despedida

Tesouro perdido

Extinção de plantas supera a de animais

Maurício Tuffani
O Havaí é a região que mais perdeu vegetais desde a metade do século XVIII
O Havaí é a região que mais perdeu vegetais desde a metade do século XVIII FOTO: POWO (PLANTS OF THE WORLD ONLINE)_2019_PROJETO DO KEW SCIENCE_ROYAL BOTANIC GARDENS, LONDRES

A maioria das pessoas pode citar o nome de um mamífero ou de uma ave que se extinguiu nos últimos séculos, mas poucas podem dar o nome de uma planta extinta.” A frase, tão chamativa quanto incomum para um artigo científico, abre o resumo de um estudo que cinco pesquisadores publicaram em junho na revista britânica Nature Ecology & Evolution. Trata-se do mais completo levantamento sobre o sumiço de plantas com sementes na Terra. A investigação constata que pelo menos 571 espécies vegetais desapareceram por completo da natureza desde a metade do século XVIII. O número supera largamente o de 217 mamíferos, anfíbios e aves que se extinguiram no mesmo período. Avencas, samambaias e outros tipos de plantas sem sementes, que se reproduzem por meio de esporos, não constam da pesquisa.

Os cinco autores trabalham para os Jardins Botânicos Reais de Londres. A instituição – também conhecida por Kew Gardens, nome que vem do distrito onde está localizada desde sua fundação, em 1840 – é a mais tradicional e prestigiosa do mundo no estudo de plantas. Tomando como ponto de partida a obra Species Plantarum, que o médico, zoólogo e botânico sueco Carlos Lineu lançou em 1753, os cientistas se basearam numa ampla revisão de pesquisas sobre o tema e em bancos de dados vastíssimos, como o da célebre Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, divulgada regularmente pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais.

O levantamento recém-publicado considerou, assim, mais de 330 mil espécies de plantas com sementes descritas pela ciência desde Lineu, quando teve início a Revolução Industrial. Uma das conclusões decorrentes da pesquisa é que a extinção vegetal se tornou mais rápida a partir do século XX. Se 256 espécies haviam desaparecido entre meados do século XVIII e o fim do XIX, outras 315 sumiram de 1900 a 2018. A rapidez da perda se deve principalmente à maior devastação de florestas e outros hábitats naturais pelos seres humanos.

Além de dimensionar o tamanho e a velocidade do extermínio de plantas que um dia habitaram o planeta, o trabalho ajuda a detectar as espécies que se encontram hoje sob maior risco de desaparecimento. “Nosso estudo fornece pela primeira vez uma visão geral de quais plantas já foram extintas, dos locais em que sumiram e com que rapidez isso se deu”, declarou a líder dos pesquisadores, Aelys M. Humphreys, para o site da Universidade de Estocolmo, na Suécia, onde leciona. Saber o que aconteceu no passado, continuou a professora, “abre uma janela sem precedentes” para a humanidade compreender o padrão das extinções e tentar interrompê-lo.

 

A pesquisa confirmou a previsão de que as espécies mais suscetíveis ao extermínio são as endêmicas – aquelas que vivem exclusivamente numa determinada região. À semelhança do que se passa com os bichos, a vulnerabilidade revela-se maior quando o endemismo ocorre em ilhas. Afinal, os impactos da ação humana, como a caça, o desmatamento, a poluição e a introdução de espécies invasoras, são muito mais intensos nos ambientes insulares, de onde não há como fugir.

O estado norte-americano do Havaí é o melhor exemplo dessa vulnerabilidade em ilhas. Lá houve 79 extinções – o que faz dele a área com maior número de plantas desaparecidas, segundo o estudo. Outro bom exemplo é a República de Maurício, arquipélago a 2 mil quilômetros da costa sudeste africana, onde se verificaram 32 extermínios. Entre as regiões continentais com mais extinções, sobressaem a do Cabo, na África do Sul, e o Sudeste brasileiro, que registraram 37 e 26 desaparecimentos, respectivamente. Quanto ao tipo de formação, os vegetais perenes lenhosos – que vivem por mais de dois anos e têm grande porte, a exemplo de arbustos e árvores – apresentam maior probabilidade de sumir, independentemente de onde estejam, já que fornecem lenha ou madeira aos humanos. “Milhões de espécies dependem das plantas para sobreviver. Mapear os vegetais que o planeta já perdeu e está perdendo contribuirá para o desenvolvimento de programas de conservação direcionados a outros organismos”, afirmou a botânica Eimear Nic Lughadha, que integra o grupo de cinco pesquisadores.

Especialista em bioinformática e um dos idealizadores do estudo, Rafaël Govaerts analisou durante três décadas quase toda a bibliografia científica sobre o desaparecimento de plantas. “Muitas das que se extinguiram poderiam ter nos oferecido alimentos e remédios, mas infelizmente nunca saberemos o real valor delas”, lamentou. Ele estima que o número verdadeiro de plantas extintas seja “naturalmente muito mais alto” do que o apurado, pois a ciência ainda desconhece inúmeras espécies que já existiram.

Enquanto as conclusões do levantamento inquietam a comunidade botânica internacional, a cobertura vegetal nativa do Brasil segue em perigo. Com a eleição do presidente Jair Bolsonaro e a chegada de Ricardo Salles ao Ministério do Meio Ambiente, tanto as áreas de reserva legal dentro de propriedades rurais quanto os ecossistemas naturais protegidos por lei estão sob o risco de serem devastados, fazendo o país engrossar a lista de plantas extintas.

Maurício Tuffani

Jornalista especializado em ciência, meio ambiente e ensino superior, é editor do site Direto da Ciência

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