinos enumerados acima
só usei a mala em dois, Argentina Ouro Preto.
Nos outros quem a utilizou foi a outra dona da mala,
aliás ela foi aos quatro destinos a que a mala também foi.
Só agora vejo, eu gostaria de ter ido também
à França ao Canadá, não tanto pelos destinos tampouco
pela mala e sim para ter estado mais com ela.
Fizemos boas coisas juntos eu e a outra dona da mala
bebíamos juntos ouvíamos música juntos dormíamos
juntos e até 10 minutos atrás morávamos juntos.
A mala tem mais ou menos as dimensões
permitidas para uma bagagem de mão
60 cm de altura 20 de largura 30 de comprimento
e é verde e agora tomba de um lado para o outro
enquanto eu a arrasto ao longo da rua Pinheiro Machado
Rio de Janeiro. A rua Pinheiro Machado ultimamente
tem visto suas calçadas serem abertas para troca, sabe-se,
das tubulações de gás no bairro. As pedras portuguesas
recolocadas às pressas e portanto mal colocadas
fazem a mala de mão verde – cinco pares de meias
três calças jeans duas bermudas dezenove cuecas
onze camisas dois livros um desodorante – tombar
ora para um lado ora para outro enquanto caminho.
As pedras portuguesas mal colocadas fazem a mala
tombar ora para um lado ora para outro enquanto,
sabe-se, caminho na direção do ponto de táxi mais próximo.

Antes do táxi
o caixa eletrônico, senão nada feito.
O caminho é longo, não vai sair barato
sob nenhum ponto de vista.
R$ 80,00 está bom? penso comigo.
Sim, está bom, responde Sansão,
meu valente coelhinho de pelúcia,
você não tem mais unhas para roer
você não tem mais desculpas para dar
você não tem mais para onde ir,
diz ele. Dinheiro em mãos
atravesso a recapeada rua
esperando a mala não tombar mais.
Engano meu, as rodinhas quanto
mais velozes mais instáveis. Resultado,
a mala não só tomba para o lado
como dá meia-volta sobre si mesma.
Já é tarde, menor o fluxo de carros,
melhor assim, menos um problema
– chegar ao outro lado são e salvo
por pouco e por enquanto porque lá me espera
um táxi cujo motorista deve ter oitenta anos.
Talvez ele só trabalhe no escuro quando
menos gente o vê mas também quando ele,
que já não deve ver direito, vê menos ainda;
e eu rio disso, o coelhinho em questão também.

Nenhuma surpresa, o velho é surdo ou quase,
não entende quando digo para onde vou
não entende quando digo está quente no táxi
não entende o quanto tenho me sentido mal,
em relação a esse último mal-entendido
a culpa de não ter ouvido não foi dele
a culpa de não ter ouvido foi minha, nada falei.
E quando ele entende meu destino
toma o caminho errado. E eu rio de novo.
Sim, estão falando por aí, a situação é promissora.
Primeira tentativa – senhor, o túnel é pra lá.
Segunda – senhor, o túnel é pra lá.
Terceira – senhor, o túnel…
O.k., Leonardo, ele já entendeu, está fazendo
a volta, nisso, quase bate em dois carros
e eu fico sem saber qual o seu forte: ver ou ouvir.
O senhor pode abrir um pouco a janela? (repetir 3x)
Claro que pode. Assim está bom… senhor,
assim está bom… senhor? Não, Leonardo,
ele vai abrir a janela toda e agora é sem retorno.
Vento na cara penso – ótimo. Mas, certeza covarde
de que ele nada ouviria, digo – merda.
E é assim que, finalmente me vem a sensação
de que, como diria Augusto de Campos, tudo está dito.

Leonardo Gandolfi

Leonardo Gandolfi, poeta carioca, publicou A Morte de Tony Bennettpela editora Lumme. 

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