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Terror na rede

Um pioneiro dos livros de suspense no Brasil prospera na internet

Carlos Adriano
ILUSTRAÇÃO DE ANDRÉS SANDOVAL

No quarto ano do ensino primário, a professora de Rubens Francisco Lucchetti perguntou a ele e seus colegas: “O que vocês querem ser quando crescer?” As crianças desfilaram as profissões de praxe: engenheiro, médica, advogado… Quando chegou a vez de Lucchetti, ele cravou: “Vou escrever livros e histórias para o rádio, o cinema e os quadrinhos.” A professora sorriu, mofando do tamanho da ambição. Ele insistiu: “Farei isso tudo.” E, de fato, fez. “Até um ponto que não pensava chegar”, diz o escritor nonagenário, por telefone, de seu condado em Jardinópolis, cidadezinha no interior de São Paulo.

Pioneiro da literatura de terror, suspense e sobrenatural no Brasil, Lucchetti publicou 1 547 livros e escreveu inúmeros roteiros e histórias em quadrinhos. É um dos autores mais prolíficos do país, a ponto de o jornal The New York Times ter-lhe dedicado em 2014 uma reportagem com o seguinte título: A Human Pulp-Fiction Factory Becomes a Cult Hero (Uma fábrica humana de pulp fiction torna-se um herói cultuado).

Cansado, porém, de enviar originais para editoras e receber ríspidas recusas (que ele coleciona numa pasta), Lucchetti desistiu das publicações e optou por “deixar tudo para o caso de aparecer algum interessado”.

No começo de 2014, os interessados apareceram. Dois sócios da futura Editorial Corvo o visitaram, querendo lançar logo uma coleção. Lucchetti achou que aquilo não passava de mais uma promessa. Dois meses depois, para sua surpresa, tudo se confirmou. Os editores só fizeram uma exigência: “O senhor tem que ter Facebook.” Ao que ele respondeu: “Trabalho com máquina de escrever.”



Lucchetti achou que eles se referiam a notebook, pois nem sabia da existência da tal rede social. Acabou criando sua página no Facebook, e os fãs começaram a aparecer. Para o escritor, a internet como plataforma de lançamento de livros parecia um negócio além da imaginação. Mas ele logo se adaptou, passando a vender ali suas obras publicadas pela Corvo. A remessa chega ao leitor com um brinde especial: um autógrafo.

“Escrevi milhares de livros, mas a maioria é coisa desprezível, que fiz para sobreviver. Tanto assim que, outro dia joguei tudo fora. Só guardei a lista dos títulos e algumas capas”, diz Lucchetti. Dos cem livros que guardou, 27 já foram reeditados pela Corvo, 16 deles na Coleção R. F. Lucchetti, como O Museu dos Horrores e Longe da Luz, que seria o último a ser publicado.

Mas o sucesso da empreitada estimulou a editora a continuar. Em 2021, estão previstos quatro livros, como Luz, Câmera… e Morte! e A Maldição de Ravena. “Todas essas histórias estão entrelaçadas, com personagens circulando entre elas. É como se os livros fossem pedaços de um quebra-cabeça que só estará montado no final de tudo”, conta o escritor.

Seria natural que a editora de seus livros aludisse à ave emblemática de Edgar Allan Poe, o gênio do mistério e do macabro, um ídolo incondicional de Lucchetti. A Corvo assumiu os custos de produção e edição das obras, cujos lucros são divididos com o autor. “A editora possibilitou que meus livros, aqueles que eu prezo, pudessem ver a luz do sol. São esses livros que têm me impulsionado a viver”, diz Lucchetti. “Além disso, é a primeira vez que ganho dinheiro com eles.”

 

Rubens Francisco Lucchetti nasceu em 29 de janeiro de 1930, em Santa Rita do Passa Quatro, no estado de São Paulo. Quando tinha 3 anos, sua família mudou-se para a capital e se instalou no bairro da Lapa. Aos 12 anos, ele publicou seu primeiro conto, A Única Testemunha, no jornal O Lapiano. Em 1952, lançou o primeiro livro, por conta própria, Música Secreta. Precisou esperar mais uma década para ter um trabalho publicado por uma editora. As histórias reunidas pelo escritor em Noite Diabólica foram enviadas à editora Outubro como meras narrativas para serem adaptadas aos quadrinhos, mas acabaram virando uma coletânea de contos, lançada em 1963 e ilustrada por Jayme Cortez, um dos pioneiros das HQs no país.

Sobre o fascínio pelo terror e o sobrenatural, Lucchetti divaga: “Não sei explicar, talvez me atraiam por causa das minhas primeiras leituras, como O Gato Preto, de Poe, talvez pelo tema da reencarnação.” Criado numa família batista, ele adotou o “espiritualismo”, na sua expressão.

Lucchetti enumera seus três livros preferidos, entre os vários que escreveu. O primeiro é O Mistério de Mary Rogers, gestado há 25 anos e republicado em abril passado pela Corvo. “É a história confusa de uma moça confusa”, define. O segundo, Cinco Bonecas de Olhos Vazados (2017), com os personagens Poe e Lucchetti, ambienta-se no mundo da moda e da noite eletrônica de Berlim e será relançado em janeiro. Seu terceiro romance predileto também sairá em 2021: O Crime do Colar de Moedas Romanas, publicado “todo mutilado” em 1972 como Confissões de Uma Morta. O livro foi completamente reescrito.

Sempre na ativa, o escritor prepara agora O Legado de Eden Havev e, em parceria com Marco Aurélio Lucchetti, História de Salem. Não é o único trabalho que vem fazendo com o filho de 59 anos. Os dois escrevem ainda o roteiro As Mortas-Vivas, que Lucchetti define como “um retrato do Brasil”. Mas adverte: “É um roteiro para ser lido e não para ser filmado.” E por quê? “Minha experiência em cinema foi a pior possível.”

Lucchetti é frequentemente associado ao criador do Zé do Caixão, José Mojica Marins, para quem escreveu histórias em quadrinhos e roteiros, como os dos filmes O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968) e O Despertar da Besta (1969). A relação entre os dois, porém, não foi das mais amenas. “Para mim, o Mojica foi uma decepção”, conta. “Se pudesse voltar atrás, eu não teria feito nada para ele.” Mais feliz foi a parceria com Bassano Vaccarini, com quem Lucchetti realizou filmes experimentais de animação entre 1960 e 1962. Mesmo assim, é categórico: “Não quero que nenhum dos roteiros que estou escrevendo seja filmado.”

O Brasil de hoje lhe causa pavor, tanto quanto no passado. “O que aconteceu aqui nos anos 60 e 70 foi assustador. O Brasil sempre foi assustador – e ainda é.” Quando indagado por que não ambienta seus livros no país, ele responde: “Porque o Brasil é uma grande palhaçada. Só consigo falar daqui ao escrever roteiros de filmes, pois o cinema também virou uma palhaçada.”

Carlos Adriano

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