esquina

The Bible is on the table

Lições linguístico-religiosas para a Jornada Mundial da Juventude

Nathalia Lavigne
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Pedro Paulo Boechat chegou apreensivo ao centro paroquial naquela noite de segunda-feira. Horas antes, tinha recebido um recado nada animador: o salão onde recebe os alunos para as aulas semanais de inglês seria ocupado por uma reunião, marcada por algum desavisado para o mesmo horário e local. Na falta de opção melhor, o jeito foi desalojar a turma para uma sala de proporções modestas, com carteiras de madeira e um ultrapassado quadro-negro ao fundo. “Normalmente preparo as aulas com apresentações em PowerPoint e uso um retroprojetor, mas aqui não vou conseguir usar”, justificou-se o jovem de 23 anos.

Mesmo sem a parafernália de sempre, Pedro não se intimidou – em poucos minutos, disparou a escrever com uma habilidade de causar inveja a muito professor pós-graduado em sujar as mãos de giz. De tão compenetrado, nem reparou que alguns alunos haviam chegado e apressavam-se em acompanhá-lo, redigindo às pressas as lições no caderno. Naquela altura, já era difícil encontrar um único espaço vazio no quadro-negro. “Não é para copiar, pessoal, vamos trazer uma folha com tudo isso na semana que vem”, tranquilizou Gabriela Pacheco, de 18 anos.

Gabriela é uma das idealizadoras das aulas de inglês na Matriz de Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, igreja no Rio de Janeiro que se prepara para receber peregrinos do mundo inteiro durante a Jornada Mundial da Juventude, de 23 a 28 de julho. Junto com Pedro e Amanda Mara Rizzotto, de 17 anos, ela ajuda a elaborar as lições de cunho linguístico-religioso voltadas para outros voluntários do encontro internacional católico, que ocorre a cada dois anos. No Rio, são esperados cerca de 2,5 milhões de peregrinos para a 28ª edição, a primeira realizada no Brasil.

 

Iniciado em fevereiro e com um cronograma de quatro meses, o curso segue uma metodologia objetiva e pouco dada a divagações teológicas. Basta observar as anotações de Pedro no quadro-negro, com uma lista de frases como Where is the bank e What time is it? de um lado e um vocabulário relacionado ao tema na outra ponta. Entre o material didático já distribuído aos alunos, um resumo sobre os uncountable nouns – substantivos como water e money, não flexionados no plural – se mistura a orações como Our Father e Hail Mary – Pai-Nosso e Ave-Maria.

Tampouco há uma distinção entre os vocábulos religiosos e termos mais comezinhos: chalice e church têm o mesmo peso que bus e clock. “A gente não tem um método muito definido. Como é um curso bem básico, ensinamos coisas úteis para os voluntários conseguirem se comunicar com os peregrinos”, explica Pedro.

O assunto principal da aula naquele dia eram os meios de transporte e noções de direção, com um repertório para ensinar os estrangeiros a seguir em frente, virar à direita, entrar no metrô ou subir no ônibus. A última frase exigiu uma explicação mais complexa quanto às diferenças entre get on e get in. Para simplificar, Pedro recorreu a um exemplo clássico dos cursinhos de inglês: “É que nem aquela frase, the book is on the table. O livro está em cima da mesa. Subir no ônibus é a mesma coisa.”

Apesar da extensa lista de vocábulos, ninguém se lembrou de traduzir o tão esperado papamóvel. Mas, caso o papa Francisco resolvesse se locomover de metrô pelo Rio de Janeiro, como fazia em seus tempos de arcebispo de Buenos Aires, não faltariam versões distintas da mesma palavra para descrever a situação – do corriqueiro subway ao pomposo tube ou underground, usados no Reino Unido, estão todos registrados no caderno dos alunos.

A ideia de ensinar noções básicas de inglês aos voluntários da Jornada surgiu no início do ano, quando Gabriela e Amanda aguardavam o começo das aulas na faculdade, adiado em função da greve nas universidades públicas em 2012. Fartas de tanta monotonia, as calouras de administração na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e de canto lírico na Universidade Federal do Rio de Janeiro resolveram criar outra função além das que já tinham nos preparativos do evento: Gabriela é coordenadora dos voluntários, enquanto Amanda é assessora da equipe de hospedagem, ajudando a encaminhar os peregrinos para os lugares onde ficarão.

 

Como Pedro é o único que já fez intercâmbio, acabou assumindo mais o comando das aulas. E olha que sua lista de obrigações já é extensa: além do curso de estatística na UFRJ e do estágio em uma empresa de fundo de pensão, ele é o coordenador paroquial, responsável pelo trabalho dos mais de 100 voluntários oficiais da Matriz de Nossa Senhora da Glória. “É um cargo importante, fui escolhido pelo pároco e respondo direto a ele”, orgulha-se Pedro, que participou da última Jornada Mundial da Juventude em 2011, em Madri – mas daquela vez apenas como turista-peregrino.

Já passavam das oito e quinze da noite quando Pedro começou a distribuir as folhas para a última tarefa da aula naquela segunda-feira. Preparada por Gabriela, a lição trazia os versos de uma música com trechos para serem preenchidos pelos alunos – exercício clássico em qualquer aula de inglês. A canção escolhida não tinha nada de litúrgica. “É a história de uma menina que vai morar longe e o namorado fica se correspondendo com ela”, adianta Gabriela.

Os versos inocentes de All My Loving já tinham começado a tocar no celular da moça quando Pedro admitiu: nunca tinha ouvido aquela música antes. Pelo visto a tirada provocadora de John Lennon, de que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo, não está mais valendo.

Nathalia Lavigne

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