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    A “casa de todas as casas”, à sombra do Copan: nos últimos suspiros, o melancólico marketing anunciava o “melhor hambúrguer de São Paulo” CREDITO: CHRISTIAN VON AMELN_FOLHAPRESS

despedida

Todos amávamos a Love Story

O adeus à boate em que Mike Tyson ameaçou morder um garçom

Xico Sá | Edição 175, Abril 2021

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Com uma mulher em cada ombro, Mike Tyson tenta acompanhar o ritmo do bate-estaca na pista de dança. O assédio dos fãs e o efeito gravitacional do uísque, porém, minam a linha de cintura do boxeador norte-americano. Ele ainda busca um ajuste nos passos trôpegos, mas não alcança a elegância desejada. Finge bom humor e, tomado por algum espírito de cavalheirismo, devolve as moças ao solo. O DJ sobe a vinheta esfuziante que indica presença ilustre no ambiente e, logo em seguida, anuncia que o ex-campeão dos pesos pesados se encontra na boate. A música techno volta aos habituais 100 decibéis e Tio João, o gerente, conduz o pugilista para a melhor mesa da “casa de todas as casas”, como apregoa o slogan do estabelecimento. São quatro da madrugada de uma quinta-feira, 10 de novembro de 2005, e aproximadamente 450 pessoas apenas começam a se divertir por lá.

Tudo podia acontecer na Love Story, inclusive você testemunhar o próprio Tyson, minutos depois, parodiando a si mesmo ao insinuar que morderia um garçom – em junho de 1997, o lutador arrancara com os dentes, num ringue de Las Vegas, um naco da orelha direita do adversário Evander Holyfield. Por sorte, naquela noite de 2005, o Ceará, meu amigo garçom, saiu ileso e recebeu gorjeta em dólar. A jornada, todavia, não foi suave para o visitante ilustre. Ao deixar a boate, ele seria detido por policiais militares e levado à delegacia. A bronca: na sua passagem por outro inferninho, o Bahamas, o craque do boxe se envolveu em confusão com um cinegrafista do SBT que o filmara em plena farra com as garotas de programa. O atleta não só agrediu o profissional como danificou a câmera e esmagou a fita com as imagens.

A Love Story ficava num ponto singular de São Paulo: a Rua Araújo, número 232, à sombra do edifício Copan. Posso apostar que, ao saber do recente fechamento da boate, qualquer cliente fiel, tal qual este cronista, rebobinou na memória cenas como as de Tyson. A “casa de todas as casas” recebia boleiros famosos, a exemplo de Ronaldo Fenômeno, estrelas de novelas e outros tipos de artistas – das duplas sertanejas aos roqueiros João Gordo e Nick Cave. Cenas de Bruna Surfistinha, o longa-metragem com Deborah Secco, foram filmadas ali. Na vida real, Raquel Pacheco – a jovem prostituta que usava o codinome de Surfistinha – era habituée e entusiasta do local. “O Love Story é um lugar que todas as pessoas devem conhecer antes de morrer”, ensinava.

 

Trabalhadores noturnos, uni-vos na madrugada! O inferninho nasceu em 1990, sob o signo dos festeiros anônimos, na Rua Major Sertório, 182, também no centrão de São Paulo. Sempre abriu as portas depois da meia-noite, atraindo uma fauna bem diversificada de profissionais que ganhavam o pão enquanto os reles mortais dormiam: funcionários de bares, restaurantes, teatros, cinemas, redações de jornais e alguns escritórios. Sem contar, claro, as garotas de programa. A maioria delas frequentava o estabelecimento para se divertir, após o expediente nas calçadas frenéticas da Rua Augusta ou em boates tão sofisticadas quanto o Café Photo. Daí o slogan “a casa de todas as casas”, usado pela Love Story desde a inauguração.

As operárias do sexo enxergavam o lugar mais como um espaço de happy hour do que ponto de faturamento. Essa característica especial muitas vezes era incompreendida por alguns playboys folgados, que se revoltavam com o “não” das altivas prostitutas. “Isso aqui nunca foi puteiro, no sentido tradicional da coisa. É um local democrático, de encontro das criaturas noturnas”, descrevia Tio João, capaz de tratar com a mesma gentileza o celebrado Mike Tyson ou um simples cavalheiro solitário, perdido na escuridão da metrópole. João Tiago de Freitas, mineiro de Iturama que hoje tem 70 anos, havia trabalhado em outra boate das redondezas, a My Love, até se juntar ao time de fundadores da LS, iniciais empregadas pelos íntimos para falar da casa.

Confidente deste cronista de costumes, a amiga Wânia (pseudônimo noturno) comparecia pelo menos três madrugadas por semana à Love Story, entre o começo do século XXI e 2011. Integrante da primeira geração a usar a internet para vender serviços sexuais, ela conta que seu maior interesse era se jogar na pista com as amigas, “dar um showzinho” no pole dance e provocar casais que frequentavam o local por fetiche. “Para me tirar daquela noitada, só com uma oferta financeira de cair o queixo. Mesmo assim, teria que ser um cara muito bacana.”

A geração pós-Wânia, cada vez mais focada em transações online, nem sequer conheceu a LS. O desemprego nas firmas da região central de São Paulo tirou da pista os trabalhadores insones. Em 2018, a empresa Mimar Ltda., dona do negócio, entrou com um pedido de recuperação judicial. Acumulava uma dívida de quase 2 milhões de reais, boa parte decorrente de ações trabalhistas. Para ganhar fôlego e sobrevida, a turma do Tio João tentou várias mudanças de estilo. Passou a abrir as portas mais cedo e substituiu a música techno pelo breganejo. No entanto, nada mais ornou na “casa de todas as casas”. Em vez das quinhentas pessoas por madrugada, um salão vazio com 150 passantes.

Por não cumprir as promessas da recuperação judicial, a Love Story acabou falindo no início de fevereiro, ao mesmo tempo em que o coronavírus jogava a pá de cal sobre uma área já decadente da cidade. Enquanto tentava segurar as pontas, a boate apelou até para o marketing melancólico: “Temos o melhor hambúrguer de São Paulo.” Toda tentativa de sobrevivência é digna, mas digamos que a comida nunca foi o forte do estabelecimento.

 

Love Story (1990-2021). Ali jaz um templo hedonista da América Latina, onde viramos 1 001 noites de nossas miseráveis vidas.