ficção I

Transtornos hereditários

Oito histórias sobre pais e filhos

Adam Ehrlich Sachs
CREDITO: ROBERTO NEGREIROS_2021

Tradução de Rogério Galindo

PROGRESSO

Um daqueles estranhos acidentes que com tanta frequência impulsionam o progresso científico e tecnológico. Um físico bávaro na primeira década do século XX construiu um aparato cujo objetivo era corroborar a controversa teoria da matéria postulada por seu pai. Quando os indícios fornecidos por seu aparato demonstraram que a teoria de seu pai estava, pelo contrário, errada – era uma teoria bem ridícula, na verdade –, o filho se deparou então com uma escolha: demolir o aparato, obliterando dessa forma todos os indícios de sua própria genialidade científica, ou humilhar seu pai.

Ele vagou entristecido pelas montanhas que circundavam seu laboratório. Primeiro ele decidiu destruir o objeto, e assim preservar o nome de seu pai e extinguir o seu próprio. Depois resolveu fazer o oposto: colocar seu aparato sob os holofotes, publicar seus resultados, enaltecer o seu nome e extinguir o de seu pai. Ele alternava entre essas duas opções: destruir seu aparato e preservar seu pai ou preservar seu aparato e destruir seu pai. Com um machado no colo, se sentou e olhou fixamente para o aparato, cada vez mais atormentado ao considerar essas duas alternativas igualmente horrendas. E então – bem quando seu tormento atingia um ápice de intensidade sem paralelos, e ele erguia o machado acima de sua cabeça –, com a intenção ou de bater com o machado no aparato (preservando assim seu pai) ou arremessá-lo para longe (destruindo assim seu pai), ele percebeu, repentinamente e de maneira absolutamente inesperada, que a placa detectora super-resfriada, um componente relativamente menor do aparato, poderia também, presumivelmente, ser usada, com os devidos ajustes, para congelar carnes rapidamente.

Assim nasceu a técnica moderna para conservação de carnes.

Final feliz para o mundo – nem tanto para pai e filho, que mais tarde se desentenderam em função do império de exportação de carnes congeladas do filho. O pai não conseguia entender como um jovem físico tão promissor podia abandonar a ciência por uma indústria tão sórdida e inescrupulosa. Ele nunca descobriu que devia aos congelados do filho a persistência de sua ridícula teoria da matéria, que reinou suprema até a sua morte e só foi suplantada com o desenvolvimento da mecânica quântica nos anos 1920. A técnica do filho, claro que consideravelmente atualizada, ainda é o método mais eficaz de se congelar carnes rapidamente.

 

O FILHO DO GRAVURISTA FLAMENGO

Um vidente cujas profecias jamais haviam falhado previu que a fama artística do grande gravurista flamengo Dierckx seria um dia eclipsada pela de seu filho recém-nascido. Dierckx imediatamente construiu uma pequena torre de pedra atrás de sua casa e nela trancou seu filho. O menino jamais aprendeu a falar. Jamais aprendeu a desenhar, jamais empunhou uma ferramenta artística, jamais se deparou com tinta, argila ou madeira. Duas vezes por dia ele recebia pão e água por uma fenda na parede, e enquanto comia, seu pai o observava por um pequeno buraco, para se certificar de que nada artístico seria feito com aquilo. O garoto não tinha meios para se expressar; até as suas excreções eram imediatamente removidas. Além disso, para o pai, ele parecia não ter absolutamente nenhuma sensibilidade artística. Ele comia, bebia, urinava, cagava. No inverno, ficava sentado, aconchegado em seus trapos. No verão, pressionava a testa contra o piso frio de pedra. Ele gemia, uivava, tremia. Frequentemente batia a cabeça na parede.

Mas nada disso tranquilizava o gravurista. Muito pelo contrário. Ele superara os próprios mestres não ao gravar melhor o que eles gravavam bem, mas ao gravar o que eles nem sequer cogitaram gravar. Da mesma maneira, é provável que ele nem reconhecesse como arte o modo pelo qual seu filho o superaria artisticamente.

Qualquer uma daquelas coisas podia ser arte! Os gemidos, os uivos, os tremores. A arte de se aconchegar nos trapos, a arte de pressionar a testa contra pedras. O modo como ele comia, como cagava: seria arte? As batidas com a cabeça: arte? Qual aspecto da evidente insanidade de seu filho seria um dia visto como genial, ao passo que suas lúcidas gravuras eram deixadas apodrecendo? No aniversário de 19 anos do filho, o envelhecido gravurista entrou na torre de pedra, apareceu diante do filho pela primeira e última vez, e o matou, apunhalando-o com seu maior cinzel. Não há registros do nome do filho do gravurista. Dierckx continua sendo considerado o ponto alto da gravura flamenga do período tardio do Renascimento.

A profecia malsucedida do vidente passou quase despercebida, mas se tornou uma fonte de fascínio e ceticismo para o filho do vidente, um aprendiz de seu pai. Sempre que o pai afirmava que suas profecias eram infalíveis, ou quando entretinha os convidados de mais um jantar com suas impecáveis previsões sobre o Pato do Rei, o Bócio do Encadernador ou a Fortuna do Mercador Francês, o filho perguntava, com um ar de curiosidade ingênua: “Mas e o Filho do Gravurista Flamengo?”

 

O CASO DOS REFÉNS

O pai de um ativista tunisiano sequestrado na semana passada por extremistas em Túnis se ofereceu para ficar no lugar do filho. Os pais dos extremistas se ofereceram para ficar no lugar dos extremistas, e os pais dos jornalistas que cobriam a situação se ofereceram para ficar no lugar dos jornalistas. Os pais das autoridades tunisianas se ofereceram para ficar no lugar das autoridades, e os pais dos comandantes militares tunisianos se ofereceram para ficar no lugar dos comandantes. Em toda a Tunísia, os pais de tunisianos comuns e, em solidariedade a eles, pais ao redor do mundo todo se ofereceram para ficar no lugar dos seus filhos. Essas ofertas – que não teriam resolvido a situação, mas apenas a envelhecido por volta de uns trinta anos – foram uniformemente rejeitadas.

 

AO CONTRÁRIO DE SOFIA COPPOLA

Em seu primeiro filme, o filho do grande diretor fez esforços extraordinários para evitar a aparência de nepotismo. Ele não usou um único centavo do dinheiro do pai. Não usou nem o elenco nem a equipe com que seu pai costumava trabalhar. Não usou a câmera do pai, ou câmera alguma, para evitar a aparência de nepotismo. Ele filmou tudo com os olhos e armazenou tudo em sua mente, para evitar a aparência de nepotismo. Em vez de usar atores e um roteiro – o método de seu pai –, ele recorreu a pessoas normais, indo na direção delas no meio da rua e fitando-as com seus olhos imensos, tudo para evitar qualquer traço de nepotismo. Um filme muito improvisacional, para evitar a aparência de nepotismo. Embora o pai tenha uma ilha de edição em casa, o filho se recusou a usá-la para editar as horas e horas de material que armazenou em sua mente, preferindo usar para isso um banquinho específico de que gosta, ao lado de uma bicicletaria. Em vez de exibir o filme nos cinemas – o método de seu pai –, ele o projeta em uma tela de 21 por 9 dentro de sua cabeça e faz um resumo para os outros.

Como resultado dessas precauções, ninguém acusa o jovem diretor de nepotismo, como fazem com Sofia Coppola.

 

PUNGENTE

Já idoso, Tom Browning, o homem surdo e cego mais famoso da Irlanda, publicou um livro de memórias pequeno mas imensamente tocante chamado Meu Pai e Eu, sobre o homem que o criou quando ele era pequeno. As descrições sensoriais de suas memórias são únicas: em vez da visão ou do som de seu pai, em vez de suas conversas, Browning lembra “o toque da palma de sua mão, às vezes suave e seca, às vezes úmida, às vezes besuntada de creme”, ou a “imensa variedade de aromas que indicavam sua proximidade – e naqueles tempos parecia que ele estava sempre por perto”. O livro era tão maravilhoso que ninguém teve a coragem de contar a Browning que ele foi criado não por seu pai (que ele jamais conheceu), mas por trinta freiras do Mosteiro de Santa Clara, em Kilkenny. A impressão geral foi de que esse erro não diminuía, e até aumentava o caráter pungente do livro, podendo na verdade ser inteiramente responsável por ele.

 

EM EQUILÍBRIO

Por 22 gerações, a família Auerbach oscilou de modo extremamente eficaz entre homens de ação e homens de pensamento. Os homens de ação navegavam e decidiam taxas de juros, pontificavam e legislavam, construíam edifícios e estabeleciam fronteiras. Seus filhos, chocados com as vidas frenéticas, hipócritas, impermanentes e sem sentido dos pais, tornavam-se então homens de pensamento – cada um deles produzindo uma biografia monumental de seu pai e um romance obviamente autobiográfico sobre relações entre pais e filhos. Os filhos destes, por sua vez, ficavam chocados com seus pais mansos, introvertidos, lânguidos, articulados e assexuais – homens intelectualmente coerentes ao ponto da paralisia, sentados em seus estúdios por cinquenta ou sessenta anos a fio, com palavras na ponta da língua. Se tornavam então homens de ação.

Houve onze edifícios Auerbach e onze biografias Auerbach, onze políticas de definição de juros e onze romances obviamente autobiográficos sobre pais e filhos. Um sistema em equilíbrio, regular como um pêndulo.

Mas agora, na 23ª geração, a coisa toda desandou: um homem de pensamento inexplicavelmente deu origem a outro homem de pensamento. É um presságio do fim. Uma família pode ser capaz de resistir a dois homens de ação consecutivos. Mas dois homens de pensamento consecutivos, com dois romances sobre o mesmo tema, ambos nitidamente autobiográficos, e uma biografia de um biógrafo: nenhum sistema sobrevive a tamanha introspecção ininterrupta.

 

O RIVULIDAE DA FAMÍLIA

Em 1863, o ictiólogo suíço Rudolf Fehrmann, cuja teoria ligando a complexidade dos peixes de água doce à existência de Deus fora ridicularizada por Darwin em A Origem das Espécies, viu seu filho, Conrad, partir do Porto de Hamburgo num veleiro chamado Rondelet. Conrad restabeleceria a honra do nome Fehrmann ao navegar para o Uruguai e pescar nos rios de lá um minúsculo peixe de água doce da família Rivulidae. Segundo seu pai, era um peixe idealizado de maneira tão engenhosa (sobretudo nas complexidades do sistema reprodutor) que iria de uma só vez confirmar sua teoria e desferir um humilhante golpe mortal na teoria de Darwin. “Vá”, exortou o pai no cais, com certa ternura. “Traga para mim aquele minúsculo peixe uruguaio.”

Conrad, porém, era um darwinista. Ele jamais admitiu isso ao pai, claro, e enquanto observava o arcaico ictiólogo encolher no cais, acenando feliz com os braços acima da cabeça, Conrad sentiu uma angústia indescritível. Em vez de navegar para o Uruguai e cumprir a missão dada pelo pai, ele velejou até a cidade de Wilhelmshaven, ali perto, onde desmanchou o navio, dispersou a tripulação e trocou seu nome de Fehrmann para Pflug.

Jamais voltou a ver o pai.

Mas seguiu acompanhando um ou dois periódicos sobre ictiologia, e por suas páginas ficou sabendo que o pai jamais perdeu a esperança de que o filho voltaria com o peixe de água doce uruguaio que destruiria Darwin. Quarenta anos depois, quando o pai estava com 101 anos e a evolução era ponto pacífico entre os ictiólogos, Rudolf escreveu na Revista da Biologia dos Peixes que seu filho (“um brilhante cientista por mérito próprio”) em breve chegaria “ao Porto de Hamburgo com um minúsculo peixe uruguaio da família Rivulidae que irá criar um problema gigantesco para o sr. Darwin”. O pai morreu meses mais tarde, e Conrad publicou um panegírico em sua homenagem no mesmo periódico. “Se algo indica a insuficiência das leis da natureza”, Conrad escreveu, “não são as intricadas gônadas de um peixe uruguaio de água doce, mas sim a misteriosa fé de um ictiólogo suíço.”

 

DISCORDÂNCIA

Considerando os caminhos divergentes que suas vidas tomaram, um filho cujo pai lhe deixou sua extensa coleção de livros não ficou surpreso ao descobrir que a biblioteca do pai não tinha a menor sobreposição com a sua. O que ele tinha, o pai não tinha, e o que o pai tinha, ele não tinha. Ele não ficou surpreso, mas mesmo assim, ao colocar os livros do pai na estante ao la-do dos seus, foi levado às lágrimas pela visão dessas bibliotecas que não se sobrepunham, um símbolo poderoso do abismo entre eles.

Alguns anos mais tarde, porém, passando os olhos distraído pelas prateleiras, ele percebeu que tinha dois exemplares de um pequeno livro preto, um livro que ele lembrava vagamente de ter lido, as memórias e máximas de um polímata alemão do século xix. Um dos exemplares tinha seu próprio nome rabiscado na capa interna, e o outro tinha o nome do pai rabiscado exatamente no mesmo lugar. Percebendo que havia se deparado com algum canal secreto subterrâneo ligando a mente do seu pai à dele – um canal que tornaria superficiais e irrelevantes todas as aparentes diferenças entre os dois –, ele abriu ambos os livros e deixou-os escancarados sobre a mesa, abertos na mesma página.

De início as anotações pareceram bastante distintas. Depois, virando rapidamente as páginas, ele percebeu que elas eram absolutamente, infalivelmente distintas. Aquilo que o pai sublinhara ele não sublinhou, e aquilo que ele sublinhou o pai não sublinhara. Nos pontos em que o pai colocou à margem um único ponto de exclamação, ele colocou um único ponto de interrogação, e vice-versa, e nos lugares em que o pai colocou dois pontos de exclamação ele colocou dois pontos de interrogação, e vice-versa. Onde um escreveu Sim o outro escreveu Como assim, onde um escreveu Não o outro escreveu Verdade autoevidente, onde o primeiro escreveu Hein? o segundo escreveu Soa como Sócrates (na Apologia) e onde o segundo escreveu Hein? o primeiro escreveu Soa como Sócrates (na Apologia). Em todos os pontos onde o pai havia escrito ver a Ética Protestante de Weber, o filho escreveu Tendencioso, e o Tendencioso do pai estava do mesmo modo sempre associado ao ver a Ética Protestante de Weber do filho. Sempre que o filho anotou Que argumento inteligente!, seu pai escreveu Esse tipo de pensamento levou diretamente ao Holocausto, e, desnecessário dizer, os argumentos que o pai considerou muito inteligentes foram precisamente aqueles que o filho acreditava terem levado diretamente ao Holocausto.

Ele podia, é claro, ter visto essas discordâncias negativamente, como mais um símbolo – até mesmo o símbolo definitivo – do vácuo infinito que se abriu entre os dois. Porém, na verdade, o filho ficou profundamente comovido pela abrangência, pela exatidão, pela perfeição da discordância com seu pai. Jamais havia sentido os dois tão próximos.


Os contos integram o livro Inherited Disorders: Stories, Parables & Problems (Regan Arts)

Adam Ehrlich Sachs

É escritor norte-americano

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